Uma decisão histórica e corajosa do Comité Nobel: Maria Corina Machado

“O prémio Nobel da Paz vai para uma corajosa e comprometida campeã da paz – uma mulher que mantém a chama da democracia acesa, num tempo de crescente escuridão” (1)

 

Nobel Foundation 2025

10 October 2025

 

  1. Uma decisão histórica e corajosa do Comité Nobel: Maria Corina Machado.

Leitura comentada do texto de fundamentação relativo à atribuição deste prémio.

Hoje foi, sem dúvida, um dia feliz para a Liberdade, a Democracia, os Direitos Humanos e o Estado de Direito. A premiada e o movimento pacífico que lidera, “Súmate”, em prol de uma transição da ditadura para a democracia, na Venezuela são símbolo de um compromisso da sociedade civil no sentido da Paz e dos valores acima enunciados sem os quais, os povos são transformados em escravos. Corina Machado congregou a oposição sem comprometer os seus valores, situou, sempre, as suas reivindicações no campo da Democracia, exigindo eleições livres.

Na fundamentação divulgada, pelo Comité Nobel, no documento acima citado (1), é feita uma descrição do percurso da agora galardoada, assim como desenhado um histórico da degradação do regime, na Venezuela, sobretudo desde Maduro, mas com acentuado agravamento já aquando dos governos de Chavez. O Comité refere um número que nos deve provocar revolta: os oito milhões de pessoas que fugiram do país. Portugal acolheu muitas pessoas, a Região Autónoma da Madeira, em particular.

Ainda citando o texto da fundamentação, é muito relevante a referência à Democracia como “pré-condição para uma paz duradoura”, explicitando o quanto o número crescente de “regimes autoritários, desafia as normas, recorrendo à violência”. O Comité é muito claro na chamada de atenção que faz, seguidamente: “assistimos às mesmas tendências, globalmente: abuso do Estado de Direito, imprensa livre silenciada, críticos detidos e as sociedades empurradas para o autoritarismo e a militarização”.

Reconheço que, nestes tempos de notória perda das bússolas éticas, foi profundamente reconfortante e democraticamente encorajador ler as palavras seguintes: “A Democracia depende das pessoas que recusam ficar em silêncio, que ousam dar um passo em frente, apesar da gravidade do risco e que nos lembram que a liberdade nunca deve ser tomada como garantida, mas deve ser sempre defendida – com palavras, com coragem e com determinação”.

Não será despiciendo referir que, entre 2015 e 2025, a ONU, capturada por interesses contrários à sua fundação, ao serviço de agendas conflituosas e lesivas dos valores que subjazem à sua Carta, procedeu a zero condenações da Venezuela. Zero. Guterres deixou muito claro o seu conflito de interesses ao proclamar 173 condenações a Israel que, com todas as suas limitações, nunca deixou de ser a única democracia no seio das autocracias árabes e muçulmanas.

  1. A importância de ser mulher ou a Paz como revolução

Maria Corina Machado é uma mulher corajosa, repito, para quem os valores que subjazem às democracias liberais são aqueles que, apesar das fragilidades reconhecidas, melhor garantem o direito dos povos a uma vida em Paz e à justa aspiração pela felicidade. A sua determinação e coragem concedem à luta pela libertação do povo venezuelano, uma integridade rara e que consubstanciou o seu justo direito ao prémio. No entanto, não devemos ignorar os sinais “ocultos”, mas convictos, que o Comité Nobel parece não esconder: a importância de ser mulher. Ao referir a degradação crescente das democracias, mesmo as respaldadas por organizações transnacionais, como a União Europeia, por exemplo, o Comité exalta a Mulher como agente transformador das sociedades, como porta-voz dos valores que outorgam aos homens e mulheres que as compõem, as condições para a sua realização plena. Num tempo em que os regimes autocráticos, em especial os muçulmanos mais radicais (exemplo, o regime iraniano talibã) silenciam e tornam invisível a mulher, não só nos fora do poder, mas no espaço público, qualquer que seja, num tempo em que se normaliza, com o apoio cobarde de mulheres ocidentais, a violência sobre as mulheres, com argumentos de necessária tutoria masculina, de fundamento para castigos que podem, até, conduzir à sua morte, neste tempo de trevas e de retorno a uma época de barbarismo supremacista, a valorização da mulher como rosto livre e com voz própria, representa uma mensagem tremendamente poderosa, por parte do Comité Nobel. Corina, protagonista de uma revolução pacífica, instauradora da democracia e da paz, torna-se, assim, o símbolo, sem censura ou apagamento, do valor e do papel das mulheres na construção de sociedades livres e pacíficas.

  1. “No final, todos nos tornamos histórias” – Margaret Atwood

As estatísticas, às quais se refere, implicitamente, o texto do Comité Nobel, expõem a realidade preocupante que enfrentamos: actualmente, são menos os países democráticos do que os não-democráticos. A urgência de uma revolução no sentido de restaurar as democracias liberais, de tratá-las nas suas feridas, de expurgá-las dos tumores que se foram instalando, não ignora a abnegada entrega de pessoas como Corina Machado, cujo contributo para o mundo livre fica, deste modo, registado para sempre.  Nas palavras de Margaret Atwood, “No final, todos nos tornamos histórias”, aquelas que construímos, preferencialmente, em narrativas de Bem e de respeito por cada ser habitante deste planeta.

A propaganda, o revisionismo histórico, a inversão ideológica e o falso humanitarismo como ideologia supremacista, representam perigos, quais entraves, à construção de sociedades livres. A sinalização da virtude, o cancelamento do exercício de contraditório, o recurso à emoção colectiva como justificação para a aceitabilidade da barbárie, suscitam veemência na condenação e uma persistência na Educação como força promotora da Paz e transformadora das sociedades: “A democracia é o que torna o ideal de liberdade e de igualdade em realidade” (David Sassoli). A rejeição dos populismos, de direita e de esquerda, como forma de polarização das emoções e de manipulação das vontades, é um imperativo ético-político que não pode ceder ao ódio como modo de ser e de estar no mundo.

As pessoas, quaisquer que sejam os seus credos, as suas origens ou as suas histórias de vida, querem Paz. Estamos, acredito, a viver não só uma profunda transformação geopolítica, feita de incertezas e de medos, também, mas principalmente a começar a acreditar que a oportunidade para “resolver” o mundo no sentido da Paz não pode ser perdida. É isso que significa “manter a chama da democracia acesa, em tempos de crescente escuridão” (1): dar uma oportunidade à Paz, trabalhar no sentido da Paz.

O impacto do horror terrorista, fanático e bárbaro, tem sido terrífico. As atenções mediáticas voltam as costas aos treze países onde os cristãos estão sujeitos a genocídio: a eliminação intencional de um grupo específico da sociedade. Opostamente, são cada vez mais os países teocráticos a rejeitar o extremismo jihadista. Mesmo num quadro de regras muito restritas e de limitação das liberdades individuais, a barbárie está a ser rejeitada. O recente acordo de Paz, entre Israel e o poder terrorista do Hamas, com o apoio e incentivo de vários países islâmicos, vizinhos, é disso prova. Este prémio Nobel reforça essa tendência instituindo uma pesada derrota à onda racista/antissemita violenta que, como expectável, não se manifestou pela Paz, nem a celebrou. São os grandes perdedores da luta por um mundo melhor.

O Prémio Nobel da Paz 2025 é um sinal de construção de histórias de esperança, de paz, de liberdade, de democracia e de respeito pelos Direitos Humanos e pelo Estado de Direito. O futuro, será o da Educação para a Paz. Que seja doce a vitória de Corina Machado.

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