Causa de morte: modelo de desenvolvimento económico encostado ao turismo

AF!

O Elevador da Glória nasceu há 140 anos para servir Lisboa.
Cresci a vê-lo subir e descer a colina, suavizando o caminho mais íngreme, fazendo da cidade uma casa mais habitável.
Foi engenho ao serviço do quotidiano, ponte entre a baixa e o Bairro Alto, entre o trabalho e o descanso.
Foi Lisboa para lisboetas.
Mas o tempo mudou, e o que foi obra de utilidade pública tornou-se engrenagem de um modelo económico encostado ao turismo.
O Elevador da Glória já não levava apenas corpos cansados do dia: carregava gente de passagem, olhos que olham, mas não pertencem. O bilhete (+ de 4€), deixou de ser o preço de um transporte, tornou-se a moeda de um museu vivo onde Lisboa se exibe, mas não respira.
Com o turismo a crescer sem freio, as viagens multiplicaram-se até ao esgotamento. Os protocolos de manutenção, feitos de calendário e não de realidade, ficaram cegos ao desgaste. E quem lá passava diariamente sempre o temeu: a cidade não aguenta tanto uso, o ferro não aguenta tanta ganância.
E hoje o pressentimento cumpriu-se.
A corda partiu. O ascensor número 1 descarrilou e rasgou o silêncio da colina ao embater contra um prédio. O ascensor número 2, arrastado, caiu mais abaixo. Quinze mortos. Dezoito feridos. Uma criança entre eles. Lisboa parou. E o coração dos lisboetas partiu…
Espero que não seja só o aço a quebrar, e espero francamente que se quebre a ilusão de que o turismo pode ser motor de tudo, esquecendo os que aqui vivem.
O Elevador da Glória caiu vítima do mesmo modelo que o forçou além da sua medida.
Causa de morte: o turismo desmedido.
Causa de morte: uma cidade transformada em palco e não em lar.
Causa de morte: Lisboa órfã de lisboetas.

Cláudia Paixão


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