A tragédia do Elevador da Glória expôs a vulnerabilidade estrutural dos dois maiores hospitais de Lisboa na gestão de acidentes com múltiplos traumatizados

Imagem criada por IA – Equipa Pré-Hospitalar

AF!

A tragédia do Elevador da Glória escancarou duas fragilidades críticas no sistema de saúde lisboeta: a indisponibilidade, em simultâneo, de unidades de trauma completas nos hospitais de Santa Maria e São José e a incapacidade de dar resposta imediata a múltiplos pacientes politraumatizados.

  • A Urgência de Trauma do Hospital de Santa Maria encontrava-se encerrada ao momento crítico, forçando o desvio de feridos graves e atrasando cirurgias de salvamento.
  • O Hospital de São José dispunha de apenas um especialista de trauma em serviço, insuficiente para atender aos doentes graves que chegaram praticamente em simultâneo.

Sem uma rede integrada de centros de trauma de nível I operando 24 horas, com equipas multidisciplinares fixas, a cidade estaria à mercê de atrasos fatais.

O que verdadeiramente salvou vidas foram dois pilares:

  • Assistência pré-hospitalar de excelência – INEM e bombeiros puseram em prática protocolos de macatrauma com triagem avançada, estabilização no local, e transporte rápido e coordenado por ambulâncias, evitando colapsos nos hospitais e reduzindo o tempo-pulso até ao tratamento definitivo.

  • Espírito de voluntariado e solidariedade – médicos e enfermeiros que estavam de folga ou noutros serviços apresentaram-se espontaneamente nos hospitais de Santa Maria, São José e São Francisco Xavier para reforçar as equipas e assegurar cirurgias e cuidados críticos, compensando a falta de quadros escalados para uma crise desta dimensão.

Sem esta combinação de resposta pré-hospitalar e mobilização voluntária, o desfecho teria sido significativamente mais grave.

Sem a capacidade de resposta pré-hospitalar – com triagem especializada, suporte avançado de vida e coordenação em rede – o caos nos hospitais teria resultado em perdas ainda maiores. Esta catástrofe mostra que, enquanto não se assegura nos hospitais a redundância de leitos, blocos operatórios e quadros médicos de trauma, a assistência pré-hospitalar continua a ser o esteio capaz de manter a dignidade e a esperança mesmo nas horas mais críticas.


[1]Protocolos de macatrauma (ou de Incidente com Múltiplas Vítimas) são conjuntos de diretrizes e procedimentos padronizados que orientam a resposta coordenada de equipes pré-hospitalares, hospitais e serviços de apoio em situações de grande número de vítimas, como desastres naturais, acidentes de grande envergadura ou atentados. Seu objetivo é otimizar recursos e priorizar o atendimento para salvar o maior número de vidas possível.

Principais componentes:

  1. Classificação e Triagem (Triage)

    • Avaliação rápida de cada vítima para categorizá-la conforme gravidade (por exemplo, Vermelho = risco de morte iminente; Amarelo = lesões graves mas estáveis; Verde = ferimentos leves; Preto = sem sinais vitais).

    • Utilização de protocolos reconhecidos, como START (Simple Triage And Rapid Treatment) ou SALT (Sort, Assess, Lifesaving Interventions, Treatment/Transport).

  2. Organização de Setores e Fluxos

    • Definição de áreas de triagem, tratamento imediato, observação e evacuação.

    • Estabelecimento de rotas seguras de chegada e saída de ambulâncias e veículos de resgate.

  3. Comunicação e Comando Unificado

    • Implantação de um centro de comando que coordene todas as forças envolvidas (INEM, bombeiros, polícia, hospitais).

    • Uso de sistemas de rádio, aplicativos e linhas dedicadas para troca de informações em tempo real.

  4. Emprego de Recursos e Logística

    • Mobilização de ambulâncias, helicópteros, equipes de socorro e suporte para múltiplas vítimas.

    • Gestão de estoques críticos (medicamentos, oxigénio, materiais de intubação).

  5. Reforço e Relocação de Vítimas

    • Aplicação do conceito de “pulverização” das vítimas pelos hospitais, distribuindo-as conforme capacidade de atendimento.

    • Mecanismos de transporte aéreo e rodoviário para levar os casos mais graves a centros de trauma.

  6. Registo e Monitorização

    • Controle de número e status das vítimas por meio de fichas de registo unificadas.

    • Monitorização contínuo das condições de cada paciente e redistribuição de recursos conforme evolução.

  7. Treinamento e Simulações

    • Exercícios periódicos de largada simulada de múltiplas vítimas para testar interoperabilidade e tempos de resposta.

    • Avaliação pós-evento para revisão de falhas e atualização de protocolos.

Ao garantir uma abordagem padronizada, os protocolos de macatrauma permitem reduzir o “tempo-pulso” (intervalo entre o ferimento e o início do atendimento definitivo), otimizar a utilização de recursos escassos e aumentar as taxas de sobrevivência em cenários de alto impacto.


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