Ouvi, um dia destes, a pergunta: Chamar de mentiroso a alguém é um insulto? E, tranquilamente, a resposta foi negativa.
À partida, só leva o rótulo de mentiroso quem mentiu. E, se mentiu, outra coisa não pode ser senão mentiroso.
Dizer que alguém é mentiroso, quando, comprovadamente, mentiu, não constitui desrespeito da honra ou da dignidade da pessoa em causa, por se tratar de uma constatação dos factos.
Se quem teima é teimoso, quem não trabalha é preguiçoso, quem tece ardis é ardiloso, quem tem ambição é ambicioso, quem tem ansiedade é ansioso, quem tem orgulho é orgulhoso, quem tem curiosidade é curioso, quem tem vaidade é vaidoso, por que razão aquele que, de facto, mente não há-de ser chamado de mentiroso?
Se alguém profere ou escreve uma mentira, outro nome não pode ter senão o de mentiroso. Tal não constitui insulto, mas a realidade. Dizer que alguém mentiu é apenas uma afirmação baseada em factos, e não necessariamente um insulto.
Quem faz da mentira uma forma de estar na vida ou quem tem prazer reiterado em dissimular ou falsear é um mitómano. A tendência impulsiva para mentir é uma doença. Mas, após diagnóstico do médico psiquiatra ou do psicoterapeuta, pode ser tratada.
Inúmeras vezes, assistimos na vida política, deputados e governantes a denunciar a mentira e a chamar os seus adversários de mentirosos, num tom mais ou menos acalorado, e ninguém se sente insultado. Faz parte da retórica. Se, com efeito, houve e ficou demonstrada uma mentira num determinado processo, há que apontá-la. A pessoa, que a denunciou, apenas disse a verdade.
Discutir a veracidade das informações, em ambientes formais, é absolutamente necessário na instrução de projectos ou processos. Trata-se de crítica legítima dentro de um debate, e não ofensa gratuita.
As palavras não nos devem meter medo. São o que são, e nada mais! A sua conotação é um processo dinâmico. Tantas palavras que, há anos, eram intoleradas ou somente ditas em círculos muito restritos, são hoje do uso comum.
Atualmente, há uma tendência para atenuar determinadas situações, com eufemismos, em consonância com o estatuto social ou o ambiente. O menos favorecido mente, o mais considerado diz inverdades. O rico desvia, o pobre rouba ou furta.
Há uns anos adquiri um ‘Dicionário de Eufemismos da Língua Portuguesa’, onde se podem encontrar alguns exemplos bem sugestivos. Eis alguns: autoritarismo = procedimento mais actuante; bisbilhoteiro (ou bilhardeiro) = propagador de inverdades factuais; censura = política do silêncio; dívida = acerto financeiro; escroque = pessoa sem princípios; fugir aos impostos = adulterar contas; marido enganado = enfeitado; mentira = afirmação contrária à verdade a fim de induzir erro; mentiroso = pessoa que não fala a verdade, não sincero; negro ou preto = afrodescendente; pobre = população carente; prostituta de luxo = acompanhante de luxo; roubar ou furtar = adquirir algo ilicitamente; roubo = posse indevida.
Como este dicionário bem define, eufemismo «é o uso da palavra, locução, acepção mais agradável, ou expressão da demagogia comunicativa com objectivo de minimizar e suavizar a expressão ou ideia rude, ofensiva ou desagradável, substituindo o termo contundente por vocábulos ou circunlocuções amenas ou polidas.» (Oliveira, 2015, p. 25).
Há pessoas muito liberais nos seus comportamentos que, quando se trata de algo que, na sua lógica, lhes toca, ainda que ao de leve, na ponta do dedo mindinho ou nos pergaminhos bafientos, logo se metamorfoseiam em virgens imaculadas ou santas de pau oco. Contudo, são as mesmas que, quando, com razão, são contrariadas, de imediato destilam veneno de cobra peçonhenta.
Se a imputação de mentiroso for falsa, estamos perante uma ofensa. Mas quando resulta de uma confirmação de factos e é escrita ou dita, sem afronta, não há que recear da palavra «mentiroso».
Um dos escritores que mais tenho lido e com quem muito tenho aprendido, o Padre António Vieira, proferiu no dia 22 de Março de 1654, na Igreja Maior da cidade de São Luís do Maranhão, o sermão da Quinta Dominga da Quaresma. Neste sermão, Vieira tomou como conceito predicável João, 8,55.
Neste passo do Evangelho, os judeus acusavam Jesus de ter um demónio e repudiavam esta sua afirmação: «Se alguém observar a minha palavra, nunca experimentará a morte.» Então, o Mestre respondeu: «Se Eu me glorificar a mim mesmo, a minha glória nada valerá. Quem me glorifica é o meu Pai, de quem dizeis: “É o nosso Deus”; e, no entanto, não o conheceis. Eu é que o conheço; se dissesse que não o conhecia, seria, como vós, um mentiroso. Mas Eu conheço-o e observo a sua palavra.»
Tomando este versículo de João como mote, o pregador, no exórdio, começou por aclarar o episódio descrito pelo evangelista: «Temos juntamente hoje no Evangelho duas coisas que nunca podem andar juntas: a verdade e a mentira. E por que não podem andar juntas, por isso as temos divididas; a verdade no pregador, a mentira nos ouvintes; o pregador muito verdadeiro, o auditório muito mentiroso.» De seguida, teceu sábias considerações sobre a mentira: «Não crer a verdade é mentir com o pensamento; impugnar a verdade é mentir com a obra; afirmar a mentira é mentir com a palavra.»
Na peroração, António Vieira exorta à luz salvífica, sublinhando «que não só por consciência, mas por conveniência se deve aborrecer a mentira e amar a verdade. Por conveniência, porque viveis em uma terra muito pequena. Em toda a parte fazem muito mal as mentiras; mas nas terras grandes têm saca e têm muito por onde se espalhar; nas terras pequenas, todas ali ficam.»
Sem eufemismos, assim falava Vieira aos cristãos do Maranhão:
«Ora, cristãos, por reverência daquele Senhor (que sendo Deus se preza de se chamar Verdade) que façamos hoje uma muito firme e muito verdadeira resolução de não haver paixão nenhuma, nem respeito, nem interesse que vos faça torcer nem faltar um ponto à verdade; quanto ao passado, que examinemos muito devagar e muito escrupulosamente se temos faltado à verdade em alguma coisa, principalmente em matéria da honra de nossos próximos. Olhai, senhores, que este, este é o pecado que mais facilmente se comete, e com mais dificuldade se restitui.» (Sermão da Quinta Dominga da Quaresma, § VII).
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