O avô do Bailiff

Os Birt vieram do sudoeste de Inglaterra para Jersey em 1951. St John Michael Clive Birt, filho de Amelius Cyril Birt, nasceu em Caterham, Inglaterra, a 12 de fevereiro de 1916 e, tal como o seu pai, era médico. Aliás, provinha de uma família de médicos, quer pela parte materna, quer pela paterna.

Naquele dia de chuva incessante de março de 2012, o frio gélido trespassava-nos o casaco até a espinha. Sir Michael Cameron St John Birt, então Bailiff de Jersey, convidara-nos para uma receção na Royal Court em St Helier. Conhecia-o da altura em que era Deputy Bailiff do meu infindável amigo, Sir Phillip Bailhache, um dos arquitetos da geminação entre as regiões da Madeira e de Jersey.

Sir Michael Birt não era médico como os seus ascendentes, era juiz: presidia ao Parlamento do Estado de Jersey e ao Tribunal, era o primeiro responsável pelo cumprimento da Constituição jersiana e era a primeira figura dos States of Jersey.

Quando a “sede” dos jornalistas terminou e as respostas concluídas, a erosão do tempo ia dando lugar a uma paz diferente, quiçá mais confidente, entre nós, pois já nos conhecíamos há muito e ele sabia bem o quanto eu o prezava.

— O meu avô era como tu, um eterno apaixonado, e gostava de dançar — comentou Sir Michael Birt. — Acreditarias se te dissesse que ele morreu justamente a dançar numa ilha quente?

— Onde? — perguntei. — Em que ilha?

— Não sei, talvez na Jamaica — respondeu. — Ele viajava muito. O meu pai contou-me que ele morrera numa ilha do Sul, contudo não sei qual. Toda essa informação estaria escrita, porém há documentos que me faltam. Enfim — suspirou. — Há coisas que acontecem neste mundo que não se explicam.

E, continuando a conversa, falou-me de outras coisas: da sua visita à Madeira no ano seguinte — que acabou ocorrendo em julho de 2013 —, dos dossiês pendentes entre as duas regiões e da composição da sua delegação ao mais alto nível, que incluía o Primeiro-Ministro Ian Gorst e demais entidades.

De regresso ao Funchal, lembrei-me que conhecia um rapaz de nome Carlos Almada, responsável pelo cemitério inglês, pelo que entrei em contacto com o mesmo.

— Carlos — disse. — Conseguirias ver se tens, no teu cartório, o nome de um Senhor Birt? Ele terá morrido algures numa ilha quente, achas que poderia ter sido aqui na Madeira? Obrigado. Depois explico-te o porquê.

Semanas depois, obtive a seguinte resposta:

— Olha, Gonçalo, descobri um falecido de nome Birt, mas não sei se é quem procuras.

— Carlos, passa-me essa informação urgentemente.

Tratava-se, efetivamente, de Dr. Amelius Cyril Birt, nascido a 5 de outubro de 1879, em Caterham, Inglaterra, filho de Daniel e Mary Ella Capper Birt, que falecera, no Reid’s Hotel, com 73 anos de idade, a 15 de setembro de 1952 e foi sepultado, no dia seguinte, na campa 176-A.

Minutos depois, essa informação já se encontrava em Jersey, nas mãos de David Filipponi, chefe de gabinete do Bailiff, para confirmação confidencial. Uma vez obtida a mesma, a Celina e eu, com autorização da nossa chefe, a Dr.ª Conceição Estudante, arranjámos uma lápide em mármore com a identificação do falecido que mandámos colocar na campa do avô do Bailiff de Jersey.

De 11 a 14 de junho de 2013, o período em que se deu a visita oficial, em confidência absoluta para com o Bailiff de Jersey (que, de facto, desconhecia por completo a nossa iniciativa), encontrámos maneira de convidá-lo findo o programa oficial para na sexta-feira, 14 de julho, às 12:20, visitar um “jardim muito bonito” perto das muralhas da nossa cidade do Funchal.

No dia da visita, Sir Michael Birt perguntou-me, em privado, depois do pequeno-almoço, se deveria vestir-se formalmente ou smart casual para o dito passeio, ao que lhe respondi:

Sir, smart casual será apropriado.

E saímos.

Ao chegarmos ao fim da Rua da Carreira, em carro oficial e com batedores da polícia, abriu-se o portão do tal jardim bonito junto ao muro da cidade e Sir Michael, de mão dada com a sua mulher Lady Joan Birt, caminhou, sem que ele fizesse a mínima ideia, até à campa do seu falecido avô Dr. Amelius Cyril Birt.

— O seu avô está aqui — afirmei, apontando para a campa fria, rodeada de relva ainda húmida e abafada pelas bandeiras da Região e de Jersey.

O Bailiff de Jersey deixou cair uma lágrima que lhe percorreu a face, o fato smart casual e os sapatos de marca para se afincar na sepultura.

O silêncio foi tanto que se ouvia a léguas de distância.

As mãos cúmplices do marido e da mulher amarraram-se como se algemadas entre si.

Passados meses, um oficial da PSP bateu-me à porta de casa e perguntou-me:

— Chama-se Gonçalo dos Santos?

— Sim, sou eu — respondi, pensando que de uma multa não se trataria, que detido não deveria estar a ser e me questionando que mal eu teria feito.

— Por favor, abra a porta para assinar aqui um papel — pediu o polícia.

Pensei:

“Estou feito.”

Assinei, então, uma folha quadrada de um livro azul e o agente entregou-me uma encomenda.

— Sabe o que é? — questionei.

O polícia respondeu:

— Vem do protocolo de Estado, é correspondência entre estados, pelo que é confidencial.

O agente ainda não tinha virado a esquina, já eu tinha aberto o suculento envelope, tamanha era a minha curiosidade: tratava-se do livro A Short History of the English People de John Richard Green. Na folha de guarda, podia ler-se a assinatura de A. C. Birt e, à parte, uma nota, em inglês, que transcrevo:

“Para o Gonçalo dos Santos, com os cumprimentos, todos os votos de felicidades e um grande agradecimento por parte do Bailiff, por uma visita muito especial.”

Era, nem mais nem menos, o livro que o seu avô estava a ler na noite em que morreu enquanto dançava, com a sua amada Gertrude Isabel Kidd, na tal ilha quente do Sul.

A todos os meus leitores, Feliz Natal.

P.S.: Esta história foi contada ao público de Jersey, no discurso à nação, quando o Bailiff Sir Michael Cameron Birt se aposentou, em 2015, sendo, tanto para mim como para ele, um momento de expressiva alegria.


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