Peça de teatro “Mãe Coragem e seus Filhos” vale a pena porque convida o público a pensar e a não baixar os braços face à guerra

A peça de teatro “Mãe Coragem e seus filhos”, de Bertolt Brecht, que está em exibição no Centro Cultural e de Investigação do Funchal mostra bem as potencialidades do drama na representação da vida, pela mestria dos atores, pela profundidade da mensagem e, acima de tudo, porque ensina o público a pensar e a não sair indiferente do teatro, como sempre defendeu o dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

Na passada quinta feira, centenas de alunos assistiram à estreia de um trabalho que assina também o trabalho meritório da Companhia Contigo Teatro que tantos trabalhos criativos e oportunos tem representado, com discrição mas com persistência e evidente mérito artístico.

Num cenário andrajoso, com atores e atrizes não menos andrajosos, mas visivelmente apaixonados pelo teatro e a incarnar com mestria as personagens, o público testemunhou, em direto, os horrores da guerra, do passado, dos trinta anos, antes do dealbar da II Guerra Mundial, com o anacrónico telemóvel e tablets em punho pelas personagens, e não puderam deixar de fazer uma ponte com o genocídio das guerras de hoje no Médio Oriente e na Europa. Efetivamente, o tempo passa e o Homem nunca aprende. O teatro vale sempre a pena, pela comunicação direta que estabelece com o público, essencialmente pela passagem que fica a palpitar na mente de cada espetador e na semente de consciência cívica que aprofunda e faz mexer os alicerces, contra o conformismo amorfo ou a ditadura da indiferença, como bem diria Saramago.

Sem mais delongas, publicamos as informações que foram veiculadas pela organização, nos detalhes e objetivos, deste trabalho que merece a presença do público.

Mãe Coragem e os seus Filhos e os desafios da Criação

Este projeto integra o programa das atividades comemorativas dos 25 anos de trabalho ininterrupto da Associação Contigo Teatro, dedicado ao Teatro e a outras atividades culturais. A escolha recai em Bertolt Brecht, um renomado dramaturgo contemporâneo que nunca foi levado à cena pela Associação, cuja variedade de opções dramatúrgicas é muita vasta. A realidade que nos rodeia, a vivência de cenários de guerra em vários lugares do planeta, uns que nos entram, todos os dias, como verdadeiros “espetáculos“ nas nossas casas, outros que são ofuscados e só vistos e sentidos por quem por eles passa, levou-nos a optar por um dos textos mais emblemáticos de Bertolt Brecht: Mãe Coragem e os seus Filhos, texto que nos faz pensar no grande mal que é a Guerra e em como a Humanidade a alimenta a todo o custo, seja para sua sobrevivência, seja por ganância e exercício do poder, vislumbrando-se, cada vez menos, a solução para os conflitos, numa sociedade onde o diálogo e o respeito pelos valores democráticos cada vez são mais descurados. Este trabalho, como é hábito nos projetos da Contigo Teatro, compreendeu um programa formativo que antecipou e preparou todo o processo criativo, com a orientação de Nuno Pino Custódio.

Este texto, que aborda o acontecimento histórico da Guerra dos Trinta Anos e foi escrito por Brecht no irromper da Segunda Grande Guerra, será, certamente, pretexto para uma reflexão e um diálogo crítico sobre a atualidade.

Um ensaio de uma peça ou uma peça de um ensaio

 

Quem são estas pessoas? Actrizes e actores? Viajantes sem destino, às ave-marias, ao deus-dará, excomungados à deriva, ao acaso, perdidos aos papéis, a ver o que lhes calha? Errantes, vagabundos, excedentários que o mercado dejectou e já não servem para mais nada? Da pobreza laboriosa de uma classe trabalhadora global crescente até à possibilidade mais esperançosa de poderem ser, afinal, um grupo verdadeiro de actores, ensaiando num local provisório enquanto aguarda por um ensaio a sério antes de uma função num teatro real, estende-se um rol de ambiguidades e angústias. Aqui, o que é digno de se mostrar parece ser o próprio antiteatral, o avesso do que publicamente seria digno de mostrar.

Neste caos, onde a espacialidade e o acto de VER se diluem, será que o gesto dramático ainda pode revelar algo que aponte ao humanismo? Poderá a arte do desdobramento ter consequências? Ao menos, emocional e cognitivamente, poderá alguma empatia brotar por entre as fissuras dos escombros? Neste caos, o que parece estar a acontecer é uma espécie de ensaio à alemã (que privilegia as acções dos corpos no espaço, explorando a dimensão mais física da encenação), alternando, por vezes, com o ensaio à italiana (focado na palavra dita, na partitura verbal, numa actividade centrada “do pescoço para cima”). Neste caos, a ambiguidade adensa-se com a presença constante do telemóvel, o objecto que define o século XXI, explodindo no corpo social de forma absoluta e ainda mais democratizada do que o automóvel no século passado, permitindo até que um pobre ou desempregado se mantenha conectado com o seu smartphone topo de gama. Neste caos, nunca se chega a perceber completamente se se está apenas a seguir o texto da peça ou, num mais que instituído multitasking, se o que ocorre é a consulta da rede social, da aplicação bancária, do email, ou de um qualquer jogo solitaire – enquanto o ensaio ou a representação decorre.

Telemóveis e tablets num mundo que já não conta com a folha de papel, onde os actores não se fixam num único… papel, autodistribuindo-se entropicamente. Deixou de haver uma experiência de consistência, de confiança, de paz diante da não-coisa, ainda que este ensaio de uma peça (ou peça de um ensaio) se revele no tropeço e no choque de uma confusão de objectos, canções e textos que se vão acumulando, adiposamente. Agora é impossível distinguir o essencial do acessório. Como num campo de batalha: onde fica a estação de metro, quando quase ninguém levanta a cabeça? Onde fica a sala de ensaio, quando já quase ninguém olha para o outro? A ambiguidade que mais perturba e dói é essa hodierna confusão permanente. Público e privado confundem-se e atrapalham-se, assassinando o último dos espectadores – e, portanto, o último ser humano à face da terra.

Pode, então, fazer-se teatro com o não-teatro? Neste quadro que já não consegue ocultar a representação de uma distopia, onde está Mãe Coragem, onde está Anna Fierling, que todos por ali representam de alguma forma – homens e mulheres, ao desbarato, inorganicamente? Uma personagem que é de todos e de ninguém, porque se representa Mãe Coragem sem a própria Mãe Coragem. A actriz que faria a protagonista faltou – será que alguma vez existiu? Quer seja na violência do neoliberalismo – terra queimada onde o indivíduo é atomizado socialmente – quer seja na voracidade da globalização digital – que expulsa automaticamente o Outro – ou, finalmente, na aceleração de tudo isto que chamamos guerra convencional, onde ogivas destroem hospitais com crianças e o agressor atribui a autoria do massacre ao próprio que foi agredido… pode o antiteatral ser representado


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