IV: Madeirenses na indústria hoteleira nas ilhas do Canal

 

  1. A) Demografia

 

A população portuguesa em Jersey poderá corresponder a 8,5% da total população da ilha, cerca de (103.267 pessoas /censos 2021). A população em geral aumentou em cerca de 4.600 pessoas na última década, mas a “migração líquida” foi responsável por cerca de 67% desse crescimento. Pelos números a que tivemos acesso, poderão viver em Jersey cerca de 9.700 portugueses, sendo esse o maior número de estrangeiros na ilha, e em Guernsey cerca de 1.300 (2%) da população geral composta por (64.234 habitantes/censos 2022). Poder-se -à dizer, com alguma segurança, que nas Ilhas do Canal viverão cerca de 11.000/12.000 portugueses, contando com aqueles que têm nacionalidade britânica (e não inglesa), a maioria (90%) naturais da Região Autónoma da Madeira.

No final do século XVIII a população de Jersey era composta por pouco mais de 20 mil almas. Depois das Guerras Napoleónicas por 22.855 e pelo ano de 1851 já totalizava 57.029 indivíduos. E, nos censos de 2001, era já de 87.180 pessoas.

Ao escrever estas notas, como me lembro desse meu amigo, Sir Philip Bailhache, Bailiff de Jersey. Não queremos, não poderemos aumentar a nossa população, não temos estrutura socioeconómica para tal aumento populacional, dizia-me tantas vezes! Pois bem, Sir Philip; passados estes anos todos, uns trinta, Jersey já tem praticamente o dobro da sua população do dia em que nos conhecemos.

A primeira imigração lusa expressiva, depois de 1950, é totalmente diferente das suas segundas e terceiras gerações, desde o “gueto” circunscrito aos falantes de português, seus pequenos círculos, contactos e profissões até aos nossos dias em que as novas gerações estão completamente integradas no tecido sócio- cultural das Ilhas em todos os domínios ; advogados , O dr .Tramoceiro, economistas ,profissionais de saúde o dr. Gustavo e outros,  políticos como a Carina Alves, deputados conselheiros, João Carlos Nunes desportistas e até misses de beleza como a Carla Gouveia, Miss St Helier e muito antes, em 2002, a Maria da Silva, Miss Battle of Flowers e a musicóloga Nessi Gomes , filha do Sr, Carlos Gomes e tantas e tantos outros que poderíamos citar e que o faremos, ocasionalmente. na medida que formos escrevendo.

 

  1. B) HISTÓRIA DO TURISMO NAS ILHAS DO CANAL

 

B.1 PRINCÍPIO E FIM DE CICLO 

(quando a Finança substitui a agricultura; a floricultura e diminui a indústria turística)

 

Já no século XIX existiam alojamentos “hoteleiros” nas Ilhas do Canal, mas o TURISMO propriamente dito poderá ter começado depois da Guerra, lá para os finais da década de cinquenta do século passado.

Jersey nos anos 70 tinha uma média de 30 mil camas em hotéis e guesthouses, bem como chalés e apartamentos e Guernsey tinha perto de 9 mil camas, a restauração e pubs estavam sempre muito movimentados em ambas as ilhas.

Atualmente, a História é bem diferente e nada tem a ver com os números dos anos 70. Inclusive pretendem agora, as Ilhas do Canal, fazer promoção conjunta para continuarem a cativar o turismo que vai mingando, embora com excelente qualidade.

Poderá ter sido o ano de 1975 o grande “boom” do Turismo em Jersey. Na altura existiam na ilha quase 36 mil camas só em hotéis.

Num tempo em que chegamos a ter milhares de madeirenses na hotelaria. Trabalhavam na hotelaria no inverno na Madeira e no verão iam para Jersey e para Guernsey

Jersey tem, neste momento, 10.500 camas e 56 hotéis alguns deles muito bons como Hotel de France, o Pomme D’Or, o Radison, o Grand Jersey,etc e Guernsey oferece 5.226 camas em cerca meia dúzia de hotéis e outra meia dúzia de Bed and Breakfast e também tem hotéis muito bons como o St.Pierre Park e o Duke of Richmond e Old Government House Hotel & Spa, uma unidade de cinco estrelas.

Ora, durante o declínio do turismo e da floricultura, muitos portugueses de Jersey de Guernsey – como nos conta o Carlos Gomes – mudaram os seus empregos para outras indústrias. Devido ao facto de que as suas autorizações de residência de cinco anos que não lhes permitia permanecer a não ser que tivessem trabalho qualificado. Ainda assim, o departamento de controlo da habitação concedia uma permissão por mais cinco anos. Após esse período as pessoas que contemplavam 10 anos de residência tinham direito ao estatuto de permanência.

Os que não conseguiram, no entanto, tiveram de se deslocar para várias cidades do Reino Unido exatamente por não adquiriram uma prorrogação da sua autorização de residência e foram aos milhares, maioritariamente madeirenses regressados da Venezuela e da África do Sul que agora vivem na Inglaterra, basta passar por Gatwick, ou Crawley para os encontrar.

 

“A economia de Guernsey é de 3.48 nil milhões de Libras. O PIB aumentou 5% em 2023, mas em termos reais caiu 2%, pela primeira vez desde a pandemia.

Cada indivíduo contribui com 54.400 Libras. Os salários os lucros das empresas são os que mais contribuem para a riqueza de Guernsey.

Os salários e os lucros das empresas são os que mais contribuem para a riqueza do Bailiwick . As finanças e os seguros continuam a ser os contribuintes mais importantes do ponto de vista económico com 37%. O Sector financeiro mais amplo contribui com 1.52 mil milhões de Libras. O sector tecnológico vem logo a seguir, com a construção a acrescentar apenas 4%.” Reportagem Island FM News Https://www.islandfm.com/news/guernsey/guernsey-economy-worth-3-48-billion1/ .

 

 

  1. C) TESTEMUNHO

 

Quando chegar o tal dia em que a Região possa contar com o seu MUSEU DE EMIGRAÇÃO, no site desse museu online, existirão tantos depoimentos de tanta gente que anseia poder contar a sua história, as suas experiências, tanta gente desejando contribuir para a NOSSA HISTÓRIA, uma História de carne e osso. A história de cada qual é o único tesouro de cada qual. É a sua madrugada e o seu ocaso. É a vida de todos nós.

“Tinha 22 anos de idade, diz o ROGÉRIO MARTINS, dançava num grupo folclórico. Sou natural do Funchal, mas, nesse tempo, logo após o 25 de Abril de 1974, não havia muitas oportunidades de emprego na Madeira. O receio incoava em cada esquina e a atividade económica refreara. Deveria ter sido num domingo pelo ar solene de meu pai. Sabes, dizia-me: tu és um” calaceiro”! Mas é que não há trabalho pai e no folclore ainda ganho uns trocos. Não sei se na semana seguinte, já estava a trabalhar nos Armazéns de vinho dos Oliveiras, a pedido do meu pai.

Há um dia, todavia, que a vida muda, muda a vida da gente! Foi nesse dia que desci a R.5 de Outubro para ir falar com a D. Ivone Spranger no Centro de Emigrante, pois ouvira dizer que “eles” pagavam a viagem para irmos trabalhar para fora. Lá no Centro, conheci um futuro colega de emigração, o Zé Andrade que tinha 17 anos de idade e que era “meio gago”. Esse era “cliente” da D. Maria José Gonçalves que também tralhava no Centro e que me pediu para “olhar” por ele na aventura da nossa “nova terra” de acolhimento.

Vocês vão para Guernsey! E onde é Guernsey, perguntei? Quando vi no mapa a pequeníssima ilha encostada à França como lapas às rochas voltei a perguntar; e eles falam francês? Não, falam inglês disseram-me. No olhar destas funcionárias parecíamos indefesos perante um juiz.

 

No dia 13 de setembro de 1978, aterramos em Guernsey, vindos de Londres. Fazia frio, mas um frio suportável. No aeroporto NINGUÉM para nos receber. Foi a polícia que nos levou para o nosso posto de trabalho, The Old Government House Hotel onde nos aguardava, à porta, solenemente vestido, o Sr. Carlo Stefani, diretor do Hotel.

Nunca tinha entrado num hotel, nunca tinha sido recebido assim, seria bom sinal? Fui trabalhar para empregado de mesa, mas também nunca tinha entrado num restaurante, o máximo que conhecia eram umas tasquinhas na Madeira. Tinha umas 50 libras no bolso e um exame médico feito a mando do Centro do Emigrante. Umas roupinhas numa pequena mala mais as que trazia no corpo era tudo quanto tinha.

A partir de outubro/novembro já nevava e tinha de me apresentar impecavelmente vestido. Os sapatos com brilho, o que é muito difícil na neve.

Seis anos depois, em 1984 fui para Jersey trabalhar no Longueville Manor Hotel já como chefe de sala e depois comprei o meu próprio espaço – La Bourse Wine Bar – no centro de St.Helier.

Aqui tens, a minha breve história! Ah, não te esqueças de dizer que em Guernsey, no princípio, ganhava 18 Libras,7 para dormir e comer e 11 para guardar […] “.

 

Eis um exemplo típico de conterrâneos nossos “levados” para as Ilhas do Canal via CENTRO DO EMIGRANTE.

Outros existirão que lá chegaram de outras formas: vejamos o que nos conta JOE VELOSO (José Honorato Vieira Veloso) de seu nome completo como me disse solenemente.

“Jersey foi um santuário para mim! “; – “trabalhei no Golden Gate e no Hotel Vila Ramos e no dia 25 de Abril de 1975 cheguei àquele que foi o meu destino de trabalho, a Jersey. A minha sogra “mandou-me chamar” e lá fui eu, com a Ana Paula, minha mulher para lá. Ela era House Keeper e eu Barmam . Trabalhei primeiro no” The Beach Hotel” (na altura um maço de cigarros era 20 Pens e uma cerveja 15 Pens. Ganhava 35 Libras / à semana passei por tanto lado. Trabalhei como assistente manager no “Laurels Hotel”, Fui General Manager do” Royal Hotel “que o comprei em 1983. Dirigi o “Barra Hotel “em St. Helier. Fui diretor do” Flying Flowers”. Fiz trabalho honorário para o Governo de Jersey e finalmente fui o dono do” Wine Bar Night Club” na Rue de Funchal (única rua em Jersey que tem um nome estrangeiro como explicarei mais tarde nestes textos)

Aqui têm outro tipo de emigrante que NÃO necessitou dos serviços do Ex-Centro do Emigrante.

Se repararem, enquanto na Agricultura e na floricultura a grande maioria dos indivíduos saia através do Centro do Emigrante já na hotelaria não seria exatamente assim

Um belo dia, acompanhando a Dra. Conceição Estudante, quando esta era minha chefe, na qualidade de membro do Governo Regional com responsabilidade sobre as Comunidades Madeirenses, encontramos, nem mais nem menos, que o Rogério e o Júlio na “rua do rei” Kings Street. Até aqui muito bem! Olha, quem é essa senhora linda que anda contigo? cuidado, é a minha chefe. Tens sorte retorquiram. Vê, queres tomar um copo à noite? – Eu vou para o hotel respondeu-me a chefe, mas se o Gonçalo quiser ir vá. Muito bem. Até aqui! Mas onde, perguntei. A resposta foi esta: vais por aqui fora, passas no Bazar do Povo (entenda-se na H&M) e esperas pela gente na “co..na da velha “( entenda-se Old Lady´s Conner ). Bem! menos mal que a chefe já se tinha distanciado uns largos metros, mas fiquei à rasca. Queria rir, mas rir de morrer e não conseguia. À noite fui lá ter, entenda-se à Old Lady’s Conner, como combinado e autorizado.

Os madeirenses “arranjavam “nomes para tudo que, só nós os madeirenses, os sabíamos decifrar. Uma espécie de código de morse entre nós.

                                      GUERNSEY

 

JOSÈ CARLOS DIAS GOMES – O SENHOR GUERNSEY

 

O Senhor José Carlos Dias Gomes é UM AMIGO. Nunca ouvi dele um elogio. Nada que eu fizesse estaria totalmente certo, ou totalmente bom. Faltava-me sempre algo. É isso que ma fascina nele e é por isso que o considero uma pessoa muito importante. A vida fartou-me de “lambe-botas “. Não gosto de pessoas que me elogiam, gosto das que me desafiam, daquelas que sei o que são. Ele é o caso.

Para mim, é a pessoa que sabe mais de Guernsey e é o dono de todas as fotos que publico.

 


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.