Memórias: o jornalista que adormeceu na banheira

Rui Marote
Houve, como já dissemos, várias visitas de Alberto João Jardim ao território sul-africano, em que os jornalistas acompanhavam a comitiva presidencial.
O protagonista da História é sempre o Homem e neste historial os jornalistas “são sempre notícia” para mais tarde recordar.
É caricato mas aconteceu: a comitiva estava hospedada no centro de Joanesburgo  no Hotel Carlton. O sujeito desta oração é o jornalista Catanho Fernandes, do DN  Madeira, que adormeceu na banheira com o sua cigarrilha “Club Master” na boca. A restante comitiva entretanto já estava no aeroporto Jean Smith hoje Oliver Tambo,  quando demos pela falta do colega.
Num autêntico contra-relógio, efectuámos uma série de telefonemas sem do outro lado obter qualquer feed back. Restava entrar em contacto com a recepção do hotel e solicitar uma verificação no quarto… O funcionário do hotel localizou o hóspede desaparecido, adormecido na banheira com a cinza da cigarrilha a boiar no banho de imersão.
Por pouco o camarada ão ficou em terra! Chegou em passageiro de “last minute” a embarcar com destino à cidade do Cabo. Eram acontecimentos caricatos que davam que rir aos colegas.
O segundo episódio teve o mesmo cenário: a mesma cidade e o mesmo hotel.
A equipa do DN estava em África para cobrir as eleições sul africanas em 1994  com Thabo Mbeki. Nessa época ir ao centro de Joanesburgo era arriscado: a maioria dos negócios tinha encerrado, muitos hotéis tinham fechado, sendo um deles o Hotel Carlton. Os brancos já não vinham à cidade; era uma uma odisseia.
A reportagem do Diário arriscou: precisava de captar imagens de uma cidade quase fantasma. No carro, de vidros fechados, não obedecendo aos sinais luminosos, era sempre a abrir. O nosso correspondente José Luis Silva era o condutor e conhecedor das avenidas e velava pela nossa segurança.
Passámos em frente ao Carlton encerrado: na rua deserta decorria um leilão do mobiliário. Fiz questão em fotografar e entrar pela última vez no hotel de cinco estrelas.
O nosso carro ficou estacionado entretanto em frente  ao Nedbank Building, onde existia o Ice Ring do lado oposto ao hotel Carlton , contrario à faixa de rodagem que tem dois sentidos.
A viatura não podia ser abandonada e era necessário alguém estar próximo. Essa missão coube ao nosso colega Jorge Sousa, que recebeu do José Luis a táctica  e um precioso conselho: camuflar dando a entender que estava armado.
Colocou a mão na algibeira exterior do casaco  com o dedo indicador estendido simulando que era uma pistola e ali esperou.
Atravessámos as duas avenidas em direcção ao Carlton. Do outro lado víamos o nosso ” herói” como sentinela vigilante, aguardando o nosso regresso e vigiando a viatura.
Quem conheceu Joanesburgo dos anos 70 com seu comércio, pubs , mercados  e a obrigatória visita ao OK Bazar jamais esquecerá!

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