Há uma “Cegueira Branca” no Estreito

Uma localidade é devastada por uma misteriosa epidemia de cegueira. Uma cegueira branca, “como um mar branco de leite”, inexplicável e aparentemente incurável. Devido à rapidez com que a epidemia se propaga, os primeiros cidadãos afetados, são colocados, à força, em quarentena num espaço abandonado e entregues a si próprios.

Esta narrativa escrita em 1995, demonstra que Saramago conseguiu ver mais longe, pois hoje, faz-nos recordar a epidemia da Covid ´19, que tanto nos afetou.

Será esta a nova produção da OFITE | Oficina de Teatro do Estreito, integrada na ACRE (Associação Cultural e Recreativa do Estreito), que estreia o seu novo espetáculo, baseado numa das obras mais emblemáticas de José Saramago, o “Ensaio Sobre a Cegueira”, com direção artística, assinada por Zé Abreu, no dia 20 de setembro (21h), – já com lotação esgotada – , no Auditório Maestro João Victor Costa – Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos. O espetáculo ficará ainda em cena nos dias: 21 (21h), 22 (17h), 27 (21h), 28 (21h) e 29 (17h). As reservas para assistir o espetáculo deverão ser feitas a partir do telefone: 291 910 040.

No palco será representada uma história dramática e muito contundente, constituída por personagens sem nome. A trama não se situa em nenhum tempo específico. É um tempo que pode ser passado, atual ou futuro.

Saramago utiliza a cegueira como metáfora para refletirmos sobre a natureza humana, a falta de empatia e a decadência da sociedade. Uma obra perturbadora que nos confronta com os aspetos mais decadentes e sombrios da natureza humana. Na quarentena imposta pelas autoridades, o sentido primitivo da sobrevivência desperta e o grupo afetado entra em colapso, com os mais fortes e sobreporem-se aos mais fracos. São cometidos atos atrozes, vistos apenas por uma única mulher que estranhamente e sem explicação não foi atingida pela cegueira. Trata-se da mulher de um médico oftalmologista, que fingiu ser cega para poder acompanhar o marido, que também cegou. Um verdadeiro ato de amor por parte desta mulher.

Nas palavras de José Saramago, “este é um livro fracamente terrível com o qual eu quero o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição”.

É preciso coragem para pegar num texto como este. É preciso coragem para experimentar e coragem para continuar. Acreditamos que muitos vão sair do espetáculo “Ensaio Sobre a Cegueira”, refletindo sobre a história e as entrelinhas da peça. E isso, é muito agradável e vai provocar algo que gostamos muito que aconteça depois dos espetáculos, que as pessoas saiam da sala a discutir, debater e conversar sobre o que viram no palco.

O pegar neste texto e adaptá-lo ao palco é prova de arrojo e criatividade da OFITE, que encara o teatro como uma arte que tem espaço para todos. Um espaço onde criamos num ambiente de inspiração e crescimento. É cada vez mais importante encontrar propostas artísticas consistentes como as da OFITE, que façam sentido para a comunidade envolvente. Pois o teatro ajuda-nos a crescer constantemente, por ser uma forma de arte ativa.

Nesta proposta teatral da OFITE, vamos encontrar em cena, pessoas hediondas, repugnantes, monstruosas. Pessoas que de alguma forma, também conhecemos e com quem nos relacionamos, direta ou indiretamente, todos os dias, na rua, no trabalho, nos cafés. Resta-nos perguntar até que ponto seremos capazes de reconhecer nesta peça, fragmentos da nossa própria história?


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