Primeiras reportagens madeirenses na “Casa da Democracia” nacional

Outrora, os dois matutinos existentes na Madeira tinham um corpo redatorial em que a redacção era composta por jornalistas que faziam desta profissão um segundo emprego.
A Madeira vivia das notícias do “retângulo” através da agência noticiosa ANI, e através da Marconi, que enviavam os “takes” das notícias que se desenrolavam no continente e no estrangeiro.
Enviar uma equipa de jornalistas para fora da região era praticamente impossível. O meio de transporte era o barco que levava cerca de três dias da Pontinha ao cais de Alcântara.
Recordo a primeira vez que fui a Lisboa no paquete “Uíge”, em 1964, representando o União campeão da Madeira, ao Campeonato Nacional de hóquei em patins.
Nunca tinha visto um comboio, tirando o que estava na montra do Bazar do Povo no Natal, nem um autocarro de dois andares. Mas sabia de cor as linhas férreas e os rios onde nasciam e desaguavam e seus afluentes. Apesar de, de vista, só conhecer as ribeiras da minha terra, nos temporais devido ao caudal de água.
Era matéria que fazia parte da Geografia e levava nas unhas para aprender. Era coisa da época, quer se vivesse em Portugal continental ou nas ilhas.
Lembro-me que os deputados da Assembleia Nacional de Portugal eram então o cónego Dr. Agostinho Gomes (diretor do Jornal da Madeira), Dr. Alberto Araújo (diretor do Diário), Dr. Agostinho Cardoso e professor Eleutério de Aguiar. Os deputados nessa época não andavam semanalmente na Madeira e as noticias que chegavam das suas intervenções chegavam via agência noticiosa.
Os jornalistas madeirenses conheciam a a Calheta e o Porto Moniz nos carros do governo  para visitas e inaugurações porque os jornais não tinham viaturas próprias, à excepção da RTP e RDP.
Foi nos governos  de Alberto João Jardim que os meios de informação da região conheceram alguns países fazendo parte das comitivas regionais, através de visitas à África do Sul, Venezuela  e mais tarde Bruxelas.
Os meios tecnológicos não existiam escrevia-se em “linguados” e as notícias via Marconi nacionais e internacionais eram coladas nos linguados (com goma arábica) era feito um título e colocadas as vírgulas, os pontos e os acentos gráficos.
Nas redacções, só dois ou três jornalistas sabiam manejar a máquina de escrever. Anos mais tarde apareceu o fax e o telex. Hoje estão todos dependentes da tecnologia e do satélite. Quando isso não funciona há um “apagão”…
As fotografias eram analógicas e a preto e branco. Recordo que em idas ao Porto Moniz para  inaugurações, as fotos só eram publicadas no dia seguinte.
Hoje tudo funciona com um simples “click”  e já está no outro lado do mundo. Tema a narrar numa das próximas memórias. Em 1976 Alberto João era o responsável pelo Jornal da Madeira, propriedade da Igreja, e não havia apoios do governo.
O jornal sobrevivia das suas oficinas gráficas e da venda da banana da quinta de S. Jorge. Nessa época o corpo redactorial  era o seguinte; chefe de redacção (secretário) António Jorge Andrade- 2º emprego, Ernesto Rodrigues sub-chefe -efectivo, José António Gonçalves, efectivo, Gilberto Teixeira – 2º emprego , professor Eleutério – 2º emprego, Filipe Malheiro – estudante, Rui Marote – efectivo repórter fotográfico Gabriel Caires – 2º emprego, Danilo Gouveia -2º emprego e Manuel de Abreu – 2º emprego.
Nesse ano a Madeira era representada na Assembleia Constituinte pelos deputados: Emanuel Rodrigues, José António Camacho, Élia Brito Camara, José Carlos Rodrigues, e António Jácome de Castro Varela, que foi substituído  pelo professor Nicolau Freitas. Partido Socialista: Monteiro de Aguiar.
A empresa do Jornal da Madeira enviou a Lisboa pela primeira vez na história do jornalismo madeirense uma dupla: Luis Filipe Malheiro e eu próprio, Rui Marote. Era Dezembro de 1975. A Assembleia tinha iniciado os trabalhos a de 2 de Junho e a nova Constituição seria votada a 2 de Abril de 1976.
Conhecia a antiga  Assembleia Nacional de um livrinho com poucas páginas , uma disciplina do sexto e sétimo ano do Liceu intitulada “Organização Política” na qual que tomávamos conhecimento do seu funcionamento. Era uma matéria para a qual havia mais dispensas da prova oral.
Os madeirenses estavam alojados no hotel Fénix na Praça do Marquês de Pombal: ali efectuámos uma serie de entrevistas. Já na Assembleia da República não tivemos mãos a medir.
Falámos com o açoreano Jaime Gama que nos levou no seu carro ao Largo do Rato.
Muitas destas entrevistas em especial no 25 Dezembro -Natal o JM publicou a do general Galvão de Melo, que tinha deixado o concelho da Revolução e que se candidatou pelo CDS. Afirmações bombásticas para época:- “Dizem que o Dr. Cunhal era muito inteligente e que era isto e aquilo. Mas se o era já não o é ou porque está velho ou porque está doente”.
“O comunismo ,nunca aquiriu o controlo de qualquer governo em qualquer país do mundo senão pela força.”
Adelino Amaro da Costa vice presidente do CDS: “Seria ilógico que se fizessem e que impusessem  dos arquipélagos da Madeira e Açores,  sem ter em conta a expressão concreta das populações locais. Os continentais não entendem os problemas das ilhas, porque não entendem o que é viver numa Ilha, porque não entendem o custo da insularidade.”
Manuel Alegre, do PS :-“O 25 de Novembro foi uma luta entre dois projectos políticos: um deles que visava a tomada do poder por um partido, neste caso concreto pelo partido comunista português.” Alfredo Sousa PPD:-“O 25 de Novembro veio revelar  que o PC não é um partido democrático, pois esteve comprometido até às orelhas na golpada anti-democrática  para a conquista do poder pela força.
Sá Carneiro:- “A partir de 25 de Novembro e depois da lei constitucional quanto ao papel das Forças Armadas há como nunca houve, condições para construir autêntica democracia pluralista  e estável no nosso país.”
Os deputados tinham o vencimento de 3.300 escudos. Alguns na sua vida privada ganhavam mais. Geralmente vinham à Madeira todos os fins de semana. Era a assembleia que reservava as passagens e não havia “cambalachos” tudo era transparente, o que não sucede nos nossos dias. Foram estas e outras personagens que falaram então para o Jornal da Madeira. Não esquecendo uma mesa redonda realizada no Regimento de Comandos da Amadora.

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