Azulejos degradados mas muito populares merecem recuperação

Rui Marote
Os azulejos que enfeitam diversas zonas do Funchal, incluindo por exemplo o Mercado dos Lavradores, são ex-libris do Funchal e agradam muito a quem nos visitam. Entre os moradores da cidade, há quem tenha muitas saudades dos azulejos que em tempos embelezaram os bancos da Avenida do Mar. Hoje em dia, são inúmeras as visitas turísticas que todas as manhãs percorrem o centro do Funchal, com início junto ao Teatro Municipal Baltazar Dias, encerrado àquela hora matutina. O motivo de interesse logo a seguir, são os azulejos do Café Ritz.
O Ritz Café fica num edifício da cidade do Funchal, construído na segunda década do século XX. Os painéis de azulejos, que revestem as paredes exteriores, foram produzidos pela Fábrica Constância, em Lisboa, em 1932.
Foram desenhados a partir de fotografias antigas, pelo pintor Gabriel Constante (1876-1950).
Uma fotografia de 1933, (ver abaixo) existente no ABM – Arquivo e Biblioteca Pública da Madeira, mostra a fachada do Ritz Café decorada com os painéis de azulejos, com motivos madeirenses. Por essa altura, a exploração do Ritz Café estava entregue ao comerciante Augusto Gaudêncio Figueira.
Mas a história do café Ritz é ainda mais recuada. Tem origem no início do século XX. Aí por volta de 1904/1905, Christian Ritz, um empresário norte-americano, de Nova Iorque, com ascendência da Suíça, conheceu a Madeira por acaso e acabou por fixar residência neste espaço insular, abrindo com um parceiro um pequeno café no Funchal. Chamou-o de Ritz.
Em 1910, este comerciante de sucesso, que fazia negócios entre a Europa e os EUA, e que casou com uma madeirense chamada Clara, mudou o Ritz para as instalações actuais.
O Ritz era um café charmoso para a sociedade, com danças e chá da tarde, onde os empresários se encontravam, segundo reza a história.
Depois de alguns anos, Christian e Clara tiveram que deixar a Madeira para lidar com assuntos familiares em Nova Iorque e Filadélfia.
Quanto ao Ritz, continuou a existir em muitas formas, desde um café da alta sociedade até um stand de vendas para automóveis, e ainda como sede da ACIF – Câmara de Comércio e Indústria da Madeira.
Durante dezenas e dezenas de anos o Ritz deixou de existir como café, ao ponto de quase ninguém saber que ali tinha sido um café famoso do princípio do século.
Entretanto, aquele espaço e um prédio vizinho sofreram um incêndio. Depois de recuperado, sobretudo o telhado que tinha sido o mais afectado, os serviços que ali estavam mudaram para outros lugares.
Ficou à espera de oportunidades. Até que no início da década de 10 do século XXI, o Ritz Madeira reabriu no espaço onde esteve em tempos instalada a Toyota e a ACIF.
Os novos proprietários garantiram que o edifício fosse restaurado desde as bases até a decoração interior. Todos os acessórios originais permaneceram intactos.
Hoje, o Ritz é considerado por muitos como um dos edifícios mais bonitos da Avenida Arriaga, no centro do Funchal.
Os seus famosos azulejos antigos azuis e brancos contam histórias da ilha, dos navegadores aos agricultores.
No andar de cima, encontra-se um grande espelho dourado ornamentado.
Em muitas manhãs assistimos à circulação de turistas, aproveitando para registar a movimentação dos telemóveis e máquinas fotográficas a fotografarem os azulejos com mais de 9o anos de existência.
No entanto e infelizmente, alguns destes quadros estão danificados desde há muito, a aguardar o possível restauro (que terá de ser bem feito, para não ser pior a emenda do que o soneto).
Embora o edifício seja particular, a DRAC e o Turismo poderiam intervir neste aspecto, oferecendo eventualmente o seu “know-how”. Se não, por este andar os belos azulejos poderão ficar ainda mais degradados e levar o mesmo destino dos bancos da Avenida do Mar, de saudosa memória.
Depois da destruição das nossas serras e dos jardins abandonados, resta-nos a poncha para agradar aos turistas… Mas esta também escasseia porque a nossa cana sacarina não dá para as encomendas. No entanto, fica para história que a cana de açúcar da Madeira chegou ao Brasil e às Ilhas do Hawai pela mão dos madeirenses.
Temos de preservar o que os turistas que nos visitam tanto gostam de ver. É o caso destes azulejos.

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