Memórias: Raul Perestrelo dizia-me “tu és um pequeno…”

Há memórias com graça. A 18 de Maio de 1995 Cavaco e Silva visita o Porto Santo pela primeira vez como primeiro-ministro. Não quis porém sessão solene.
O chefe de governo viajou directamente para a Ilha dourada no Falcon da Força Aérea, na companhia do Ministro da Defesa, Fernando Nogueira, e do Ministro
do Planeamento e Administração do Território, Luís Valente de Oliveira.
A comitiva madeirense viajou para o Porto Santo no “Aviocar” da FAP que nessa manhã fez duas deslocações, em que transportou jornalistas e convidados.
Mas o avião do primeiro-ministro aterrou e a pista foi encerrada para a inauguração do aumento na cabeceira norte, obrigando o “Aviocar ” que transportava a segunda leva, aregressar ao aeroporto da Madeira.
Um dos passageiros era Raul Perestrelo, prestigiado fotógrafo madeirense, ao serviço do Ministro da República, que estava incumbido da cobertura fotográfica, sendo habitual registar em álbum todos os acontecimentos. O álbum era oferecido ao visitante no aeroporto quando o mesmo regressasse ao continente.
No Porto Santo seguiu-se uma serie de inaugurações, Cavaco e Silva foi ao Quartel, visitou as zonas afectadas pela maré negra e mergulhou em frente ao hotel do Porto Santo.
Quando Raul Perestrelo  chegou a Vila Baleira as inaugurações e visitas já tinham acontecido e Cavaco já estava a nadar.
O experiente fotógrafo sem demoras começou a “disparar”  em todos os sentidos.
Fez um intervalo e no bar da praia do hotel saboreava a bebida que ele muito gostava, um gin “Gordon’s”. Todos solidarizaram-se para ceder fotografias dos acontecimentos que o velho “lobo” da fotografia não tinha conseguido captar.
Recordo que estava sentado nos bancos altos, junto ao bar, quando o Sr. Raul, como eu o tratava em sinal de respeito, desabafou: “Tirei 41 fotos na praia!” Surpreendido, interpelei-o quantas~?? “41!” Impossível… o rolo é de 36!, disse-lhe.
Raul contra-ataca:- “És um pequeno não percebes nada! Este rolo é mesmo bom!”
Raul levanta-se e na passagem de Cavaco para o hotel volta a premir o “gatilho”.
Preocupado, disse-lhe: “Sr. Raul, há qualquer coisa que está mal! É impossível!”
Não gostou do meu reparo e indignou-se novamente. “Dê-me cá máquina”, disse eu.  Fiz um disparo e com o polegar rodei o filme, verificando que o “mestre” Raul não tinha fixado bem o filme, que continuava dentro do carreto…
“Desculpe vou abrir a tampa da máquina à minha responsabilidade”, disse, já prevendo o que tinha acontecido. Dito e feito. Confrontado com a realidade, o Sr. Raul quase chorou de vergonha.
A pressa e os nervos foram  o inimigo. A experiência do velho mestre caiu por terra nesse dia. Valeu-lhe a solidariedade e a amizade dos repórteres de imagem presentes…

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