Devoção mantém vivo arraial do Monte mas perdeu-se o entusiasmo porque ainda há lágrimas reprimidas por sarar

Muitos turistas percorrem a Igreja do Monte para os tradicionais “retratos”. Fotos FN.

O Monte já está engalanado para o tradicional arraial de 15 de agosto. O turismo continua a afluir em força a esta pitoresca freguesia e a Igreja, centro nuclear da devoção à Senhora do Monte, já está a acolher diariamente centenas de peregrinos, até porque as novenas já começaram ontem. Mas, neste momento, ao longo do dia, ainda é o turismo que vai calcorreando a zona, subindo e descendo a emblemática escadaria de acesso ao templo.

A Senhora do Monte, Padroeira da Madeira, o eixo principal da devoção cristã neste calendário religioso.

O FN constatou “in loco” alguns preparativos para o arraial que vai mobilizando o pacato comércio do largo. No entanto, um dos comerciantes mais conhecidos do Monte, com um café junto aos carreiros do Monte, conta que, desde o tráfico acidente do Monte, o arraial nunca mais foi o que era. Há lágrimas reprimidas, há contas por saldar e a euforia da animação que tomava conta da festa, ao longo de dias, esmoreceu e  muito. “Quem conhece esquecer aquele acidente? Como ignorar aquelas mortes?”, questiona o comerciante conhecido da zona, sendo visível a emoção na voz e o olhar atirado ao chão.

Não fora a celebração eucarística em torno da Igreja do Monte – cuja devoção permanece inalterável e com grande número de peregrinos a demandar o Monte – e a tradição da Senhora do Monte já se teria esfumado. Segundo nos contam, a festa deixou de ter o tradicional fogo que era o grande chamariz para a diversão, e os aglomerados de convivas, noite dentro, após as novenas e nas vésperas do arraial deixaram de fazer parte da festa. Tudo mais simples, mais litúrgico e com memórias muito duras que deixaram feridas por sarar.

Mas o povo segue em frente porque, como diz a sabedoria popular, barco parado não ganha frete. O olhar é colocado no futuro, mas ficou o saudosismo de um passado rendido ao entusiasmo do arraial do Monte. No centro da freguesia, as árvores hostis desapareceram e toda a zona ganha luminosidade, num convite ao passeio por tão romântica paisagem cheia de história. Mas muita desta magia se perdeu e até mesmo a devoção das velas faz-se mas com menos adesão.

Entretanto, a Paróquia do Monte vai mantendo acesa a chama da festa, anunciando-a já através das novenas diárias que mobilizam sempre, ao final da tarde, muitos devotos.

Quem conheceu o antes e o agora do arraial do Monte garante que agora é apenas uma sombra do que já foi. Há dores que continuam na memória.

 


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.