Em 1940, a Alemanha Nazi ambicionava bases para exercer um poder efectivo no Atlântico. Ameaçava, por conseguinte, ocupar Gibraltar, a fim de retirar aos britânicos o domínio da entrada do Mediterrâneo e de saída para o Atlântico, bem como a possibilidade estratégica do Reino Unido controlar uma área marítima considerável, onde se incluíam os arquipélagos dos Açores, Canárias e Madeira.
O comandante da Marinha alemã, Erich Raeder, opunha-se à invasão das ilhas britânicas, mas defendia um ataque a Gibraltar com o apoio da Espanha. Tal não se verificou. Contudo, Gibraltar corria perigo, principalmente após a rendição da França e a entrada da Itália na Guerra.
Para garantir a segurança da população e reforçar militarmente Gibraltar, o Reino Unido tratou de evacuar o rochedo que ocupava desde 1704. A população estava estimada em cerca de 20 000 civis. Só deveriam permanecer em Gibraltar os que pudessem colaborar na sua defesa.
No início de Junho de 1940, foram deslocadas 13 500 pessoas para o Marrocos Francês. A capitulação da França obrigou o Reino Unido a encontrar outro destino para os refugiados, que agora se encontravam num território inimigo e eram compelidos a deixá-lo. Depois de um regresso forçado a Gibraltar, foram transferidos para Londres, Madeira e Jamaica.
De facto, o governo de Salazar autorizou o acolhimento de 2000 gibraltinos na Madeira, com a garantia de que nenhum refugiado republicano espanhol fizesse parte do contingente.
A Madeira vivia então tempos difíceis, devido à Guerra e aos impedimentos à navegação no Atlântico. O Turismo definhava. O abastecimento de bens alimentícios era irregular. A especulação de preços e o racionamento dificultavam o quotidiano. A falta de emprego acentuava a miséria. O sistema de colonia impedia progressos na agricultura. A emigração estava condicionada pelos ataques no Atlântico.
De 21 de Julho até 14 de Agosto de 1940, chegaram à Madeira 218 homens, 1209 mulheres e 495 crianças, num total de 1982 gibraltinos. Daqui começaram a partir para a sua terra, em 28 de Maio de 1944. Nem todos. Sessenta e oito faleceram na ilha. Algumas mulheres por aqui ficaram, porque contraíram matrimónio com madeirenses. Mas também algumas crianças nasceram no Funchal. Em Outubro de 1940, ocorreram os primeiros nascimentos, filhos de mulheres que haviam partido grávidas de Gibraltar.
A presença dos refugiados de Gibraltar mereceu já alguns estudos no âmbito da História: de Emanuel Janes, António Ribeiro Marques da Silva, Alberto Vieira e Libânia Gomes.
Também na Literatura, encontram-se diversos registos: Horácio Bento de Gouveia, no romance Margareta (1980), Helena Marques em A Deusa Sentada (1994), Francisco Gomes da Silva em Baía da Saudade (2010).
Agora Berta Helena apresenta-nos o Refúgio de Gibraltar, romance que mereceu o Prémio Edmundo Bettencourt 2022, da Câmara Municipal do Funchal, o qual tive o privilégio de ler antes de impresso no formato de livro, como vogal do júri, mas sem conhecer a autoria, porquanto os autores concorrem sob pseudónimo.
Desde 1999 até 2022, fui convidado oito vezes pela CMF para o júri deste prémio. Não é tarefa fácil, mas um trabalho que se faz com gosto.
Obriga a leitura de dezenas de originais, a sua selecção, a discussão para escolher os melhores e, finalmente, um consenso ou uma maioria para a aprovação, devidamente justificada.
Uma publicação premiada transporta, sem dúvida, uma certificação ou garantia de qualidade, ainda que os critérios de um determinado júri possam não merecer a concordância de críticos e leitores.
O Prémio Literário é, sem dúvida, um incentivo para a escrita, uma pequena recompensa para o trabalho de um escritor e um prestígio para quem o promove.
Refúgio de Gibraltar assenta na História, no quotidiano funchalense dos refugiados gibraltinos dos anos 40 do século passado. Prolonga-se, todavia no tempo, com a permanência de Lilly na ilha, onde se apaixona por João Mateus, casa com Ricardo e vem a ser mãe de Isabel, Estêvão e Rosa.
Com um pé na História, não é, todavia, um romance histórico. Diria que é uma história de amor num cenário parcialmente real. A exemplo do que Berta Helena já antes fizera com Lenços Brancos (2003) e a Revolta da Madeira.
A autora retratou lugares e situações através das vivências da protagonista e, dessa forma, a realidade envolve o romance, mas não condiciona a intriga.
Com a experiência de muitos anos de jornalismo, Berta Helena gere a narrativa com precisão, num tempo cronometrado, entrelaçando as acções e procurando cativar o leitor para a sua história, sempre numa linguagem cuidada, mas sóbria.
Refúgio de Gibraltar revela uma intriga fortemente desenhada, mas não sujeita a uma cronologia linear. Trata-se, pois, de um romance de acção, que se apresenta também como documento de uma época e de um lugar, com um itinerário perfeitamente reconhecível e factos verídicos, como, por exemplo, a viagem de Gibraltar para a Madeira, as alterações do quotidiano funchalense, a diversão e o prazer, o conservadorismo da sociedade insular, a pobreza e a ostentação, algumas actividades económicas, mas tudo isto restrito ao tempo da presença dos refugiados gibraltinos, isto é, do Verão de 1940 à Primavera de 1944.
O período subsequente, de 1944 até Lilly celebrar os seus 83 anos, o que teria ocorrido em 2007, visto ter chegado à Madeira com 16, é dominado pela vida familiar da personagem principal, sem alusão a outros factos históricos, como por exemplo o 25 de Abril, o que, de certa forma, se compreende face ao tema do romance. Desse período, assinale-se, como marca temporal, a ficcionada movimentação de rua para celebrar com outras gibraltinas os 15 anos da chegada à ilha, em Julho de 1955, peripécia introduzida na narrativa para desequilibrar o ambiente familiar e esclarecer uma questão do passado de Lilly.
Berta Helena – Refúgio de Gibraltar. Funchal: Imprensa Académica, 2023. ISBN: 978-989-9062-25-2.
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