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As casas são entidades vivas, erguem-se, dignas, nas paisagens, perfilam-se a bordejar as ruas, repousam no silêncio das planícies, debruçam-se nos socalcos das montanhas, ou abismam-se sobre as falésias, desafiando os precipícios; as casas olham o mundo através das janelas, deixam entrar o sol e as sombras e a respiração do vento. Testemunhas de todos os lances da vida, desde os mais funestos aos mais felizes, têm nome e oferecem abrigo. Da mais modesta moradia, ao palácio, iluminam-se ao calor dos abraços, vibram e agitam-se ao ritmo de quem lá mora. Dentro delas se constrói uma rede de emoções que dá sentido aos dias e cobre a nudez do tempo e das ausências. As casas vazias degradam-se rapidamente e transformam-se em esfinges, presenças enigmáticas a suster o terrível estigma da indiferença e do esquecimento. Aqueles que as amam assinam poemas de sentida homenagem e reconhecem a teia imensa que une os que nelas habitam:
«É por isso/ ó casa/ que os meus ombros te sustêm / tomo da teia a estrutura e a beleza/ e sigo talhando o longo pano/ que em cada dia/ desdobro sobre a nudez do tempo/ vestindo o enigma dos lugares vazios./ Levo-te comigo ó casa / até onde chegue /o fio do meu braço/ a trama rigorosa do meu culto». ( in Protesto e Canto de Atena,2001,Irene L. Andrade ).
Rui Belo conhecia o sortilégio desses abrigos da nossa privacidade e dos nossos segredos, quando disse na sua «Obra Poética»: «Eu amei as casas, os recantos das casas/ visitei casas apalpei as casas / só as casas explicam que exista / uma palavra como intimidade /…mudas testemunhas da vida/ elas morrem não só ao ser demolidas/ elas morrem com a morte das pessoas/ Oh as casas as casas as casas.»
Neste momento do mundo, invadido pelo golpe de uma guerra insana, nas cidades bombardeadas, as casas mostram-se aos olhos desolados de quem as vê, como espectros assustadores a ameaçar a integridade do nosso espírito. Morrem de pé, como heroínas despojadas, indefesas, geladas de espanto e imponderabilidade. Por onde andarão os seus habitantes ? Que vidas morreram com a morte das casas ? Esta é uma das faces do seu trágico desaparecimento.
Há, no entanto, outra face que as distingue pela passagem de um tempo austero que as devota à indiferença e ao abandono. Estão nesta situação algumas quintas da nossa ilha, cujas famílias deixaram de habitá-las, por razões de rumos dispersos e permanecem em estado precário à beira de lamentável ruína. O Solar de Nossa Senhora da Piedade apela a uma indispensável atenção ao meu modo de admirar estes retiros ajardinados, que enriquecem a paisagem madeirense pela sua História particular.
Na minha adolescência, ao passar pelo velho caminho que conduzia à fundura do Jardim do Mar, não me passou despercebida a presença desses muros pintados de rosa-forte, com capela adossada, a acusar já algumas fissuras. Ao longo dos anos fui sabendo que um nome distinto das letras portuguesas. Luísa Grande de Freitas Lomelino , com o pseudónimo de Luzia, filha de mãe madeirense, abalou este reduto com a exuberância do seu pensamento mordaz, o sentido crítico com que discorria sobre a volubilidade dos protagonistas da sua «comédia da vida» e de «Os que se divertem», gente do seu tempo que se inundava de atavios supérfluos e relações toleradas por conveniência social ou razões de subsistência. Mas apraz-me salientar especialmente, a vocação poética, que, à deriva da sua perspicácia queirosiana, a induzia à utilização de lirismos para salientar o seu amor por este lugar que de início tanto a amargou, mas onde, anos mais tarde, já reconciliada com o mar, experimentou a «paz do silêncio» e o capricho das pedras fugidias que «ladeavam as veredinhas escorregadias» e rolavam sob os seus pés. Luzia, a escritora que deixou o Alentejo e, por casamento com Francisco João de Vasconcelos Couto Cardoso, descendente dos morgados do Jardim do Mar, marcou expressiva presença pelas memórias inscritas em inúmeras cartas, é autora dum valioso espólio literário que enobrece a ilha e essa pitoresca fajã no sopé da falésia. É com inegável carinho que Luzia se refere ao lugar onde viveu, na quinta da Piedade, testemunha da sua vida íntima e das suas cogitações, que jaz agora num silêncio perigoso, a requerer a rápida atenção dos cuidadores da ilha. É um delito moral deixar morrer estas «Casas com História». As casas, e outros acervos. São parte da vida desta terra, que, culturalmente, estagnará, se alguém os votar ao desamparo e à ruina.
*Há uma lista de locais, entre outros, que acrescento a esta resenha: Palacete dos Canaviais, na R. da Carreira; Confeitaria Felizberta; Cemitério dos Judeus, nos Louros e respectiva Sinagoga, na R. do Carmo; Seminário da Encarnação; Capela de N. S. da Saúde, do séc. XVII; Solar e capela de Santo António da Parreira, nos Marmeleiros; Recolhimento do Bom Jesus… Uma vez recuperados, estes locais poderão reverter-se a situações de utilidade pública, com benefício para várias partes.
* Informação facultada por José de Sainz-Trueva.
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