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Não posso, não devo arvorar-me em detentora das palavras certas para todos os momentos em que uma página em branco me provoca, ou uma página negra abala a minha capacidade de entender. Mas as imagens também são formas de linguagem e a indiferença só me invade quando nada vale a pena. E hoje, nos dias que chamamos nossos porque temos vida, porque continuamos a sobreviver às tragédias do mundo, tomo a liberdade de afirmar toda a pena que sacode os meus sentimentos mais profundos. Estou com todos os que abominam a barbárie, os que se revoltam contra o crime, os que se angustiam com a impotência para travar a ignomínia. neste tempo obscuro de lesa humanidade. Os velhos espantam-se amargurados, os novos interrogam-se, ansiosos, enraivecidos os incrédulos vociferam, os agnósticos digerem mal a perspectiva de um mundo em declínio. Demasiado mergulhados na fragilidade dos sonhos que têm acalentado as nossas várias ambições, descobrimo-nos completamente alheados da possibilidade de haver uma hora radical, em que um incidente inaudito vem determinar a mudança imediata do mundo, lançando-o, em poucos dias, numa terrível encruzilhada e na mais absoluta perplexidade.
Somada a uma entidade viral ameaçadora da liberdade, e do abraço que aproxima e reforça a afectividade entre os humanos, uma potestade desalmada, arrasa um país, mata indiscriminadamente, atinge, com armas brutais os alicerces da paz. A inteligência do mundo parou por momentos, deixou de respirar por alguns segundos, e atingiu o paroxismo perante este retrocesso da História, que traz de um tempo trágico, anacrónico, o ruído da metralha, o ribombar dos bombardeamentos, a estridência das sirenes que se esvai como um uivo atroz, por entre os que partem, atónitos e desamparados, velhos, mulheres e crianças, que deixam tudo por nada e por nenhum lugar. Despidos de atavios. Apenas pela vida, Os países recebem-nos, mas não são a sua casa nem a sua pátria. Os países oferecem-lhes um abraço solidário e um naco de comida, abafam-nos contra o frio do corpo, mas o frio da alma é demasiado agreste e incomportável. Nem todos têm lágrimas, ou porque as perderam durante as dolorosas despedidas e a fuga atribulada, ou porque uma oculta raiva de mistura com o sofrimento lhes esgotou a fonte do coração.
Mas em terreno próprio fala-se da «ciência» da guerra. Fala-se da guerra como uma «arte» que exige das partes beligerantes a capacidade de criar as manobras mais adequadas e eficientes para a obtenção das victórias. As leis da guerra consignam um direito de fazê-la, de declará-la, sujeita a estratégias próprias que permitem, entre as partes envolvidas, uma acção belicosa, com propósitos paradoxais, como se se discutisse o direito, ou não, de exterminar a espécie humana, quando os potentados se autoelegem donos do mundo e da vida.
Sabe-se, da História de sempre, que as fronteiras políticas do mundo se formaram a partir de conquistas sucessivas que afundavam os povos em longas batalhas e, inicialmente tinham em vista a defesa contra as tribos consideradas bárbaras e o extermínio dos invasores que abruptamente desencadeavam escaladas ferozes sobre os territórios cobiçados. Depois, através de contratos de natureza política e social e de trocas comerciais, os territórios podiam ser anexados e essas negociações evitavam a realização de conflitos armados. Com o surgimento do conceito de Estado, os territórios conquistados adquiriram um cariz de inviolabilidade com garantias e direitos de afirmação e sobrevivência, por meio de Cartas e Convenções, o que correspondia à necessidade de prover ao desenvolvimento dos países, pelo estabelecimento da paz. Após a globalização que se opôs à hegemonia assistiu-se a uma estabilização das fronteiras através de factores relacionados com a identidade cultural e o respectivo reconhecimento pelos ideais civilizacionais de cada país. Tal flexibilização permitiu a circulação do capital e a ajuda económica. Do mesmo modo, a integração em instituições internacionais consignou a segurança, a defesa e a preservação das fronteiras e a estabilidade e tranquilidade dos povos.
A última «grande guerra» deixou para a História uma enorme mancha negra que revolucionou a consciência da humanidade. De repente, a sua memória, diluída nos tempos auspiciosos da paz europeia que se julgava definitiva, acordou agora para uma operação hedionda de destruição e morte. Dum lado a outro da Terra, governos e comunidades movimentaram-se numa onda de protesto e filantropia nunca vistos, contra a invasão traiçoeira de um louco, e seus acólitos, cuja ambição, sob o pretexto de purificação e limpeza de uma «espécie», tal como em anos antes, desencadeiam o morticínio em massa duma nação, com reflexos para o mundo que já começam a ser evidentes, para além do choque dos espíritos, feridos profundamente nos mais elementares valores de tolerância, comiseração e solidariedade humanas. Contra todas as expectativas dos bem intencionados a História repete-se. A civilização ainda não encontrou cura para o pecado congénito do egoísmo e da ambição e descontrolo do poder.
Ninguém sabe como fazer parar a ignomínia, travar a torrente de destruição que divide o mundo entre os poderosos e as suas vítimas. O medo de uma hecatombe generalizada paralisa e faz letra morta de Cartas, Tratados e Convenções. O tempo inútil arrasta-se. As lágrimas escoam-se em dores contidas. Em silêncios sem nome sob rostos parados. Alguns esboçam sorrisos magoados sob uma estranha resignação. Afirmam espantosamente a resistência, para dissimular a raiva, ou iludir a esperança. De vez em quando há vozes que dizem: «Não temos nada. Só estamos vivos»
O mundo civilizado treme, a beleza extingue-se sob a cinza das paisagens e os escombros de cidades e aldeias, a palavras da coesão e da harmonia naufragam na mais profunda escuridão… Depois de tanta História e das suas experiências tenebrosas, haverá tempo, ainda, para sermos, num só mundo, definitivamente, Humanidade ?!
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