As contradições da Esperança

*«O tempo e o espaço são ficções da memória. Chamamos vida à soma das horas boas com as pequenas dores» ¬- disse isto uma vez, e repito. Nesta hora em que o sol bate nas varandas e invade as valas das montanhas, pequenas dores, imprevisíveis e sorrateiras percorrem as casas das cidades e abalam o sossego de um dia que todos esperamos nos traga horas boas. Continuamos, todos, atados a uma palavra presa ao tempo, porque é dele que ela se alimenta, é do tempo que ela colhe a sua razão de existir. As pequenas dores são contrariedades, insucessos, perturbações, coisas ligeiras que a resistência vai tentando abolir com o decorrer das horas ou dos dias. Os persistentes colhem muitas vezes com êxito os benefícios dessa insistência. A insistência na espera. É um combate diário, faz parte da vida, ninguém escapa a esta dicotomia: Há dias bons, há dias maus. Vamos vivendo . E sorrimos. E lá vem a velha palavra cuja origem se perde no particípio latino, sperans / sperantis, e nos leva pelo tempo fora a perseguir a utopia como forma de superar os dissabores e as dores.
Por ser conotada com a quimera ou a ilusão, há quem pretenda revoga-la do vocabulário quotidiano, essa expressão tão antiga quanto a existência do homo sapiens, desde que este começou a sofrer as investidas do planeta ao seu sossego. Ao sossego com que pretenderia viver na terra que lhe foi dada, onde afinal arrostou com agressões de animais e tempestades violentas. Mal se sabe de quem a inventou, mas, certamente, terá surgido quando o homem criou os signos que deram origem à linguagem e, a partir de então, de várias maneiras se implantou ao longo das civilizações.
Séculos e séculos de História humana, séculos e séculos de horas boas e horas más. E sempre essa palavra crucial procura abrandar escolhos no caminho dos homens. Todos sabemos que ela não resolve as nossas dores, mas significa um processo, um subterfúgio que vale como um acumulador de energia contra a incerteza e o desespero, contra o desarmamento da nossa frágil condição perante o indomável. Quem a pronuncia sabe que ela se converte numa amalgama de probabilidades e improbabilidades sujeita a correntes invisíveis, provenientes de lugar desconhecido: Deus, o Criador, a Natureza, o Destino, afinal o lugar ideal da existência perfeita.
Ela sobrevive circunscrita aos desejos, projecta-se no envolvimento das promessas, anseia pelas justas decisões de quem detém os poderes, vive duma fé inscrita num dos livros mais antigos da humanidade, faz parte duma qualidade moral que determina o modo de arrostar com os reveses e, finalmente – diz o povo – no vale das nossas dores é a última a morrer.
Deste modo se fala da Esperança. Deste modo, mesmo que alguém se acuse de agnóstico ou ateu, não pode deixar de reconhecer que ela se torna visível em todos os actos humanos e é um arrimo na travessia difícil dos dias.
Uma certeza irrevogável é que, nada nos é revelado sobre o futuro. E temo a todo o momento deparar-me com uma contradição, tendo em conta as muitas dúvidas que a mesma palavra suscita: O discorrer sobre os sonhos, os íntimos desejos que se projectam na vida, os planos de realização pessoal ou colectiva, as lutas pela defesa do planeta, todo o potencial da criatividade humana, se escudam na Esperança.
Detenho-me aqui, por, de repente, me surgir como arma de dois gumes, a palavra tão grata e repetida. Porque a Esperança me parece também um modo de camuflar a inércia com que se regem os destinos globais das populações humanas. A inércia, o descalabro das governações, a impotência para cruzar um caminho de volta que nos remeta para mais próximo do projecto vital da Natureza. Lança-se aos quatro ventos a bandeira da Utopia porque não há outra que nos console contra os próprios erros e fragilidades. Somos fracos, vulneráveis, corruptos. E voltamos novamente ao suporte da Esperança para não soçobrar.
Alguém um dia, à beira da morte, soltou a frase mais significativa e contundente, reveladora da maior verdade sobre as lutas da vida: «Eu não preciso de saber mais nada. Eu já sei tudo». Palavras sábias e perturbadoras que nunca esquecerei. Creio ter sido esta a hora da autêntica morte da Esperança, porque outra luz se fez, mais esclarecedora e mais forte.
Crentes ou não no poder oculto do verbo, «chamamos vida à soma das horas boas com as pequenas dores». Porque as grandes dores, só essas, estão para além dos argumentos da Esperança.