Forte do Ilhéu: de saiote aos quadradinhos

A intervenção, em curso, nas fachadas nascente e norte do Forte de Nossa Senhora da Conceição do Ilhéu, desrespeita o património arquitectónico militar da Madeira, por descaracterizar o monumento classificado. Constitui um exemplo do que não se deve fazer na reabilitação de um edifício histórico. Parece coisa de habilidoso de mau gosto, que ajeita quadradinhos a preto e branco na alvenaria. Ficamos com a impressão de que vestiram as muralhas do Forte com um saiote aos quadradinhos.

A obra da APRAM – Administração dos Portos da Região Autónoma da Madeira, S. A., foi adjudicada por 58 700 euros. Não adianta discutir se houve ou não parecer prévio ou acompanhamento técnico da Direcção Regional de Cultura, porque ambas as entidades estarão sempre, publicamente, de acordo. Em casos desta natureza, a cor partidária e a solidariedade política falam mais alto. Já, particularmente, a conversa poderá ser outra.

Fotos: Nelson Veríssimo

Tal como se fazem análises de terra antes da calagem, impunha-se, no caso, o estudo das características das argamassas antigas, de revestimento e enchimento. Só assim se poderia definir uma argamassa adequada às exigências e propósitos do meio. Na Madeira, há boas práticas, neste domínio, como por exemplo, no Aqueduto de Machico, na Sé e no Convento de Santa Clara. A Faculdade de Ciências Exactas e da Engenharia da Universidade da Madeira e o Laboratório Regional de Engenharia Civil, através do Mestrado em Engenharia Civil, também têm produção científica sobre esta matéria.

Outra questão prende-se com a solução para o tratamento da instabilidade de alguns blocos de cantaria, que por lá continuam inseguros.

Convém também sublinhar que a conservação e restauro de imóveis classificados do Património Cultural, por natureza uma empreitada multidisciplinar, deve ser executada por profissionais e empresas com créditos nesta área.

O Plano de Actividades e Orçamento para 2021 da APRAM prevê a “reabilitação e requalificação do forte” (p. 16). Requeria, por conseguinte, uma intervenção adequada, de acordo com o que é recomendável e está preceituado, ao nível de princípios, estratégias e materiais, para uma obra de conservação num imóvel classificado como Património Cultural. Doutrina que deveria ser do conhecimento do dono da obra, em especial a Carta de Veneza.

Exige-se respeito pelos valores estéticos, históricos, ambientais e identitários deste Forte que, felizmente, foi preservado nas diferentes fases de construção do molhe do porto do Funchal, conferindo-lhe especial singularidade.

O que está a ser feito não é reabilitação nem requalificação, e não me venham com a conversa de que tinha de ser assim, pois esse argumento só seria aceitável após a análise de diversas soluções, propostas por quem sabe do ofício, e conhecimento das respectivas conclusões.

Correspondendo a velha aspiração que remonta, pelo menos, ao mês de Outubro de 1553, ordenou-se a construção da fortaleza do Ilhéu ou de Nossa Senhora da Conceição em Fevereiro de 1652, para segurança das embarcações que escalavam o porto do Funchal, em especial a defesa contra piratas e corsários. Muito apropriadamente, o capitão-general D. Rodrigo da Costa, ao nomear D. Jorge Henriques para governador da fortaleza do Ilhéu, em Abril de 1691, considerou-a «a chave do porto desta cidade, e posto dos mais ariscados que nela há por estar situado no mar, cortado e separado da terra, cuja defesa que nas ocasiões que se oferecerem é das mais importantes e dificultosas».

A construção deste forte decorreu ao longo do terceiro quartel do século XVII. Em Abril de 1664, ainda se desbastava a rocha «até ficar capaz de se poder obrar com pedra e cal».

Com pedra e cal foi construída, e aos dias de hoje chegou. A necessária intervenção, agora levada a cabo, não deveria ignorar os materiais originais, que resistiram por mais de três séculos a intempéries e sismos.

Esperemos que a opção pela abundante «argamassa seca pré-misturada, composta de cal hidratada, cimento Portland, areias classificadas e aditivos específicos para melhorar a trabalhabilidade e a aderência», muito utilizada na alvenaria de tijolo, não venha ainda a provocar mais danos nas muralhas seiscentistas.

No âmbito da reabilitação de um edifício histórico, a opção por determinada argamassa implica a análise físico-química das argamassas primitivas.

Lamentavelmente, o Forte de Nossa Senhora da Conceição, para além desta obra desastrada, tem sido vítima, nos últimos anos, da maior desconsideração, como imóvel classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira. É observar o Ilhéu, do mar, ou a parada, as ameias, a cisterna e outros elementos arquitectónicos da antiga fortificação. Na disputa do espaço exíguo, mas com uma vista espectacular sobre o Funchal e a imensidão do mar, os interesses empresariais sobrepuseram-se à memória histórica. Até o emblemático guindaste que ali existia, numerosas vezes fotografado e desenhado, está desaparecido, pelo menos, desde 2012, sem que, quem de direito, se interesse pelo caso.