As notícias que nos chegam do mundo são as que se sabem. Repeti-las aqui será uma dolorosa invectiva. Será talvez uma redundância, para quem ler esta pequena crónica. No entanto lembrarei o que, por estes dias, nos entra pela porta da nossa esgotante rotina. Dias iguais aos dias onde até a Natureza nos atinge com a falta de energia do sol, a desmotivação da luz, a tristeza da nuvem num céu de cinza e melancolia. Por este rotundo planeta que se repete a si mesmo, dum lado a outro dos países, o que se avista é uma poeira de incertezas, de dúvidas camufladas, de medos disfarçados, de euforias desregradas, pandemónios assustadores, faltas de escrúpulos, subserviências, seguidismos, massa acrítica, e tantas vezes – demasiadas vezes – a ganância pessoal. Falar de pecado está fora de questão porque há milénios que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso e, com o decorrer dos séculos, ninguém mais se preocupou com essa metáfora da História. Agora, o pecado passou a designar-se simplesmente por «erro» e os humanos passaram a considerar que «errare humanum est» para defesa das suas próprias culpabilidades. Salvos, gratuitamente, pelas conclusões de S. Jerónimo que no distante sec.IV d.C. se penitenciava pela vida despreocupada que o arrastava para a promiscuidade.
As conclusões de S. Jerónimo são matéria grave, e a própria narrativa do Éden primitivo foi um potente alerta para os desmandos do ser humano. As faculdade de pensar, de sentir e as capacidades de conhecer e deduzir, são qualidades extraordinárias que uma vez imbuídas de «erro», voluntário,( ou não ) são portadoras de enormes catástrofes e estas são experiências já suficientemente constatadas e comprovadas pelos acontecimentos a que todos assistimos. Rebeliões, morticínios, guerras, pilhagens, egoísmos, abismos profundos que a violência cava indiscriminadamente desde o mais modesto domicílio à mansão mais opulenta, falhas técnicas e políticas, desmandos de ambição e de abuso de poder, são notícias do mundo que nos ensombram os dias.
Não é possível ficar indiferente. Não é possível ignorar a História. Não é possível esboçar um mero sorriso complacente, como se os gestos conscientes dos pensadores fossem apenas lucubrações patéticas que nada têm a ver com a vida e o seu equilíbrio, e o tão apregoado desejo de felicidade.
Falar das nefastas consequências desse monstro pandémico de que muitos inacreditavelmente ainda descreem, pode ser extemporâneo, apesar do luto demolidor que invade tantos lares e martiriza os afectos. Temível é o balanço que o futuro reserva aos inadvertidos ou inconscientes. Haverá soluções eminentes para tanta destruição? Esperemos que respondam os séculos vindouros.
Não é pretensão desta crónica entrar em âmbito de terrores, numa espécie de auto-flagelação redentora por «pecados» colectivos, mas agitar o nosso conforto moral e material como bandeira de vitória perante o sofrimento do mundo, é minimamente afrontoso. Ser comedido será uma medida de prudência, a abonar um gesto de justiça.
Que propósito traz S. Jerónimo a esta crónica para que de novo o evoque ? Nascido na costa da Dalmácia, no sec IV,d.C., na época, província Romana, à beira do Adriático,foi grande figura intelectual da época, filósofo, professor, investigador literário, historiador. De tal modo é considerada a sua obra, que se tornou patrono dos estudantes, englobando, arqueólogos, arquivistas, teólogos e tradutores. Estudou em Roma e viajou pela Gália, Germânia e Grécia e por todo o oriente de onde colheu profundo saber. O sofrimento humano interessava-o como área de prospecção e, por esse motivo, visitava frequentemente as catacumbas, servindo-se duma frase de Virgílio, que traduziu nos seus escritos: «Frequentemente me encontrava entrando naquelas profundas criptas escavadas na terra preenchidas com os corpos dos mortos…Aqui e ali a luz vinha, não de janelas, mas descendo através das valas e aliviava o horror da escuridão…e vinha-me à mente uma frase de Virgílio,…´por todos os lados espalhava-se o horror, o profundo silêncio inspirava o terror na minha alma…
O mundo de hoje assiste de todos os modos, de perto e de longe, ao mesmo terrível espectáculo. Hoje não há catacumbas, mas o mesmo horror a céu aberto, em grande pompa de reportagens e imagens macabras e outras violências por demais conhecidas, além de certos silêncios escuros onde não entra a luz.
Não é pretensão desta crónica cair num fenómeno primário de masoquismo, mas quando nos entram pelos olhos notícias sobre as posses milionárias de alguns, frente à indigência extrema de outros, não é possível lembrar a frase crucial, atribuída a S. Jerónimo, «errere humanum est», sem um terrível arrepio.
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