Os perigos da ciência e da tecnologia na organização social e política

Importa reflectir sobre as respostas dadas pelo otimismo tecnológico inabalável, sem uma visão lúcida dos riscos do futuro para o planeta e para a sociedade. Após a “época gloriosa” de crescimento económico exponencial, torna-se necessário traçar cenários sustentáveis para o planeta e para a organização social e política democrática. Se continuarmos pela via irresponsável do crescimento exponencial, atingiremos o colapso. Urge criar um “modelo mundial” que combine a dinâmica entre população, produção, industrialização, recursos naturais e poluição. O desenvolvimento sustentável defende o crescimento de baixa ou nula pegada ecológica. Não resolveremos a crise climática sem mudar o modelo de desenvolvimento e o nível de vida dos países ricos, nem podemos subtrair aos países pobres a oportunidade de chegarem ao patamar dos países ricos, a não ser pela inovação/reconversão tecnológica e pela cooperação. Entretanto, surgem soluções “milagrosas” embaladas na “fé da inovação tecnológica”.

Os governantes parecem estar enamorados com estes “visionários” que visam apenas o lucro. Neste ilimitado optimismo, a receita para evitar o desastre ecológico é reconstruir o erradamente produzido, e não mudar o modelo de desenvolvimento, através de projectos de geo-engenharia. Exemplo disso é o projecto SCoPEx (financiado por Bill Gates) que pretende contrariar o processo do aquecimento global, sem prever os efeitos secundários e desconsidera as diversidades locais. É um projecto de globalização climática, que pretende munir a Terra de um termostato humanamente regulado para “pôr o planeta nos eixos”. Em vez de substituirmos o atual modelo de desenvolvimento económico e social, de carácter exponencial, capitalista, por um modelo sustentável, eco-socialista, avançamos rumo ao precipício com o patrocínio da ciência. Utilizar os mesmos ingredientes da receita, quando muito leva a resultados semelhantes.

Ergue-se a questão da ciência como um instrumento ao serviço do desenvolvimento (económico e social) e fundamento das opções políticas.

Os modelos matemáticos falham as previsões porque existe o incalculável, impedindo a ciência de se tornar a arte de governar. Supostamente, os números racionalizam a governação, considerando-se da ordem do ingovernável o que fica fora da racionalidade numérica. Subsistem boas razões para o poder político se submeter aos pareceres científicos nas decisões que exigem o “saber especializado”. Isso tem os efeitos nefastos da submissão da política e acentua a crença na capacidade salvífica da ciência. Embora a tecnocracia tenha a característica da eficácia, não tem a capacidade de exprimir o não racionalizável da vida, no fundo aquilo que se espera do agir político, e à ciência são estranhas as ideias de liberdade e felicidade.

Hoje, confrontamo-nos com posições negacionistas e anti-científicas e, em simultâneo, temos a ciência a subordinar a política e vista como alternativa de governo formado por “especialistas de incertas ciências” que substituiriam a soberania popular. Transferida para o domínio da governação, a ciência seria uma forma de tirania que obrigaria a renunciar os direitos civis e comportaria riscos para a democracia. Amanhã, poderá não haver tempo para enfrentar o descuido da defesa da Democracia e da liberdade de criticar e apontar os erros do poder político.

A excitação à volta da ciência e das tecnologias coloca-nos a questão sobre a existência de um excesso de confiança sobre o que irá acontecer, descurando as consequências da sua aplicação nas nossas vidas. O problema é que ninguém sabe quando e que mudanças se tornarão realidade. Não acontecerá o “milagre” anunciado pelos cientistas que tentam adivinhar o futuro com a fé inabalável baseada no racionalismo científico e tecnológico, determinista e dogmático. Se estes imperativos racionalistas forem estendidos a todas as áreas da sociedade é a nossa liberdade que estará em jogo.

Historicamente, os regimes políticos (democráticos ou autoritários, liberais ou socialistas) tomaram emprestada à ciência e à tecnologia a retórica da objetividade e da neutralidade para despolitizar problemas intrínsecos à ordem política, para apresentar ações de interesse público, reconciliando a liberdade individual com a ordem social. A ciência moderna legitimou as democracias e ajudou a consolidar a ideia da política como lugar da objetividade. A Ciência e a Política vivem um relacionamento que exige boas cercas. Se a ciência ganha autoridade sem “mandato político” em procedimentos da democracia representativa, tornará dispensável os políticos, o exercício do voto e outras formas de participação democrática.

Resta-nos desafiar a noção liberal da “autoridade da razão científica”, sem correr o risco da irracionalidade e, ao invés disso, acolher olhares alternativos para os mesmos problemas sem restringir a discussão pública. Na democracia importa ampliar a contestação do modelo tecnocrático na tomada de decisão política. O equilíbrio entre ciência e política envolve desafios, a desconfiança na ciência compromete a racionalidade das decisões tomadas, favorece o autoritarismo e esbarra no interesse público. A confiança excessiva na tecnocracia conduz à concepção meramente formal da democracia, prejudicando o processo democrático, pois quanto mais “técnica” é considerada uma questão menos espaço existe para questões políticas substantivas, como o tipo de sociedade que queremos ou como estabelecer as fronteiras entre a utopia (liberdade) e a distopia (controlo). A subtileza está em acomodar as relações entre a ciência e política para encontrar soluções equilibradas.

A ciência não responderá à única pergunta que importa para nós: o que devemos fazer e como devemos viver? Não pode dar tal explicação, pois os campos dos valores e da expressão da vontade humana subjetiva são do domínio da política.