Um continental que desconhece a História da Madeira

Na história do PS Madeira conheço até à presente data duas figuras não madeirenses que representaram os órgãos locais na Assembleia da Republica: na 1ª legislatura de 1976 a 1980, o Dr. Joaquim Jorge de Pinho Campinos, natural de Lobito, Angola eleito pelo circulo da Madeira. Muita tinta correu  nesse período conturbado dos primeiros da democracia. Decorridos 40 anos, os socialistas madeirenses voltaram a colocar nas suas listas Miguel Iglésias, actual líder parlamentar na Assembleia Regional.
Faço questão de sublinhar que não catalogo origens, nem raças, ou religiões. Somos todos Portugueses, com direitos iguais.
Hoje ao lermos num matutino local os trabalhos da Assembleia, destaque à intervenção do líder:
PS DIZ QUE AMPLIAÇÃO DO MOLHE DA PONTINHA É “INSISTÊNCIA” POR “OBRAS SEM RETORNO ECONÓMICO”.
Num segundo comunicado emitido ontem à tarde, o PS refere que a ampliação do molhe da Pontinha é “insistência de Miguel Albuquerque e Pedro Calado por obras sem retorno económico para a Região”.
“A ampliação do molhe da Pontinha é estruturante para a Região ou para as empresas de construção civil que gravitam em torno do Governo Regional?”, questionou Miguel Iglésias, numa reacção às declarações do presidente do Governo Regional, questionando a prioridade dada a uma obra quando se deveriam apostar em medidas de defesa da economia, apoios às empresas, assegurar empregos e proteger os mais socialmente expostos.
“É bastante questionável esta obsessão de Miguel Albuquerque e de Pedro Calado em relação a esta obra. Não é conhecido o racional para defender a inclusão desta obra no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), não se conhecem os fundamentos económicos e financeiros para esta empreitada num momento em que o mercado de Cruzeiros está parado e sem perspectivas de retoma futura, e não se compreende a premência de uma obra que implica despejar mais 400 metros de betão na frente mar do Funchal, que custará aos cofres regionais um valor superior a 172 milhões de euros, o equivalente a 20% do valor total do PRR para a Madeira”, afirmou o líder do grupo parlamentar do PS Madeira na Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira.
Recomendamos  ao líder da bancada parlamentar do PS-M que, embora não seja historiador, peça uma cábula ao presidente do PS Paulo Cafôfo, pedagogo nessa área.
Posições “discordantes” em relação a obras fundamentais para a Madeira, como a construção do Porto do Funchal, já vêm do século XX.
O antigo Governador Inocêncio Camacho de Freitas, cujo consulado foi o mais extenso, com cerca de 17 anos, apresentou um projecto próprio e ambicioso que melindrou os poderosos do regime de então, que no caso do Porto do Funchal, consideravam que esta infraestrutura não deveria ser mais que um porto de mercadorias.
O ex-Capitão do Porto não conseguiu fazer vingar as suas ideias porque não teve apoio de Salazar, mas o tempo acabaria por mostrar que tinha razão.
Camacho de Freitas tinha uma visão (boa ou errada) para o desenvolvimento económico da Madeira, que destoava, e nela assentava a defesa das obras do Porto que preconizava.
Em 1949 estiveram sobre a mesa três propostas sobre o Porto do Funchal: a proposta institucional da JAPAM (Junta Autónoma dos Portos da Madeira); a da Union Castle Line, e a do Comandante Inocêncio Camacho de Freitas.
O ex-governador afirmou na altura ter aceito o cargo com alguns sacrifícios pessoais, nomeadamente “o de ter renunciado a liberdade de acção do Porto do Funchal, que havia tratado com todo o coração como Capitão do Porto”, A sua desilusão só começa a transparecer a partir de 1954.
Não queira o Sr. Iglésias ser um correligionário do salazarismo imitando o velho ditador.
Recordo as guerras que tivemos pelo Aeroporto, os anos que perdemos. Hoje é o Hospital, com “pedras nos sapatos” e a máquina não arranca. Miguel Iglésias não estava cá quando em Câmara de Lobos (no ilhéu) moravam 20 pessoas num quarto. Quando a luz era a petróleo e a velas. Quando a água era de fontenário, por vezes a quilómetros de distância. Ir ao Porto Moniz, só em excursão do padre da paróquia com saída às 06 horas da manhã e regresso à noite. Centros de saúde, só da Calheta que se intitulava hospital, etc… etc…
Será que o Povo Madeirense (um povo sofrido) continua castigado pelas “Revoltas do Leite e da Farinha”? Sr. deputado, é bem-vindo, mas lembre-se daquele velho ditado usado no continente: “Para lá do Marão mandam os que lá estão”…