Quando crescer quero ser enfermeira

A maior parte das pessoas torce o nariz com o cheiro pungente dos hospitais. A mim conforta-me. Lembra-me a infância tanto quanto o cheiro do chá de hortelã-pimenta que a minha avó me fazia.

Estar no 2.º piso do Hospital era para mim o que era para outras crianças ir à loja do pai ou ao escritório da mãe.

Lembro-me das enfermarias todas iguais e da sala com a televisão que nunca dava desenhos animados. Lembro-me dos doentes a andar fantasmagoricamente nos corredores com robes e pantufas, ladeados pelo que me pareciam torres móveis que transportavam garrafas com o que só poderia ser uma poção mágica. Adorava arrancar-lhes um sorriso, com os meus totós de cabelo espesso e preto que emolduravam a cara de lua cheia com boca desdentada.

Lembro-me do quadro negro com a estética inconfundível dos anos 80 – verdadeira tecnologia de ponta aos olhos dos oito anos de idade – onde acendiam as luzes dos quartos em que era necessária alguma ajuda, que poderia ser só ajeitar uma almofada ou dois dedos de conversa.

Lembro-me da Natália, que me dava bolachas à socapa, na copa. Como se eu não tivesse já uma cara de lua cheia suficiente. Lembro-me da Zé, a enfermeira que para minha felicidade calçava o 35 e que me dava os sapatos de salto que já não usava, para eu chinelar em casa ou levar à discoteca do Duas Torres.

E lembro-me das partidas que faziam uns aos outros. Daquelas que envolvem resultados de testes falsificados ou maqueiros a fugir de uma morta viva. Histórias que não se podem contar aqui. Infelizmente.

Lembro-me do vestiário das enfermeiras. Lembro-me das conversas que lá tinham, as histórias que partilhavam, o que riam mesmo depois de um turno duro. A camaradagem ali era tão forte como o cheiro daqueles sapatos guardados numa sala sem ventilação.

A minha mãe é enfermeira. De profissão, de coração e de vocação. Não a veria a ser qualquer outra coisa. Mesmo estando reformada há anos, quando surgiu esta maldita pandemia e todos queríamos era estar em casa em segurança e longe do vírus, ela estava preparada para avançar caso precisassem dela. Sem hesitar. Uma vez enfermeira, enfermeira para sempre.

Raras eram as vezes que íamos ao Funchal e não havia alguém que nos abordava com o habitual “A Sr.ª Enfermeira não se lembra de mim? Nunca me vou esquecer o que fez por mim”. E eu crescia um bocadinho com o orgulho que sentia.

Esta semana duas enfermeiras estiveram na boca do mundo. Por razões completamente distintas.

Uma foi a Claúdia Perestrelo, atualmente deputada na Assembleia Legislativa Regional. Esta enfermeira apareceu no Telejornal da RTP-Madeira a falar aquando da vacinação COVID no seu concelho, Santana. Houve alguém – há sempre alguém – que se lembrou de questionar se ela, devendo estar em confinamento na sequência de um caso positivo na Assembleia de outra deputada, poderia vacinar idosos. Daí até à notícia, ao aproveitamento político e aos comentários absurdos a destilar ódio foi um passo muito pequeno. Como é sempre.

Respondeu a deputada que não estava em isolamento e que, mesmo assim, depois de um teste negativo pediu parecer à autoridade da Saúde Pública para saber se poderia continuar a exercer as funções que está a desempenhar desde dia 1 de janeiro no Centro de Saúde que trabalhava, a pedido daquela Instituição. E fá-lo em regime de voluntariado, acrescente-se.

Foi tudo esclarecido com uma resposta à altura. Só porque a atitude que está por detrás da resposta está à altura dos tempos que vivemos e da profissão que é a sua.

Infelizmente, isso não impediu outras pessoas de levantarem a mesma suspeita, mesmo depois dos esclarecimentos. Mais um episódio daquela série “Nas redes sociais, a verdade é sempre relativa e a gosto do freguês”. Uma série de sucesso e sempre líder de audiências.

A outra enfermeira que foi notícia esta semana foi, nada mais nada menos, que a sua própria Bastonária.

Ana Rita Cavaco é desbocada, é incendiária e não tem papas na língua. Em reação à notícia da Presidente da Câmara Municipal de Portimão ter sido vacinada sem estar na lista de prioritários e que se defendeu por ser hipertensa e obesa, disse a Bastonária “A gorda fura filas. Maldita hora que nasci magra”.

Valeu-lhe isso uma crónica de Daniel Oliveira que acusa Ana Rita de “comportamento intolerante” e que “degrada o espaço público”. Como ela não faz por menos, publica, na sua conta de Facebook, uma notícia que levanta suspeições sobre o mestrado do cronista” e apelida-o de “esterco”, “defensor de fura filas” e ainda manda cumprimentos ao seu pai, o poeta madeirense Herberto Hélder, falecido em 2015.

A publicação é, entretanto, apagada no que deve equivaler ao mea culpa no mundo de Ana Rita Cavaco.

Depois leio no jornal Público, nesta história que já em tudo se assemelha a uma novela mexicana, a crónica de Maria Augusta Sousa, antiga bastonária da Ordem dos Enfermeiros, que vem pedir desculpa a quem a atual tem “ofendido e vilipendiado, sem qualquer respeito pela profissão e pelos enfermeiros” num exercício de tomar as dores alheias, logo secundada por Rui Tavares, no seu espaço de última página do mesmo jornal.

Até que surge uma queixa disciplinar visando Ana Rita Cavaco, subscrita por dezoito membros, ao próprio Conselho Jurisdicional da Ordem. Esperemos, então, pela próxima temporada da tal série líder de audiências.

Vou descontextualizar politicamente. Vou ignorar que tanto Daniel Oliveira, como Maria Augusta Sousa e Rui Tavares estão ligados à esquerda e que Ana Rita Cavaco é militante do PSD e uma voz incómoda. Vou ignorar que alguns dos subscritores da queixa perderam as eleições para a atual Bastonária. Vou ignorar, na medida do possível.

Não acho que Ana Rita Cavaco esteja errada, quando aponta o que apelida de fura filas. Não quando há enfermeiros na linha da frente que ainda não foram inoculados. Quando luta pela classe com unhas e dentes, quando negoceia que nem bulldog pelos benefícios justos e merecidos.

Poderia era moderar o discurso, pesar as palavras, sob pena de ensombrar a própria mensagem que quer passar. Não fazer dela, em vez da classe, a protagonista. Isso é que não pode ser.

Mas continuo a gostar dela, da sua luta, do seu espírito guerreiro.

Nada é a preto e branco.

Os colegas da minha mãe. A Tânia, a enfermeira que me tentou ajudar quando a minha segunda filha nasceu e só chorava. Só chorava. E eu em pânico como uma mãe de primeira viagem. Até perceber que era mesmo (mau) feitio. As enfermeiras do Centro de Saúde da Nazaré que, com paciência infinita, vacinam as minhas filhas. Os enfermeiros do serviço de doação de sangue, que nos tratam como realeza. A atitude da Cláudia Perestrelo.

Os turnos de 80 horas nesta pandemia. Os fatos pesados, quentes. As máscaras, os óculos. Ver hospitais cheios, as pessoas a desesperar e mesmo assim ter sempre uma atenção, um gesto, uma preocupação, como relatava uma paciente que foi tratada no Almada-Sintra num cadeirão, à falta de melhor. Ficar sem ver os filhos, os maridos e mulheres, os pais durante dias, semanas. Ficar sem ver os filhos. Como não os honrar?

Depois, quando estava a escrever isto, lembrei-me de um enfermeiro que teve um comportamento verdadeiramente atroz numa recolha de sangue. Atroz. As minhas memórias romantizadas de infância e cor-de-rosa empalidecem. Afasto o pensamento como se de uma mosca inoportuna se tratasse.

Os enfermeiros não deixam de ser pessoas, com coisas boas e menos boas. Como todos nós. Mas é impossível não admirar a classe, a sua entrega, a sua missão. São heróis e heroínas de bata. Mas de carne e osso.

Nada é a preto e branco.

Mas da minha mãe, dessa, tenho um infinito e incondicional orgulho. A preto, a branco e com todas as cores do arco-íris.