‘Pedaços de Esperança’, de José Luís Rodrigues

Dezassete anos depois de Regresso ao mar (2003), José Luís Rodrigues deu recentemente à estampa Pedaços de esperança, título que sugere partilha, reunião e repartição. Poemas concebidos entre 2014 e 2020, muitos dos quais dados a conhecer, por altura da sua criação, no blogue O Banquete da Palavra, surgem reunidos sob os patamares da Luz, Sentimento, Futuro e Esperança, para agora, em livro, de novo virem a ser distribuídos com um marcador de esperança.

Na capa, uma pintura de Emanuel Aguiar – Representação do Tempo (2019)sugere o curso veloz do tempo, que escorre entre mãos incapazes de o segurar, lembrando um verso das Geórgicas, de Vergílio: Sed fugit interea fugit irreparabile tempus (Mas, neste momento, foge, o tempo foge irreparavelmente).

O topos tempo é, de facto, recorrente na poesia de José Luís Rodrigues: tempo volátil, tempo desesperado, tempo misterioso, tempo de sementes, campos de tempo, chão do tempo, colinas do tempo, tempo das sementes, proa do tempo, crista do tempo… A fugacidade do tempo manifesta-se, por exemplo, em ‘Definição de ausência’ (p. 130):

«Tenho saudades de corpos celestes que a todos assustavam

naquela casa pobre da minha infância

penso nela todos os dias

porque moro agora numa ausência

de um tempo que foi nosso e que até não se cumpriu.»

Um livro de poesia não é para ser lido página após página, ainda que dividido em capítulos. Lê-se um poema e saboreia-se a linguagem. Agarram-se palavras e imagens. E quando elas se desprendem, ainda parecem ficar connosco. Quando a nossa vontade se dispuser ou a mente se disponibilizar, prosseguimos a leitura, nesse dia ou no seguinte, tanto faz.

Estas impressões da leitura de Pedaços de esperança foram assim geradas. Agora que as sistematizo, disponho a produção lírica em quatro temáticas recorrentes: Lirismo telúrico, Lirismo religioso, Intervenção Social e Preocupação ecológica.

Lirismo telúrico

A ilha e, em particular, os lugares da infância do autor surgem largamente representados no discurso poético. O Jardim da Serra, sua terra natal, emerge em vários poemas, com particular realce em ’Ensaio das origens’ (p. 161) e ‘O poema é uma terra’ (p. 202). No primeiro, a cartografia do lugar conjuga-se com um tempo de felicidade: vereda, poços, abismos, poios, cerejeiras, pereiros, pereiras, silvado, carqueja, urze, feno e os topónimos dos sítios, concretizando: «nos lados do Pomar Novo onde nasci». Em ‘O poema é uma terra’, a ambiência serrana associa-se à construção poética. Tal como a Natureza se descobre, o poema é dádiva revelada.

O arvoredo marcou a mundividência do poeta, ao ponto de comparar o poema com a árvore, numa espécie de recriação da escada de Jacob que ligava a terra aos céus:

«Os poemas são árvores que rasgam o céu e a terra

desvelam-se pelas alturas pintadas de verde sob o

manto azul

e rasgam a profundidade da terra

como letras naquilo que nos é dado ler.» (‘Metamorfose’, p. 150)

Na floresta que acompanha José Luís Rodrigues, o pinheiro é árvore de eleição: «Zumbido do vento nos pinheiros» (p. 13); «O cheiro dos pinheiros» (p. 118); «E as árvores pinheiros e castanheiros» (p. 134); «pinhas abertas» (p. 135); «Mas entre dois gumes / Estava luz e ruídos / cortantes da serra / na ponta dos pinheiros» (p. 164); a paz que faz «cintilar o amor / pela ponta dos pinheiros densos» (p. 169); «os pinheiros daquela serra / que me viu nascer / estavam plantados dentro de mim.» (p. 198).

A infância, invocada em ‘Regresso à infância (p. 13) e ‘Eleva-se o coração inteiro e não pela metade’ (p. 134-135), carrega afectos, em particular da mãe, a quem dedica o poema ‘As cerejas’ (p. 195), e da avó (‘Regresso à infância’, p. 13; ‘Como era a luz na casa da avó’, p. 38).

Nestas paisagens, aflora a condição de ilhéu assumido («ilhéu para sempre») em ‘Regresso à ilha criadora’ (p. 149):

«Era também o meu mundo numa ilha

que nos dias frios e chuvosos

obrigavam ao recolhimento de todos

debaixo dos telhados da existência,

que parecendo tão monótona

sonhava com outro tempo e outra luz,

cortada cerce pela faca em pedaços um a um

partilhado como pão de amor pelas mãos de uma mãe.»

 

Lirismo religioso

Festividades significativas do calendário cristão inspiraram o padre-poeta:  Páscoa (p. 16); Natal (p. 74-75; 76); Quarta-feira de Cinzas (p. 90-91); Corpo de Deus (p. 189). Não se apresentam, porém, estes poemas como exercícios contemplativos. Neles sobressai a marca do tempo e uma mensagem evangélica para os nossos dias.

Sendo o poeta um padre da Igreja Católica, a sua linguagem denota a formação teológica e a prática do ofício sacerdotal, como atestam os exemplos seguintes: anjos (p. 21, 126); liturgia (p. 22, 54, 189); mãos sacerdotais (p. 23), refeição espiritual (p. 23); ressurreição (p. 39); mistério (p. 23, 76); dom (p. 145); altar (p. 54, 189); via-sacra (p. 87); sacramento (p. 122); banquete (p. 152, 189); consagração (p. 101); fé, com, pelo menos, nove ocorrências com o sentido de crença.

Ainda no domínio da temática religiosa, com afinidades bíblicas, saliento os poemas ‘Santa Maria, mãe de Deus’ (p. 77), que apela à fraternidade, ‘As tentações’ (p. 92); ‘A bondade do pastor’ (p. 93), ‘Fé’ (p. 102) e ‘A sorte dos profetas’ (p. 144-145).

 

Intervenção social

José Luís Rodrigues é um cidadão atento aos problemas da sociedade, e, publicamente, intervém com frequência para apelar ou denunciar. Não é, pois, de estranhar que, na sua poesia, estejam presentes questões da Humanidade, em geral, e do nosso país, em particular:  Paz, guerra (p. 99, 123); liberdade, 25 de Abril (p. 32-33); Cravos de abril (p. 53); Abril das águas mil (p. 66-67); igualdade (p. 57-58); fraternidade (p. 59-60); liberdade (p. 61-62); corrupção (p. 89, 94); fome (p. 163).

A visão religiosa associada à intervenção social encontra exemplo maior no poema ‘A minha voz e voz de João Baptista’ (p. 72-73), no qual o poeta apela à coragem e ao fim do medo, que nos tolhe a capacidade de aceitar o desafio da mudança.

Por vezes, a crítica e o empenho na transformação assumem tom panfletário, como em ‘A indignação é pão’ (p. 94-95):

«São estes os culpados

da podridão de gravata

à mesa de gabinetes

engomados

com as nossas cabeças

e alimentados com o pão dos outros.

 

É este drama que arde

a canalhice toda

dos pérfidos sentidos

que o cancro da máquina

engendra privilégios

que consomem o caminho de todos

 

Preocupação ecológica associada à Criação e ao poder divino da natureza

Na linha do Papa Francisco, em especial a Carta Encíclica Laudato si (2015), José Luís Rodrigues revela também neste livro preocupações com a «Casa Comum», em especial nos poemas ‘As ondas apressam-se sobre mim’ (p. 141-142) e ‘Terra-mãe desamparada’ (p. 157).

A crença no «poder divino da natureza» completa-se com renovada esperança, edificada na transformação, como bem diz no poema ‘O sabor da terra’ (p. 85):

«Todos os meus dedos mergulharam

destemidos a profundidade da terra

e o que resultava parecia uma guerra

que as bombas tinham estilhaçado

naquele ribombar destrutivo de loucura.

 

Não. Não era guerra…

Tinha sido a escavadora da esperança

que as mãos traduziram no húmus removido

para que alegre fosse mais uma vez plantada

a energia escondida da vida

que cada semente fértil testemunha

no momento em que é apenas possibilidade.»

 

Rodrigues, José Luís – Pedaços de Esperança. Viseu: Edições Esgotadas, 2020. ISBN 978-989-9015-46-3.