Vereda da Casa do Sardinha: um percurso fácil assombrado por muita imprudência

Com Rui Marote
A Ponta de São Lourenço é um percurso a pé que oferece maravilhas inquestionáveis do ponto de vista da paisagem. Proporciona um excelente exercício e a oportunidade de, após cerca de uma hora de percurso descontraído que permite perspectivar tanto a costa sul da Madeira como a escarpada costa norte, o caminhante refrescar-se dando um mergulho vivificante nas águas cristalinas do Cais do Sardinha, próximo da Casa com o mesmo nome. Ali é um prazer contemplar os múltiplos peixes que habitam aquela zona ainda quase pristina.

Este percurso, de pouca dificuldade, principalmente desde que foram colocados degraus em madeira no início, varandins e toda a espécie de protecções nas zonas mais perigosas, pode ser feito praticamente por qualquer pessoa. Mas, caricatamente, tem-se notabilizado também por más razões: são muito frequentes os turistas que sofrem ali entorses, quedas, fracturas, toda a espécie de pequenos acidentes que obrigam os Bombeiros a deslocarem-se numa embarcação do SANAS ou do ISN desde a marina da Quinta do Lorde até ao cais do Sardinha, a irem buscar os turistas acidentados e a levá-los por via marítima no sentido inverso, desembarcando-os na Quinta do Lorde, onde habitualmente os aguarda uma ambulância.

O FN também efectuou este percurso no fim-de-semana que passou. É, aliás, visitante frequente. Mas desta vez ficou arrepiado com o que viu. Só é de estranhar que não aconteçam males maiores. A par dos turistas responsáveis que usam calçado adequado, é de lamentar que se desloquem por este percurso pessoas calçando havaianas, chinelas e todo o tipo de sapatos inadequados para efectuar caminhadas em zonas com pedras bicudas. Pior ainda, presenciámos visitantes estrangeiros literalmente a arriscarem a vida só para obter uma boa fotografia.

Mais ou menos à hora a que registámos a foto mais ilustrativa destes maus comportamentos, era anunciada no World Travel Awards, pela sétima vez, que a Madeira conquistava o galardão do melhor destino Insular  Europeu. Fomos reconhecidos uma vez mais pelas singularidades das nossas paisagens, um dos pontos que pesa imenso nesta votação.

O percurso Caniçal-Casa do Sardinha oferece de facto uma paisagem extasiante para os nossos visitantes amantes do mar e montanha. O percurso está acessível a todas as idades, e com segurança, podendo o viajante deliciar-se no final com um banho nas águas límpidas e azuladas em que peixes multicoloridos nos acompanham num belo mergulho, como se estivéssemos num oceanário.
Alguns ferros e outros detritos do género a exigirem limpeza…
Mas os nossos visitantes fogem às regras de segurança, ultrapassando barreiras imprudentemente, na busca de uma foto inédita para o álbum de recordações. A cidadã germânica que mostramos nas fotos, exibindo um vestido de baile e umas chinelinhas próprias de uma matiné dançante, aventurou-se sem mais nem menos à beira do abismo, causando-nos um sério calafrio. Desconhecimento? Aventura? Serão os madeirenses responsáveis por este comportamento em caso de acidente? É claro que não! Este percurso não merece qualquer reparo de quem nos visita. Há cuidados que têm de ser observados.

O único ponto negativo foi a lixeira que detectámos no mar da costa norte, e que não resistimos a fotografar, pois conspurcava as águas cristalinas. As fotos são elucidativas e aqui sim, talvez os madeirenses sejam responsáveis, por deitarem ao mar lixos arrastados ao sabor das marés ficando depositados nas enseadas e grutas. Mesmo assim, disso não temos a certeza. A lixeira poderá ser também proveniente de navios. Estudos recentes realizados na Madeira inclusive demonstraram de forma inequívoca o impacto que os plásticos constantemente arrastados pelas marés causam nas falésias daquela zona, afectando a vida natural, e criando incrustações assinaláveis nas paredes rochosas e nos organismos que as habitam.

Todos os cuidados são necessários para prevenir este acumular de lixos. Com a pandemia de Covid-19, e com a crise económica, fomos mesmo assim uma vez mais reconhecidos a nível europeu mas com poluição na nossa paisagem, a próxima votação pode não nos ser tão favorável. Importa perceber que cada madeirense é um vigilante para denunciar estes atentados, porque o turismo, a nossa “galinha dos ovos de ouro” atravessa o pior período da sua História. Por outro lado, há que tentar sensibilizar os turistas para os perigos que uma bela paisagem escarpada, mas não certamente inofensiva, oferece. Entre a vida e a morte por vezes está a distância de um passo.