Escultura em São Martinho gera polémica; Ricardo Veloza ameaça abandonar o projecto

*Com Rui Marote

Uma escultura em honra de São Martinho, o santo venerado pela Igreja Católica que foi soldado romano, está a gerar algum desconforto na freguesia funchalense com o mesmo nome, e não só. Uma comissão particular, já anteriormente responsável pela instalação do busto do padre Caldeira na rotunda da freguesia, instituiu já há mais tempo um “peditório” para a criação da estátua do santo, que seria instalado num jardim perto do edifício da Junta. Até o presidente da Junta, Duarte Caldeira Ferreira, contribuiu, bem como deputados da Assembleia Legislativa da Madeira. O escultor Ricardo Veloza foi contactado, foi firmado um acordo verbal e executou um modelo da escultura, que esteve em exposição na Junta, previamente à fundição, que seria executada no continente, da escultura em bronze.

Entretanto, aparentemente faltou o dinheiro para tal, o escultor nada recebeu e Ricardo Veloza disse ao FN que irá ao local simplesmente buscar o modelo da escultura que executou, pois deparou-se com falta de verba para avançar para a fundição, o que naturalmente lhe terá desagradado. Há anos, disse a este jornal, que a situação se arrasta sem que nada de concreto se veja.

Contactado pelo FN, o presidente da Junta, Duarte Caldeira Ferreira, esclareceu que a Junta nada tem a ver com a iniciativa. O único compromisso era a atribuição de um espaço, caso o projecto avançasse. “Não é um assunto que nos diga respeito”, explicou. “Sei que houve alterações, mas não sei pormenores. O escultor terá de se entender com a comissão, não com a Junta. O molde estaria aqui em exposição, mas apenas isso. Obviamente, reunimos com o escultor Veloza, e com o sr. que está à frente da comissão”, admitiu, “mas sem mais compromissos”. Esta, disse, o autarca, é uma iniciativa privada.

Esboço da estátua feita por Ricardo Veloza

De acordo com o que apurámos com o padre coronel António Simões, um ex-capelão do Exército, e que acompanhou a iniciativa, este projecto da escultura nada tem a ver com a paróquia de São Martinho, tratando-se de uma iniciativa particular. O padre coronel Simões conta-nos que apenas esteve presente em Novembro de 2018, no lançamento simbólico da primeira pedra, em São Martinho.

Conforme o Funchal Notícias soube, o monumento a São Martinho estava orçado inicialmente em 100 mil euros, que deveriam ser pagos em três “tranches” a Ricardo Veloza: primeiro 25 mil, depois 50 mil e finalmente os últimos 25 mil.
A inauguração deveria ter decorrido a 11 de Novembro do ano passado, dia de São Martinho. Até o bispo do Funchal tinha já sido envolvido no projecto, para agendar a inauguração.
A comissão liderada por Mário Fernandes, e que incluía dois outros elementos, chegou a ter cartazes afixados em bares e cafés com o número de conta, para que os populares pudessem fazer doações. Aparentemente a comissão não almejava contribuições de entidades oficiais, somente particulares. O advogado Guilherme Silva, que presidiu à Comissão para as Comemorações dos 600 anos da Descoberta do Porto Santo e da Madeira, esteve presente no lançamento da primeira pedra, há dois anos, que foi depois tapada com terra, enquanto aguardava que a escultura se consubstanciasse.
Entretanto, Mário Fernandes terá prosseguido o seu intuito de angariar dinheiro. Mas a conta bancária original foi encerrada, e uma nova conta aberta, na Caixa Geral de Depósitos no nome dos três originais elementos da comissão. O FN sabe que até deputados da Assembleia Legislativa da Madeira contribuíram para esta escultura. Mas actualmente ninguém sabe quanto existe na conta. O padre Simões terá tentado averiguar quanto havia, mas não conseguiu. Denuncia ainda que Mário Fernandes nunca revelou as contas e não compareceu a reuniões subsequentes marcadas com ele próprio e com Ricardo Veloza. E entende que as contas devem ser reveladas publicamente, para que todos os que contribuíram saibam o que está a ser feito com o seu dinheiro.
Um escultor natural de Machico, Emanuel Santos, o mesmo que executou um polémico busto de Cristiano Ronaldo que esteve patente no aeroporto da Madeira antes de ser retirado e substituído por outro, terá sido convidado para fazer uma nova escultura, mais pequena.
O FN contactou Mário Fernandes, para que nos desse a sua versão da situação. Este adiantou-nos que a comissão original era uma “comissão instaladora”, que entretanto, em Outubro de 2019, foi transformada numa associação legalmente instituída, intitulada “Associação Solidária de São Martinho”, e onde todas as coisas estão a ser tratadas, assegura, com lisura. Nega que existisse qualquer contrato assinado com Ricardo Veloza. Explica apenas que a associação entendeu ter a liberdade de consultar outros escultores, para auscultar propostas diferentes. Mas garante que, para ele, continua a ser Ricardo Veloza a escolha número um para executar a estátua, e que ninguém entretanto contratou outro escultor. Quanto ao dinheiro angariado, “transitou o que tínhamos no banco para a associação. Está tudo correcto”, assegura. Porém, questionado sobre quanto dinheiro existe hoje no banco para executar a escultura, disse desconhecer. Acrescenta que o padre coronel Simões “foi para o banco meter-se numa coisa em que não deveria meter-se, como é óbvio, porque aquilo não era nada com ele, pois não fazia parte da comissão. Andou a fazer complicações lá para cima para São Martinho”, acusa.
Mário Fernandes insiste na sua lisura de carácter e assegura que “não tem nada para roubar a ninguém. Podem estar todos descansados, porque somos pessoas honestas”. E continua a insistir no apreço que tem pela obra de Ricardo Veloza. Este último, por seu turno, admite que se surgir o dinheiro para fazer a escultura, poderá reconsiderar. Mas mostra-se incrédulo que tal aconteça.