Forte do Porto Novo ao abandono

Na falésia sobranceira à margem direita da Ribeira do Porto Novo, mal se distingue o antigo forte. Votado ao abandono, ainda lá se encontra a vigiar o mar e o vale. A vista, que dali se desfruta sobre o Atlântico, é magnífica. Já o que se observa no vale é desolador, diria mesmo horroroso em termos paisagísticos.

Sobre o estado desta antiga edificação militar, já o Funchal Notícias publicou em 14 de Junho de 2015 um artigo de Emanuel Silva. Como é habitual nestes casos de denúncia pública, fingiram que não leram, continuaram a não se importar e nada fizeram. Hoje escrevo sobre o forte, exactamente, pelos mesmos motivos de há cinco anos: o seu abandono e a falta de sensibilidade para, no mínimo, limpar, requalificar e enquadrar este imóvel nos miradouros de Santa Cruz.

FORTE DO PORTO NOVO. FOTOS: NELSON VERÍSSIMO, OUTUBRO 2020.

Na verdade, todas as edificações militares alienadas em favor da Região Autónoma têm sido pouco valorizadas como Património Cultural. O Fortim da Ribeira Brava, transformado em posto de informação turística, apresenta um aspecto pindérico e desmotivador. A Fortaleza de São Tiago é, praticamente, um restaurante, depois da saída do Museu de Arte Contemporânea e apesar do previsto Museu de Arqueologia da Madeira. Entregue à restauração está também o Forte de Nossa Senhora da Conceição ou do Ilhéu, completamente adulterado. Até um famoso guindaste que ali existia, tantas vezes desenhado ou fotografado, foi furtado, ou, como agora se diz, transportado para outro lugar (desconhecido, esclareça-se!). A Fortaleza do Pico ou de São João, depois de transferida para a Região Autónoma da Madeira, esteve cerca de três anos abandonada e à mercê de actos de vandalismo. Depois de requalificada e recuperada, abriu ao público em Junho de 2018. É, essencialmente, uma cafetaria com vista privilegiada sobre o Funchal.

Não conheço o projecto, noticiado recentemente, para o Forte de São José, à entrada do molhe, o Principado da Pontinha de Renato Barros, que agitou as águas do período final do jardinismo. Mas nada do que veio a público sobre o planeado restaurante com esplanada, dos investidores luso-venezuelanos, augura intervenção adequada, em termos de salvaguarda do Património Histórico.

Perante tão elucidativas evidências, não foi com surpresa que, numa tarde deste mês, visitei e fotografei o arruinado Forte do Porto Novo, quase vinte anos depois de lá ter estado.

Trata-se de mais um exemplo do desinteresse, da incúria e da falta de visão dos nossos governantes. Um sítio com história localizado num caminho bastante inclinado e com o piso maltratado, sem saída para o trânsito automóvel, com passagem pedonal, estreita e com degraus, para a antiga estrada, que serve uma urbanização relativamente recente. Um forte oitocentista desprezado, que acumula lixo e vegetação infestante, de onde se avista a soberba imensidão do mar.

O Forte do Porto Novo foi construído no início do século XIX e veio complementar a defesa deste lugar, onde se podia entrar, sem dificuldades, pelo litoral e chegar facilmente ao Funchal, então em pouco mais de duas horas de jornada pela estrada. Nessa época, como de resto já no século XVI, o Porto Novo era considerado lugar estratégico para a segurança dos madeirenses, em especial, da cidade. Junto ao calhau existia o reduto de São Marcos, construído no século XVIII.

O governador e capitão-general da Madeira tratou de guarnecer o Forte do Porto Novo, para oferecer resistência às forças absolutistas que, em 1828, se deslocaram para a ilha, a fim de subjugar os liberais, empenhados na oposição ao rei D. Miguel, usurpador da Coroa de Portugal. Apesar, de início, as forças do Porto Novo terem obstado uma tentativa de desembarque ali, a resistência à expedição miguelista fracassará alguns dias depois.

Após o desembarque em Machico, quando, por terra e mar, se movimentavam os militares miguelistas com destino ao Funchal, as defesas do Porto Novo foram atacadas, tendo muitos soldados debandado. A explosão do paiol, por um tiro de canhão da esquadra miguelista, e a impreparação militar contribuíram para o insucesso dos liberais na denominada Batalha das Voltas do Porto Novo.

A explosão danificou o forte, tendo vindo a ser reconstruído no início dos anos 30 do século XIX. Até hoje vai resistindo, sem que autoridade alguma se interesse na sua reabilitação ou, pelo menos, na limpeza daquele sítio com História.