O Amoroso de José Viale Moutinho

 

“o amor compreende
os fumos

os rumores dos lençóis
a boca

devoradora
esses cigarros

escondidos”

José Viale Moutinho, in O Amoroso  (2020: 37)

Publicado pela primeira vez em 1997, pela editora Campo das Letras, com uma nota do escritor Mário Cláudio e sete desenhos de José Rodrigues, reimpresso, em 2005, com um prefácio do escritor e ensaísta José Augusto Seabra, pela editora Ausência, o livro O Amoroso foi recentemente reeditado com a chancela da Editora Urutau. Esta terceira reedição, revista e aumentada, conta com noventa poemas, apresentando, ainda, nove desenhos licenciosos do pintor húngaro Mihály Zichy, utilizados no livro Poesie do poeta veneziano Giorgio Baffo, cuja edição conta com um prefácio do escritor Guillaume Apollinaire.

O intertexto que perpassa na edição da Urutau faz adivinhar uma proposta editorial ousada. Por um lado, o poeta italiano comunga na sua poesia com um certo teor libertino; por outro lado, o escritor francês introduziu na cena francesa os textos do Marquês de Sade, tendo ele próprio publicado cartas eróticas dirigidas a Lou, uma das mulheres que amou; por fim, Zichy ficou conhecido pelas inúmeras obras de um erotismo explícito.

Na capa da nova edição do livro de José Viale Moutinho, o deus do Amor conjuga erotismo, voluptuosidade e tentação. Eros, sob o ângulo da virilidade e da imponência, encontra-se acompanhado por um diabo jubiloso e uma figura angelical de traços maliciosos. Trata-se, então, de uma tríade que confere ao livro um ar libidinoso, um jeito humorístico e um traço apelativo. Em O Amoroso de José Viale Moutinho, a voz poética viverá a plenitude dos sentidos, sem a carga de pecado da cultura judaico-cristã, expondo-se nas declinações corpo-a-corpo com a mulher amada.

Como referiu José Augusto Seabra, os poemas simples, de breves versos e de longas pausas, não são “meros exercícios formais, mas verdadeiros exercícios sensuais a e até espirituais, nos sentidos quer erótico até místico do termo.” (2005: 9). O eixo afetivo da escrita de José Viale Moutinho que perpassa neste volume assenta na busca do prazer e na fruição do amor carnal. Através do cruzamento entre linguagem poética e linguagem erótica, a tensão que impulsiona a contínua demanda do prazer pelos dois amantes virá, efetivamente, revelar poemas muito sugestivos.

Num ano em que se comemora a intensa vida literária de José Viale Moutinho, a reedição deste livro permitirá (re)descobrir uma vertente menos conhecida da sua produção poética. As imagens, metáforas e elipses fazem com que as palavras possam exceder os seus ‘limites’ semânticos dizendo mais daquilo que está escrito. Os breves poemas que compõem O Amoroso ditam o poder de Eros e a corporização do desejo sem tabus. Vale a pena (re)descobrir esta renovada gramática de uma intimidade erotizada.


 

Leonor Martins Coelho

Docente da Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade da Madeira

Investigadora do Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa (Cluster “Viagem e Utopia – Grupo LOCUS)