Bater em alguém

Tinha-me prometido que não voltava a falar do mundo Covid. O que se promete cumpre-se, o mantra cá em casa. Felizmente as minhas filhas não leem os meus textos. Nem os meus pensamentos.

Tenho ouvido os entretantos. No confinamento cada um lidou com a sua realidade e as dos que lhes eram próximos. Agora vamos ouvindo a dos outros. Sabes o que aconteceu?

Dei por mim a pensar nas histórias que ficaram por contar.

Ouvi uma desconhecida que, na reta final da primeira gravidez, perdeu noites a fio a pensar que nada seria como tinha imaginado. Como tinha direito.

Dei por mim a pensar em todas as grávidas que recearam o que deveria ser um momento especial. Nos pais que não puderam ver os seus filhos nascer. Nos avós que não puderam pegar ao colo o fruto do seu fruto. A quantas pessoas foi roubada uma vivência única?

Ouvi uma amiga que ficou uma semana com o filho que teve de ser internado. Sempre lá, sem poder sair, sem ninguém poder visitar, levar qualquer coisa. Ouvi como isso a marcou.

Ouvi uma prima contar que tinha finalmente ido visitar o pai ao Lar. As saudades que tinha do seu toque.

Dei por mim a pensar em quantos se sentiram sós. Nos hospitais. Nos Lares. Em casa.

Apesar das tecnologias e do trabalho inexcedível dos profissionais de saúde e dos Lares, nada substitui o olhar nos olhos. O abraço. O limpar das lágrimas. Quantos pensaram que não morreriam da doença, mas morreriam da solidão? A quantas pessoas foi roubada a carícia de quem o ama?

Ouvi a minha tia que, quando saiu de casa para trabalhar, nunca imaginou que nunca mais veria o marido. O marido de quarenta e nove anos. Que os meus primos nunca mais ouviriam o pai a chamá-los. Que só saberiam dele por telefonemas dos vários hospitais por que passou em Lisboa, mas que nunca mais lhe poderiam falar, tocar, despedir-se. Chorei de dor. De raiva pela injustiça. De frustração.

Dei por mim a pensar em quantos morreram sós. Sós. A quantas pessoas foi roubada uma mão de conforto no seu último momento?

Ouvi um amigo lamentar como tinha sido triste o funeral do tio. Só com vinte pessoas. Sem abraços.

Tenho uma relação estranha com os funerais. Odeio-os, mas penso muito no meu. Chego mesmo ao absurdo de pensar se esta ou aquela pessoa iria ao meu funeral. Estranho, eu sei. Mas acho que não terá tanto de mórbido como de teatral. O último palco.

Os funerais são uma dolorosa e essencial peça no puzzle do luto. A despedida. A comunhão da dor. O apoio dos que amavam quem foi e amam os que ficam. Mas parece-me que não devo ser só eu a achar que há um triste consolo em ver tantas pessoas que foram marcadas por aquela pessoa que nos deixa.

Esta semana morreu o Sr. Vicente.

O Sr. Vicente era o diretor do Externato Júlio Dinis. Um homem que marcou gerações de famílias que passaram por aquela escola e que dedicou a sua vida à educação. Não tive tempo de o conhecer bem, porque a minha filha mais velha só entrou lá este ano letivo. Mas sei que há muitas famílias que têm com aquela escola a relação que a minha tinha com o extinto Colégio do Caroço e eu com a Apresentação de Maria. Que têm da Júlio Dinis a mais doce das recordações de infância e guardam na memória o Sr. Vicente como timoneiro duma instituição valorosa que formou tantos homens e mulheres.

Para se despedir dele? Vinte pessoas.

A quantas pessoas foi roubada uma despedida condigna?

A quantas pessoas foi-lhes roubada tanta coisa com esta coisa maldita?

A próxima vez que ouvir ou ler como esta pandemia trouxe coisas boas à humanidade, que estávamos a precisar disto ou outras tais barbaridades New Age que tenho visto a proliferar por aí, eu bato em alguém.

Prometo que bato. E o que se promete, cumpre-se.