Bispo do Funchal critica obsessão com o lucro económico em homilia proferida na missa do Dia da Região

O bispo do Funchal, D. Nuno Brás, abordou hoje a obsessão com o lucro económico na sua homilia, proferida na missa solene do Dia da Região. Foi no dia 2 de Julho de 1419, no desembarque dos primeiros portugueses em Machico, que dois padres franciscanos celebraram a primeira missa na Madeira, em acção de graças pela descoberta. 600 anos depois, e para o actual relado, há determinadas escolhas que se afiguram como “fundamentais” porque “dão o sentido a todo o nosso existir”, e para ele, os valores e critérios passam por uma “relação com Deus”, que marca a vida dos madeirenses ainda hoje, numa vivência que, “como de há 600 anos a esta parte”, é “marcada profundamente pela fé”. “Como Bispo do Funchal, sinto eu o dever, da parte de Deus, de ajudar a quantos aqui estão (eu próprio em primeiro lugar) a confrontar a nossa vida com a Palavra que nos foi proclamada, deixando que ela nos ilumine”, disse, citando uma passagem do capítulo 8 do Evangelho de São Mateus (versículos 28 a 34), e que termina de um modo dramático: “Toda a cidade saiu ao encontro de Jesus. Quando o viram, pediram-lhe que se fosse embora”. “A cidade — toda a cidade, quer dizer: população e seus governantes — pediram a Jesus para sair dali. No seu entender, Jesus já tinha causado demasiados estragos à economia local: curou dois endemoninhados mandando os demónios de que tinha liberto aqueles homens para uma vara de porcos — e estes precipitaram-se e afogaram-se no lago”, citou. “São, verdadeiramente, critérios diferentes: os de Jesus e os de toda aquela gente. Não se trata apenas de um homem pecador e mau que se confronta com Deus e que O afasta da sua vida. Nesta narração, é toda uma cidade que assume um outro critério de vida; que expulsa Jesus Cristo do seu meio. É a atitude comum de toda uma região. O que está em jogo? Está em jogo, antes de mais, o lucro económico. Toda uma vara de porcos que se perdeu. O trabalho de muitos dias. Se não o trabalho de todos, pelo menos o trabalho de alguns. Mas se Jesus começou assim a sua visita a Gádara (hoje a cidade de Umm Qays, na Jordânia) que prejuízos poderia ainda causar nos dias seguintes? Quantos estragos para a economia iria Ele provocar?”, questionou. Depois, refere D. Nuno Brás na sua homilia, “estão em jogo as vidas de dois homens que sofriam, chegando a colocar em causa a vida dos demais: “Eram tão furiosos que ninguém se atrevia a passar por aquele caminho”, diz-nos o evangelista. Hoje, diríamos: “delinquentes verdadeiros e irrecuperáveis”. Finalmente, está em questão o lugar de Deus numa sociedade. Está em questão a escolha entre viver com os demónios (viver por entre o que afasta de Deus e é princípio e actuação do mal) ou viver com Deus, tendo Deus por entre o respirar, o existir da cidade. A nós, parece, desde logo, que aquela gente deixou de ter critérios justos: se Jesus viesse ao nosso encontro, visitar a nossa terra, haveríamos de pedir que se afastasse, haveríamos de o expulsar? Mas, de facto, tal atitude não nos devemos admirar. Essa falta de critérios não é apenas do passado; é também uma realidade dos tempos contemporâneos. E pode ser uma realidade nossa. Aquela gente preferia viver no meio dos demónios a viver com Deus. É o que sucede quando nos habituamos ao mal. Quando isso acontece,  quando nos habituamos ao mal, este passa a ser algo com que se convive pacificamente. Então, deixa de haver lugar para Jesus. Deixa, sequer, de haver lugar para lhe oferecer uma possibilidade de falar, de encontrar, de curar. Na primeira oportunidade, expulsamos Jesus da região. Não faz falta. Pelo contrário: incomoda. Estraga o nosso modo habitual de viver. Denuncia as auto-justificações que fazemos do nosso pecado. Até pode fazer mal à economia! E, a um dado momento, Deus deixa mesmo de ser necessário. Deixamos de sentir a sua falta, a falta da luz da sua Palavra, do alimento quotidiano que Ele nos oferece. Vivemos com o mal, mas isso parece ser preferível a ter que viver com Deus que nos denuncia a corrupção em que caímos!”, sublinhou o prelado. Lamentando o caso das pessoas “que se desabituaram completamente de Deus”, para quem Deus se tornou “um incómodo”, questionou “como será a vida de toda uma sociedade que se habituou a viver desse modo: uma sociedade que expulsou Deus do seu meio porque se habituou ao mal e assim escolheu viver?” “Mas o verdadeiro drama de uma sociedade que afastou Deus do seu meio, que se habituou ao mal, é que, nesse mesmo momento, deixou também de haver um verdadeiro lugar para o homem! Uma sociedade que afastou Deus — como no caso dos habitantes de Gádara — prefere os porcos e o lucro que deles se retira à vida e à integração dos homens curados. Como afirmam vários pensadores contemporâneos, na vida de uma pessoa ou de uma sociedade, o lugar de Deus nunca fica vazio. Quando Deus é afastado ou esquecido, nesse preciso momento um qualquer demónio ocupará o lugar divino”, postulou. O bispo lamentou que “o aborto, a eutanásia, o divórcio, a pobreza, a vida dos sem-abrigo” se tenham tornado algo de habitual e comum que já não nos incomoda, enquanto que os critérios e mandamentos divinos se transformam num incómodo” e considerou que isso é “habituar-nos perigosamente ao mal”. “(…) quando participamos na liturgia, não estaremos, porventura, a cumprir apenas o calendário religioso, mas esperando (de forma mais ou menos secreta) que o nosso saber e as nossas capacidades técnicas e científicas resolvam todas as questões humanas que se nos colocam?”, questionou. Advertindo os cristãos para o ritualismo, ou seja, o culto meramente formal, sem sinceridade, incentivou ao “respeito da justiça e do direito como realidades devidas a todos e a cada cidadãos”. “Hoje, damos graças a Deus por aquilo que somos como Região e por quanto Ele nos ajudou e ajuda, a nós madeirenses, a ser e a viver. Queremos que Jesus Cristo seja sempre bem vindo à nossa Ilha, que não se poderia entender sem a Sua presença — no passado, no presente e queremos, também, no futuro. Porque apenas com a presença de Deus numa sociedade e na vida de cada um dos seus cidadãos podemos começar a garantir o lugar e o respeito da dignidade de cada vida humana”, declarou, incentivando ao “culto autêntico e verdadeiro”, e à prática do bem e não do mal.