Três cavaleiros e um antigo forcado acorrentaram-se à porta do Campo Pequeno em protesto contra as restrições que impedem o regresso da tauromaquia neste novo cenário de desconfinamento.
Em vez disso, levaram na arena com um espetáculo do Bruno Nogueira com a Manuela Azevedo que, pelo pouco que vi, também é um sofrimento. Mas de outro tipo.
A ProToiro, que, ao contrário do que o nome poderia sugerir, é a Federação Portuguesa de Tauromaquia, pretendia o regresso das lides a um de Junho, nas mesmas condições dos restantes espetáculos.
Ainda tentaram oferecer um barrete de forcado à ministra da Cultura na última manifestação para sensibilizar quem os tutela, mas a Graça Fonseca é mais de dar barretes do que enfiá-los.
E assim (não) vão as touradas. E dei por mim a pensar nelas.
Por mais que goste de fatos justos e lantejoulas, no Carnaval pelo menos, não consigo ver ali beleza alguma. Muito menos arte. Porque a arte não deveria assentar ou ter como pressuposto o sofrimento de um animal.
Não vejo elegância nem mestria. Não vejo harmonia nem dança. Só crueldade.
Tourada é cultura e tradição. É festa, dizem eles. Também assistir a execuções públicas era.
O touro, nos quatro anos antes da lide, tem qualidade de vida, dizem eles. Triste argumento este, sabendo qual será o seu fim.
O touro é um animal agressivo e a lide está na sua natureza, dizem eles. Se pegassem num gato dócil e o sujeitassem aos treinos dos touros, ele viraria leão. Quem fugiria então?
É um ritual nobre e o animal e o homem estão em igualdade de circunstâncias, dizem eles. Não estão. Quando muito estariam se o cavaleiro não estivesse a cavalo e deixassem a porta da arena aberta. Se o touro pudesse olhar para o toureiro e para os forcados, pensar que tinha mais que fazer com a sua vidinha do que aturar mascarados, dar meia volta e ir tomar uma bejeca ao Galeto, aí sim, o argumento até poderia pegar.
Quem não gosta, não vê e deixa quem gosta ver, dizem eles. Este argumento já me abana um bocadinho. Ou não fosse eu pelas liberdades.
Verdade também é que quando me deleito com um maravilhoso bife não me ponho a pensar como viveu aquela vaca, nem no sofrimento que ela teve. E teve, com certeza. Será só hipocrisia?
Queres ver que afinal tenho de ser ProToiro, em que pró significa anti?
Se fosse verdadeiramente contra o sofrimento do animal teria de ser vegetariana ou vegan, ou qualquer outra modalidade mais na moda, por uma questão de coerência. Seria coerente, mas infeliz.
Apesar de não querer que nenhum animal sofra, não sou aquela defensora acérrima que faz disso bandeira. Então porque abomino as touradas?
Não tanto nem só pelo touro, pensando bem. É pelas pessoas. O que me incomoda verdadeiramente é saber que há quem retire prazer do sofrimento infligido. Quem se regozije com as bandarilhas espetadas, com o sangue e com o desespero.
Isso é que me abala. O que isso diz de nós enquanto sociedade. Porque afinal não estamos ainda onde deveríamos estar.
Ainda não chegámos lá.
E enquanto não lá chegarmos, não é defensável que as touradas sejam discriminadas. Por mais que me apeteça gritar que deveriam acabar com elas de vez. Mais uma incoerência neste desconfinamento atabalhoado.
Têm necessariamente de lhes ser aplicadas as mesmas regras dos restantes espetáculos, cara Ministra. Com ou sem barrete.
Porque é um espetáculo. Um triste espetáculo.
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