« … O pão de amanhã »

As  horas  grandes  do  dia  quando eu  ainda  não  sabia  do  tempo. Mas  sabia  que  haveria  uma  hora  em  que  todos,  à  volta  dum  espaço  de  aconchego,  estaríamos  celebrando  um  prazer, degustando  um  sabor, acalentando  a  certeza  do  corpo.  Sentia-se  o  alerta  da  fome, como um aviso de ataque.  Matar a fome  era  um rito ancestral  e necessário. O  crime  legítimo e  perfeito  em  defesa  do  corpo.  Sorver o  alimento,  satisfazer  o  impulso  faminto,  a  líbido  desperta,  é  energia  que  instiga  o  instinto  da  vida, gesto  tenso  e  imediato  que  se  traz ao  nascer. Foi  assim  desde  sempre.

À medida em  que  o  corpo  cresce  e  a  História  avança, os  ritos  sucessivos  enriquecem-se, mas  o  gesto é o mesmo  na  procura  do  fruto, do mel,  do  pão. Lembro-me  das  iguarias  habituais  das  mesas  compostas,  as  confecções  do  peixe  e  da  carne,  dos  salgados  aos  açúcares,  dos  condimentos  perfumados;  o  cheiro  das  hortaliças,  o  acre  do  vinho  fermentado,  a  maciez  do  azeite; o  milho  cozido com  favas  e  o  guisado,  a  açorda  e  o  caldo  de  feijão.

Mas  a  minha  memória,  fiel  aos  amores  mais  puros, retém  a  única  iguaria  que  marcava  a  infância  de  uma  hora  especial,  que  me  despertava  sensações  inexplicáveis  e  que  hoje  convergem  ainda  na  atracção  pelas  paisagens  e  o  rumor  do  mundo,  pela  poesia  dos  lugares  e  do  tempo :  A  hora  em  que  o  padeiro , a  meia  tarde,  distribuía  o  pão  pelas  casas. Vinha  o  pão  cheirando  a  quente  e  à  flor  da  farinha.  Que  aroma  tinha  a  flor  da  farinha?  Difícil  de  saber !  Mas  tinha  o  cheiro  da  flor  e  do  forno,  do  crepitar  do  lume,    da  lenha  imolada  e do  calor  da  pedra. E o padeiro  era  o  amigo  que me  sorria,  o  sorriso  cúmplice  de  quem  sabia  qual  era  o  destino  do pão  mais  pequeno  que  transportava  no  cesto.

O  pão *“brindeiro”  era  uma  encomenda  particular  da  minha  mãe,  a  graça  dum  presente  miniatura,  que  ela  abria  à  mão,  escalando  o miolo  delicadamente, e  recheava  com  um  farto  fio  de  azeite.  O  pão  embebido  juntava  ao  azeite  outros  cheiros  e  sabores  e  eu  corria  ao  balcão  segurando  ansiosamente  a  iguaria. Ficava  ali  a  olhar  a  fonte  e  as  curvas  da  rua.  O  balcão  era  um  aliciante  espaço  cénico: O  meu  barco,  o  meu  palco,  o  meu  veículo  de  transporte para  todas  as  viagens e as histórias  que  inventava  com  os  protagonistas  reais  que passavam  no  caminho.  Dali  eu  sorvia  o  mundo e saboreava  a  incontável  delícia, lentamente,  lentamente, a  poupar  o  prazer  em  pequenas  dentadas  para  que  durasse. Saboreava  com  o  pão,  a  alegria  de  olhar,  o  sortilégio  da  imaginação  e a perspectiva  da  felicidade.  Antecipava  assim  uma  experiência  de  todos  os  prazeres.  Saboreava,  com  certeza,  o  gosto  do  amor  e  da   vida.

Hoje, neste tempo de imolação dos prazeres, porque um inimigo nos trava a liberdade, vêm de novo à tona velhos sabores, ao vasculhar memórias desbotadas, que apesar de tudo ainda  acicatam  a nossa vontade de sobreviver aos medos e agarrar a coragem. Uma ternura antiga envolve os artefactos caseiros que coroavam a infância e voltamos ao gosto de usar as mãos para lidar de novo com a massa da farinha, ao gesto de sovar, modelar multiplicar e repartir, esse pão que consagra a igualdade e a união entre os que partilham a terra. De todas as formas e tamanhos que diferenciam os lugares do mundo no modo de o fazer, o pão é sempre essa mistura simples  da flor da farinha com água fermentada, « onda da vida…conjugação perfeita do germe e do fogo,/ espesso e leve / reclinado e redondo/ fácil e profundo/ ó pão de cada boca de cada homem/ de cada dia… A terra, a beleza, o amor/ tudo isso tem sabor de pão/ forma de pão». Este é  o canto de Pablo Neruda na sua exortação à partilha da terra .« …Iremos coroados/ de espigas, conquistando/ terra e pão / para todos.  A grande ilação que o estado do mundo actual nos permite retirar da Ode de Neruda é a que espontaneamente se reverte na onda de solidariedade daqueles que , neste momento conturbado, uns aos outros se cuidam, respeitam, auxiliam e protegem. Finalmente livres da ameaça brutal do presente, oxalá possamos continuar a repetir, para o futuro, com a convicção honesta dos comprometidos, as palavras redentoras de Neruda : «…E assim será o pão de amanhã. »

 *Brindeiro”- pequeno pão com que as madrinhas “brindavam” os afilhados pela Páscoa.

 

 

 


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