A “máscara” de Ferro

Quando o Dr. Ferro Rodrigues ficou até surpreendido com a “inesperada” pergunta sobre se iria usar máscara de proteção na cerimónia comemorativa, já muito discutível, do 25 de abril, na Assembleia da República, onde é presidente, nem dava para acreditar na reação. A segunda figura do Estado ainda se interrogou: “Porquê?”

E o resto da conversa foi hilariante: “Nunca usei máscara nos plenários, não é agora que vou usar”. Mais: ainda teve tempo para uma brincadeirinha num tempo que pode ser de tudo menos de brincadeira. Fez uma alusão, mal “arrumada” em termos de raciocínio, sobre os que usaram máscaras disfarçados de “abrilistas”. Nada a ver, nada com nada e tudo explicado quando se fala assim.

Em primeiro lugar, nem se discute já o anacronismo à volta desta sessão comemorativa, que é nobre num contexto de normalidade, deve ser sempre assinalada (embora sem o mofo que o figurino gasto vem trazendo) mas que deveria ser equacionada neste momento de pandemia e de recorrentes avisos para que os portugueses fiquem em casa. E não é por haver dúvidas sobre estarem reunidas as condições de prevenção no Parlamento, que acreditamos preparado com as recomendações da DGS. É mesmo só por uma questão de exemplo para o País, por uma questão de coerência e por uma questão que tem a ver com opções políticas articuladas para que os discursos possam estar compaginados com a prática. Sem fundamentalismos, mas com sentido de responsabilidade. Para que todos percebam que, em política, não vale tudo.

Tal como o Dr. Ferro Rodrigues, também nunca usei máscara em casa e não é por receber quatro familiares, no Domingo de Pascoa, que vou fazê-lo, desde que adotando todas as precauções. Mas os governos aconselharam-me a não receber. Nem a sair do concelho de residência. Por isso, não fiz, Nem recebi nem saí.

Tal como o Dr. Ferro Rodrigues, também o Sr. Bispo do Funchal nunca usou máscara na Igreja e poderia presidir às celebrações da Páscoa com as igrejas devidamente preparadas com metade dos fiéis cumprindo as devidas distâncias. Mas isso não aconteceu por recomendação do Governo suportado pelo partido do Dr. Ferro Rodrigues.

Tal como o Dr. Ferro Rodrigues, muitos outros setores queriam estar a funcionar, mesmo pela metade, e não podem. E percebe-se o porquê de não poderem. Não se percebe é os que não podem e fazem. O que não se percebe é que, mesmo sendo muito duvidosa a sessão plenária do 25 de abril, no atual enquadramento, seja o próprio presidente da Assembleia a questionar o uso de uma proteção que é cada vez mais recomendada.

Nem se discute já a cerimónia em si, mas o exemplo sobre a prevenção. Penso que na Madeira, também por ser politicamente correto comemorar abril mesmo em ambiente de pandemia, essa questão deverá estar salvaguardada pelo uso da máscara a avaliar por imagens das poucas comissões reunidas de forma presencial. Se há recomendação generalizada para a população e obrigatória para funcionários de serviços em contacto com o público, uma incongruência que a legalidade parece obrigar, também é natural que os exemplos venham de cima.

É sempre bom que não caia a máscara. Nem do que se pensa de abril de 74, nem do que se diz e faz em abril de 2020.

Máxima liberdade, máxima responsabilidade.

 

 


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