”A intervenção psicológica não é um luxo e isto não é um fim de semana prolongado”, alerta o presidente da Ordem na Região

Estamos entre a ansiedade com questões de saúde e o que vai acontecer no futuro”.

Num contexto de pandemia, como aquele em que vivemos, no isolamento forçado pela Covid-19, um modo novo de vida faz-nos confrontar com situações novas, comportamentos enquadrados por outras rotinas, com a consequente necessidade de uma adaptação a que nem todos correspondem da mesma forma. A psicologia entra, por isso, nesta equação, de forma muito mais presente, sem estigmas que porventura ainda poderiam existir em determinados contextos. O psicólogo ganha, cada vez mais, uma relevância acrescida. Este “mundo novo” exige abordagens diferentes, a que não estávamos habituados. Nem estávamos preparados para isto.

A intervenção psicológica não é uma espécie de luxo ou algo complementar, mas algo central e essencial para promover competências, autoconhecimento, para as pessoas serem capazes de lidar com os desafios do seu desenvolvimento e, em certas vertentes, ultrapassarem ou lidarem com alterações e perturbações psicológicas”. A afirmação é de Renato Gomes Carvalho, o presidente da delegação regional da Madeira da Ordem dos Psicólogos Portugueses, em entrevista ao FN.

 

Há fatores de risco para a nossa saúde psicológica

 

E neste cenário único, inimaginável até há bem pouco tempo, não deixa dúvidas quanto à situação vivida no atual enquadramento, diz que “a situação que estamos a viver é naturalmente uma situação de exceção, com características que se poderão constituir como fatores de risco para a nossa saúde psicológica, nomeadamente a perturbação na interação social e a incerteza e ausência de perceção de controlo individual”.

Doutorado em Psicologia pela Universidade de Lisboa, psicólogo Especialista da Ordem dos Psicólogos, em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicologia da Educação e Psicologia Vocacional e do Desenvolvimento de Carreira, sublinha que “a situação atual de confinamento, de incerteza e de estarmos numa espécie de vazio ou da vida suspensa, limita-nos na satisfação das nossas necessidades psicológicas básicas, por exemplo de autonomia e de interação social. Mesmo no caso de agregados em que habitam várias pessoas, esse confinamento durante um período prolongado poderá ser um fator de risco, por exemplo para maior irritabilidade e potencial surgimento ou agravamento de conflitos relacionais e intrafamiliares. Para quem tem crianças mais pequenas, é também uma tarefa muito exigente gerir o comportamento e a circunstância de estar confinado”.

Tensão, preocupação, ansiedade, depressão

Para o líder da Ordem na Região “a perturbação da nossa interação social e o baixo controlo acabam por ser, no fundo, as condições que favorecem o surgimento de sentimentos de tensão, preocupação e ansiedade, e de solidão e até depressão. Naturalmente que a relação não é simples ou linear, porque é mediada por outros aspetos pessoais e sociais, mas são condições que claramente contribuem para alterações no funcionamento. E, para mais, é preciso recordar que, neste momento, já não estamos somente a falar em ansiedade com questões de saúde, mas também em relação ao que vai acontecer no futuro, por exemplo, em relação ao emprego e a vários aspetos da vida em geral”.

A forma de abordagem de uma realidade nova coloca desafios e Renato Gomes Carvalho começa por referir que “se as condições ideais para a ansiedade são precisamente circunstâncias exigentes associadas a baixa perceção de ser capaz ou de ter recursos para lidar com as mesmas, é essencial termos estratégias que nos permitam lidar melhor com a situação presente e antecipar mecanismos de resposta para o que aí virá, após o controlo da pandemia”.

Fazemos parte deste esforço coletivo

Aponta caminhos, substituir o negativo pelo positivo, uma tarefa não muito fácil atendendo às circunstâncias. Mesmo assim, o melhor caminho parece ser esse: “Em relação à forma como lidamos com o presente, trata-se de contrariar ou minorar os efeitos desta situação. Por exemplo, é desde logo importante reconhecer que esses sentimentos são naturais e também dar um sentido maior à experiência, mudando até da narrativa do medo para a narrativa mais construtiva de otimismo e de que cada um de nós pertence ao todo e está a dar o seu contributo para a contenção da epidemia e para a integridade da nossa comunidade. Uma ideia que até deve ser passada aos mais novos. Ou seja, que fazemos parte deste esforço coletivo e que, de resto, no nosso País e na nossa Região, mostra estar a resultar. E como não haverá vacina tão cedo e as terapêuticas ainda não estão disponíveis, a nossa arma ou forma que temos de lidar com esta realidade é mesmo o nosso comportamento”.

Isto não é uma espécie de fim de semana prolongado

E há ainda a considerar: “É importante procurarmos manter uma rotina dentro do que for possível, gerir bem a quantidade de informação sobre o coronavírus que consumimos, sobretudo se forem dados avulsos e especulativos, seguirmos as recomendações das autoridades e envolvermo-nos em atividades que sejam prazerosas – e aí cada um de nós poderá identificá-las… Já percebemos que isto não é uma espécie de fim de semana prolongado em que não fazemos nada enquanto o tempo passa, mas algo mais duradouro e que requer de nós uma reorganização. Até porque a “normalidade” não chegará de um dia para outro ou na data X, mas ocorrerá paulatinamente.”

Mas se o problema já está instalado, do ponto de vista da reação a um momento em que a pandemia está em curso, com todos os contornos daí resultantes e com informação em série, nas mais distintas plataformas, começar a olhar o futuro poder ser, também, um exercício dificil e doloroso. O mais certo é trazer consequências, a questão é saber a dimensão.

Efeitos psicológicos e económicos muito significativos

A este propósito, Renato Gomes Carvalho dá a sua visão deste olhar em frente, ver para além da Covid-19: “Para o futuro, há dois aspetos que considero essenciais termos em conta. Em primeiro lugar, os efeitos da situação atual na saúde psicológica irão muito além do momento em que a pandemia estiver controlada. Para muitas pessoas, a realidade que estamos a viver terá consequências, quer pela desorganização do funcionamento que representa, quer pela ativação de certos fatores de risco individuais. Por exemplo, vários estudos sobre as experiências anteriores de pandemia, revelam efeitos de stress pós traumático e agravamento de situações anteriores de perturbação. Em segundo lugar, também sabemos que haverá – aliás, já está a haver – efeitos económicos muito significativos. E a verdade é que a recessão, o desemprego, a pobreza ou privação material significativa que daí decorrem tem consequências para a saúde psicológica, por exemplo no plano da integração social, do surgimento de alterações e até da identidade pessoal. Isto significa portanto que será necessário pensar numa infraestrutura humana e material para dar resposta aos problemas e dificuldades que surgirão”.

Neste momento, o que é que está no terreno em termos de apoios na área da psicologia, no âmbito do apoio ao plano de contenção da Covid-19 na Madeira? A realidade, como reforça, obrigou a uma mobilização generalizada das instituições para a implementação de respostas, “quer a nível nacional, quer regional. E o que a realidade mostra que tem ocorrido é uma ação em dois níveis: em primeiro lugar, adaptar a esta realidade a prestação de serviços que já existem (no fundo, dar seguimento ao trabalho que já é normalmente feito); em segundo, criar ofertas de serviços e intervenções especificamente criados nesta fase, em que se incluem, por exemplo, a criação de linhas de apoio psicológico e outras iniciativas mais focalizadas com base nas necessidades. No caso da Região, essa linha foi criada pela Secretaria Regional da Saúde e Proteção Civil; a nível nacional, pelo Ministério da Saúde, em parceria com a Ordem dos Psicólogos, no âmbito da linha Saúde 24, estando disponível para a comunidade em geral e para profissionais”

 

Promoção da literacia em saúde psicológica

 

Ressalva que ”relativamente às questões mais específicas da ação das autoridades, são naturalmente as tutelas setoriais e até outras instituições (como por exemplo, as autarquias locais) quem pode fornecer mais detalhes sobre a sua ação. Posso, no entanto, acrescentar que, no caso da Ordem dos Psicólogos Portugueses, além da colaboração e cooperação com as autoridades na definição de várias respostas, tem existido uma ação significativa interna, não só dirigida aos próprios profissionais, por exemplo, na definição de procedimentos e linhas orientadoras para a intervenção e no acesso a formação, como também dirigida à comunidade, por exemplo através da promoção da literacia em saúde psicológica, que contribua para uma maior capacidade de resposta à situação atual, com materiais dirigidos a diversas faixas etárias e situações. Material este que está disponível nas redes e no seguinte microsite: https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/covid19

Ainda há algum estigma mas também há amplo reconhecimento

A sociedade está melhor preparada no reconhecimento da importância dos psicólogos? É importante, neste contexto, o papel do psicólogo também para os operacionais? O responsável pela estrutura regional da Ordem dos Psicólogos diz que “apesar de ser ainda possível identificar algum estigma em certas situações, podemos dizer que existe hoje um amplo e crescente reconhecimento da importância da intervenção psicológica nos vários contextos, não só na saúde, mas também na área social e comunitária, na educação, no trabalho e nas organizações, associada às tecnologias, ao comportamento do consumidor, enfim… em vários domínios, onde a mobilização do conhecimento em psicologia é essencial para se alcançarem resultados”.

No fundo, acrescenta, “existe um conhecimento amplo da ciência psicológica, que depois se aplica em diferentes formatos e contextos de intervenção. E esse reconhecimento vem, não só das evidências que existem de forma sobeja sobre a eficácia das intervenções, quer em saúde e bem estar, quer em resultados financeiros e competitividade, mas também da experiência subjetiva que tem cada pessoa ou organização que utiliza serviços de psicologia. Ou seja, o reconhecimento vem do que está demonstrado em números e da experiência que cada um tem”.

E lembra o momento para dar expressão ao seu pensamento: “A situação atual que estamos a viver ilustra justamente isto: de imediato foi identificada a necessidade de providenciar serviços e intervenções ao nível da saúde psicológica dirigida à comunidade em geral, mas também a todos os profissionais que estão diretamente envolvidos com a prestação de cuidados de saúde ou de segurança, ou outros serviços. Não devemos esquecer que em situações de excepção, de crise ou emergentes, não há apenas as vítimas diretas, mas todo um conjunto de pessoas potencialmente em risco, desde outras que sejam próximas das vítimas diretas até aos próprios profissionais. E é para isto que também serve a psicologia – para que as pessoas sejam capazes de lidar melhor com os desafios que enfrentam na sua vida”.

A não comparticipação das consultas constitui um factor discriminatório de uma área cuja importância não foi acompanhada pelos correspondentes apoios? Há alguma perspetiva de evolução a esse nível?

 

É preciso vontade política para a comparticipação nas consultas

 

Esse é realmente um ponto muito pertinente. De facto, se, por um lado, o reconhecimento existe, por outro, é importante que isso se traduza num leque mais amplo de ações objetivas que reflitam esse reconhecimento, e em que se inclui a questão das comparticipações dos subsistemas de saúde. Até porque o nível de procura dos serviços públicos é elevado e muitas pessoas não têm a disponibilidade financeira para intervenções no contexto do setor privado. A este nível as comparticipações e outras medidas, por exemplo, em sede fiscal, seriam muito importantes. Há já também seguros de saúde que incluem as consultas de psicologia. A Ordem, no âmbito das suas atribuições, tem trabalhado junto do Ministério da Saúde e de outras autoridades, que se têm mostrado recetivas e têm existido progressos tendo em vista essa comparticipação, por exemplo na ADSE. No entanto, isto não é ainda suficiente e é necessário que a vontade política se consubstancie em decisões.

É preciso recordar que a intervenção psicológica não é uma espécie de luxo ou algo complementar, mas algo central e essencial para promover competências, autoconhecimento, para as pessoas serem capazes de lidar com os desafios do seu desenvolvimento e, em certas vertentes, ultrapassarem ou lidarem com alterações e perturbações psicológicas. E de resto, como já referi, os resultados, quer relativamente à satisfação das pessoas, quer sobretudo sobre a eficácia das intervenções estão amplamente documentados. Em suma, as intervenções que são custo-efetivas, geram satisfação, e há profissionais preparados para intervir. Temos, por isso, de apostar em continuar a criar condições para que as pessoas tenham acesso a mais serviços de psicologia.