Entrevista ao FN: Cafôfo disponível para coligações à esquerda ou à direita quer revitalizar economia, turismo e saúde

Fotos: Rui Marote

Mostra-se cheio de uma energia que diz advir-lhe da convicção na vitória nas eleições de domingo. Em entrevista ao Funchal Notícias, Paulo Cafôfo diz que estas são as eleições mais importantes dos últimos 43 anos e pede uma oportunidade ao eleitorado, para si e para o PS. Já convicto de que será o novo presidente do Governo Regional, o candidato do PS-M admite no entanto a possibilidade de não ter maioria absoluta e, nesse caso, diz que o único partido com que não contempla um “acordo de incidência parlamentar” é com o PSD. Recusa os epítetos que o classificam como “mais do mesmo” e assegura ter um plano bem pensado para fazer uma mudança real na saúde, na economia e no turismo da Madeira.

 

Funchal Notícias – O que acha que está em jogo nestas eleições?

Paulo Cafôfo – O que está em jogo, na verdade, é a Madeira ter outro rumo. E digo isto porque estas são as eleições mais importantes que tivemos nestes 43 anos, porque pela primeira vez há uma possibilidade de alternância política real. E a Mudança só pode acontecer com o PS. Se as pessoas querem que eu seja presidente do Governo, só podem votar PS. Chegámos a um ponto em que o PSD esgotou a sua capacidade de resolver os problemas, esgotou a sua capacidade governativa. Temos de sair deste modelo, onde instiga-se o medo, onde se promove o compadrio, numa política do quero, posso e mando… Aliás, basta olhar para a afirmação de Miguel Albuquerque de que “quer queiram quer não” [construirá a estrada na Laurissilva]… E o “quer queiram quer não” não é só para dar cabo da classificação de Património Mundial da UNESCO à Laurissilva com a estrada das Ginjas… É também no que diz respeito à aquacultura e aos projectos já aprovados de expansão, pondo em causa um sector estruturante como é o do Turismo… Ou aquilo que acontece nas ribeiras, de que, “quer queiram quer não”, estão a saque, não só com danos ambientais, mas com consequências para a própria segurança das pessoas. E portanto, este modelo está esgotado. Precisamos de ter um futuro. E ter um futuro é, primeiro, realizarmos as reformas estruturantes, ter a coragem de as realizar em determinadas áreas da governação, com medidas concretas, para termos uma Região mais forte e desenvolvida, onde todos possam contar. Para mim, isto representa ter outra postura. Neste novo tempo, teremos importantes decisões, do ponto de vista político, e temos de estar todos juntos, o que não quer dizer que concordemos com tudo. Mas temos de conciliar os madeirenses uns com os outros. Este divisionismo, de dividir para reinar, não faz qualquer sentido. E afirmações como as de que quem votar na Mudança é porque é idiota é uma enorme falta de respeito para com os madeirenses. Eu, como madeirense, sinto-me envergonhado por ainda ter um presidente que profere esse tipo de afirmações. Nós temos de fazer diferente. É por isso que o PS se propõe fazer diferente, em áreas como a própria economia, porque nós temos de criar oportunidades, temos de inovar, temos de ter a capacidade de atrair investimentos. É aí que nós vamos vencer, na criação de emprego. Mas também nas políticas sociais, que possam não ser assistencialistas, porque as pessoas têm de ter a sua dignidade, têm de ter possibilidade de se auto-governarem, mas que se criem situações de igualdade, se esbatam as desigualdades. Mas também, que se possam dar os instrumentos necessários para cada um poder vencer na vida. Isto é uma forma de encarar a governação, diferente daquela que tem sido utilizada pelo PSD.

FN – Compreendo-o, mas pego precisamente nessas suas declarações para questioná-lo sobre acusações de que é alvo. O senhor propõe-se fazer a diferença, mas aqui é que reside o busílis da questão, pelo menos para parte da sua oposição, que diz que Paulo Cafôfo é mais do mesmo. Pegando em dois casos concretos, focou agora o tema do Ambiente e a determinação do presidente do Governo Regional em construir uma estrada na Laurissilva. Mas os mesmos críticos desta decisão de Albuquerque criticam-lhe, a si, a manutenção do gado na serra e o diálogo com os pastores, que não são exactamente pastores na sua maior parte, mas pessoas que criam algum gado e deixam-no “ao Deus dará”. Há quem o acuse de ir à procura de votos nesse sector, que não representa grande coisa na economia da Madeira. Depois, por exemplo relativamente às suas observações quanto ao Estado assistencialista, essa é precisamente uma das críticas que se fazem à perspectiva socialista, com o Rendimento Mínimo, com tudo isso… Não será este também um Estado assistencialista? O que quero dizer é que há outros partidos do espectro político que podem “roubar” votos ao PS estabelecendo esse tipo de comparações. Está a dizer que para mudar, é preciso votar em si, no PS. É a única hipótese de mudar. Mas há uma série de partidos da oposição que dizem que Cafôfo é mais do mesmo, de uma maneira diferente, mas que, no fundo, enferma dos mesmos vícios que o adversário. Como lhes responde?

PC – É muito fácil. Isso não faz sentido, nem eu encaixo essa carapuça. Vamos por partes, e nos exemplos que aqui deu. A questão do gado na serra. Disse bem, e vou pegar numa sua afirmação: “o gado ao Deus dará”. Ora, comigo não vai haver gado ao Deus dará. Eu defendo o regresso do gado à serra, mas em circunstâncias que não podem ser iguais àquelas que existiam antes da retirada do gado da serra. Tem de ser uma pastorícia orientada. Tem que ser uma pecuária extensiva, em que temos uma pastorícia de transumância, em que o gado se desloca de um lado para o outro, com critérios e áreas bem definidas e delimitadas, porque ninguém vai levar gado para a Laurissilva, para o meio das urzes, e portanto, essa questão está salvaguardada. Agora, o gado, em qualquer parte do mundo, existe, e a pastorícia pode ser uma boa fonte de rendimento para muitas pessoas, e também uma forma de valorizarmos os próprios produtos regionais. Aliás, o principal prato que nós temos, e de que tanto nos gabamos, a espetada, é feita com carne dos Açores… Aqui há também uma perspectiva de economia, mas também de poder o gado, na sua alimentação, ser um factor de segurança da própria montanha, da própria serra. Isso é possível, mas não é igual ao que existia antes. Na minha perspectiva e naquilo que acredito, isto não é uma questão eleitoralista para ter os pastores do meu lado… É por uma questão de segurança, porque como sabemos as nossas serras e a nossa Região têm sido fustigadas por aluviões e incêndios. E também por uma questão de economia. Já no que diz respeito à política assistencialista, repare, eu não sou daqueles que defende que se deva atribuir subsídios a torto e a direito. O que eu considero é que as pessoas, em determinada fase da sua vida, precisam claramente de uma ajuda. Dou um exemplo concreto de como a minha postura na CMF foi oposta a essa que está aqui a dizer. Eu criei programas de emprego, só com o orçamento municipal, designados “Programas de Ocupação e Formação em Contexto de Trabalho”. As pessoas desempenhavam uma função na autarquia, tinham formação, e auferiam por isso. Isto é uma perspectiva diferente do que a subsidiodependência. Isso é mais aplicado ao PSD, que procura muitas vezes fazer isso com fins eleitoralistas. Eu procuro que a pessoa possa ter capacitação, ou seja, num determinado momento, precisar de ajuda, ser valorizada, ser-lhe dada a possibilidade de acrescentar um valor àquilo que a pessoa é, à sua qualificação, à sua formação, para depois poder dispensar qualquer ajuda do Governo.

FN – Muito bem. Eu estava aqui a confrontá-lo com acusações de que é alvo não só por parte da direita, mas também por parte de alguma esquerda.

PC – Sim, já estou habituado a ser o alvo (risos).

FN – Mas, dadas as circunstâncias, em “realpolitik”, eventualmente pode ter a necessidade de coligar-se ou negociar com a esquerda. Nesse sentido, como comenta a demonização que o PSD ou CDS têm feito, da eventual criação de uma “geringonça” de esquerda montada na Madeira, e que seria dramática para a economia?

PC – Bem, antes de mais, quem tem acordos feitos é precisamente o PSD e o CDS, com a bênção de Rui Rio, que veio ele próprio garantir que poderá haver coligação se os resultados eleitorais derem a vitória ao PSD e possibilitem a formação de uma maioria com o CDS, que eu acredito sinceramente que não vai acontecer. Eu não tenho qualquer arranjo político feito. Mas nem sequer uma conversa tenho feita seja com que partido for. Acredito neste projecto e tenho-o defendido em termos da campanha eleitoral, um projecto que já vem desde a constituição dos Estados Gerais, da abertura à sociedade civil, e um programa para a próxima década. Agora, aquilo que vai surgir no dia 22, nós temos que estar preparados para tudo. É um novo tempo. Seja qual for o resultado, teremos algo inédito na nossa Região. Eu estou preparado para, em primeiro lugar, dialogar, e fazer acordos de incidência parlamentar, entendimentos com partidos que queiram uma alternância na política. Aqueles que quiserem continuar como está, aí, à partida, não há qualquer forma de entendimento.

FN – Está a falar numa “geringonça” à moda do continente? Eles não integram o governo, mas situam-se no parlamento.

PC – Eu nunca falei de “geringonça”, mas fui claro… Acordos de incidência parlamentar, em determinadas matérias, e com base naquilo que é o programa do Partido Socialista. Tem de haver um alinhamento com o PS. Não estou a dizer que é necessário concordar com tudo o que está no programa do PS. Mas essa é a base para a nossa negociação. E numa negociação, há cedência de um lado, e cedência de outro. Temos de ter, nesta fase da política, essa responsabilidade de achar as soluções certas para garantir a estabilidade política.

FN – Acha que os partidos à esquerda na Madeira aceitariam uma solução assim?

PC – Eu espero que sim. Mas não posso dizer que é com os partidos à esquerda, porque não sei com quem é que me vou coligar. Neste entendimento, neste alinhamento, os acordos que vão ser feitos dependem muito…

FN – Quer dizer que admite coligações à direita?

PC – Eu admito coligações com todos, excepto com o PSD. Tudo dependerá dos resultados eleitorais, e tudo dependerá das garantias que os respectivos partidos irão dar. Vamos deixar que o povo possa decidir, vamos ver qual o peso eleitoral de cada um, vamos ver no xadrez político qual é o posicionamento de cada uma das peças, e a partir daí, naquela que é a minha postura, de diálogo, de proximidade, vamos negociar, estabelecer acordos e compromissos.

FN – As mais recentes sondagens, três esta semana, dizem que o PS vai perder. Como comenta?

PC – A verdadeira sondagem será no dia 22 de Setembro. Também o diziam, quando eu pela primeira vez me candidatei à Câmara Municipal do Funchal. Não estive à frente de nenhuma sondagem, e acabei por ganhar as eleições. Eu estou a sentir, neste momento, aquilo que senti em 2013. Esta vontade de mudança. Esta energia que se sente. Eu acho que se vai reflectir no dia 22. Há muito voto escondido. Há pessoas que ainda têm muito receio. O PSD instiga muito o medo. Noto isso, quando estou a falar com alguém, mas há uma câmara presente, ou alguém tira uma fotografia… As pessoas sentem-se incomodadas, falam baixinho para os do lado não ouvirem… há este medo. Eu não desvalorizo as sondagens, e a sua interpretação política. Faço uma análise.

FN – Ainda há uma cultura do medo, de falar livremente. Mas não é da sua parte também excessivo aquilo que sucessivamente tem afirmado na campanha, de que “comigo não haverá favoritismos”, “comigo não haverá benefícios”? Acredita que poderá mudar toda a sociedade do dia para a noite?

PC – Se fosse fácil, seria outro que estaria aqui. Eu não estou a dizer que isto não é uma tarefa difícil, complexa… Mas acredito que as pessoas querem que isso mude. E se as pessoas querem que isso mude… são as pessoas a sociedade. É isso que ouço na rua. As pessoas querem outra postura. Não querem que haja compadrios, querem que todos tenham oportunidades. Repare, eu sou um adepto da iniciativa privada. O Governo deve criar as condições para impulsionar a iniciativa privada. Agora, até por uma questão de dinâmica económica, tem que existir igualdade. Não pode haver amiguismos.

FN – Mas não falta quem o acuse de ter aberto logo a porta aos grandes grupos económicos logo quando esteve na Câmara Municipal do Funchal…

PC – Não sei em que aspecto, porque a minha presidência na Câmara do Funchal foi completa, liberta de quaisquer lobbys… Eu trabalhei com todos, e respeitei todos. Isso são acusações de quem me quer denegrir, sem qualquer tipo de fundamento.

FN – Considera que a forma como abordou a temática da Saúde, com a eventual compra do Hospital Particular por 70 milhões, foi uma “falsa partida” para a sua campanha?

PC – Para já, nunca me comprometi com a compra do novo hospital. Por vezes lemos títulos de jornais que não correspondem àquilo que efectivamente eu disse. Não há aqui, da minha parte, compra de hospital no programa do PS. Essa é uma questão que já esclareci, e o que é importante neste momento é acabarmos – porque ainda não saiu do papel – com a construção do novo hospital [público]. Isso é que é fundamental. Porque o Hospital Dr. Nélio Mendonça está obsoleto, o Hospital dos Marmeleiros não garante condições de segurança, nem para os profissionais nem para os doentes, e nós precisamos dum novo equipamento hospitalar. Poderá não resolver todos os problemas da Saúde, mas é um passo para termos um sistema de saúde a funcionar melhor. Na minha perspectiva, a Saúde será – e eu dou essas garantias – uma prioridade. Dou as garantias políticas, mas também tenho de dar a garantia de que terão de ser realizadas as reformas estruturantes, para podermos inverter um processo que tem sido de agravamento do Estado da Saúde, que é do Sistema Regional de Saúde mas é também dos madeirenses. Basta ver o aumento das listas de espera, seja nas cirurgias, nas consultas ou nos exames… Nós começamos esta legislatura, em 2015, com 76 mil actos médicos. Vamos com 110 mil. Isto é uma dinâmica que não interessa a ninguém. Podemos dizer que está tudo bem, mas não está. Basta falar com as pessoas, ver as suas necessidades. Não são só os números do próprio SESARAM, é uma realidade que importa inverter, e isso só se faz com um aumento das verbas para a Saúde. Porque o orçamento da Saúde tem de ser reforçado. Está neste momento subfinanciado, passamos o tempo a gerir uma crise permanente, e temos de dar um passo qualitativo. Para isso precisamos de dotar o Orçamento da Saúde com as verbas necessárias. Mas também é preciso dizer que não basta injectar dinheiro. É preciso colocar o sistema a funcionar, com mais eficácia. Como se faz isto? Tendo as pessoas certas à frente, na liderança, como é óbvio, mas também contratando mais profissionais. Veja-se por exemplo o Bloco Operatório do Hospital Dr. Nélio Mendonça, que está a funcionar a 50 por cento. Não é admissível que isso possa acontecer, quando há tantas necessidades. Têm de ser dadas as respostas, para inverter e diminuir as listas de espera. Isso, numa legislatura, é difícil que possamos resolver o problema integralmente. Na minha previsão, seriam necessários quatro a seis anos. E há que evitar que haja uma acumulação. Isto tem de ser um trabalho em paralelo. Tem de haver tempos máximos de resposta. Isto é: temos de saber, para aquela cirurgia, que tempo máximo é necessário para fazê-la. Se não for possível dentro do sector público, têm de ser encontradas as respostas para essa pessoa, com horas extraordinárias, com programas cirúrgicos ao fim-de-semana, temos de, de uma forma transparente e rigorosa, complementar com o privado. O que não pode acontecer é as pessoas estarem numa situação de falta de soluções para os seus problemas. Mas diga-se que isto também acontece porque o sistema está mal organizado. Onde é que o sistema deveria actuar logo de início? Na base. E na base temos os cuidados de saúde primários. Não é possível que um em cada dois madeirenses não tenha médico de família – ou um em cada três, no caso do Funchal. Às vezes ouvimos os responsáveis políticos, do Governo, dizerem que as pessoas não devem recorrer tanto às Urgências, devem ir aos Centros de Saúde. Ora, mas se vão ao Centro de Saúde e não têm médico ou enfermeiro de família, obviamente que têm de ter dinheiro para recorrer ao privado, e a Saúde não pode estar dependente da situação socioeconómica da pessoa para ter uma consulta, fazer um exame ou uma cirurgia… a resposta tem de ser dada no sector público. Para mim há três factores essenciais no sector público. Primeiro: garantir o acesso universal a todos. Segundo: credibilizar o Sistema Regional de Saúde, que, no passado, já foi um bom sistema. Terceiro: motivar os profissionais. Há tanto profissional que quer recuperar o tempo perdido, sem falar nos que tiveram que sair do Sistema Regional de Saúde, com muita mágoa, e agora estão no privado. Nós temos que criar incentivos, atractividade, para que esses profissionais possam regressar, ou contratar outros, para colmatar as necessidades, coisa que, apesar das contratações que este Governo Regional fez, foram manifestamente insuficientes. A prioridade é a Saúde e a Saúde não pode faltar, nem nós vamos falhar na Saúde.

FN – Como responde às críticas, ou aos avisos, algo histéricos, até, de que a Autonomia está em risco, e de que se for Paulo Cafôfo a ganhar, quem mandará na Madeira será verdadeiramente António Costa?

PC – Essas acusações têm sido muito feitas por Miguel Albuquerque. Só fala do António Costa. Acho que ele está a confundir as eleições. Na verdade, ele é cabeça-de-lista a duas eleições, à República e às regionais… Acho que às vezes confunde as coisas. Mas deixe-me dizer-lhe que quem pôs em causa a Autonomia, durante estes 43 anos, foi o PSD. O Plano de Assistência Económica e Financeira (PAEF) agachou os madeirenses, submissos a Lisboa, com Passos Coelho lá, e Alberto João Jardim cá. A verdade é que o pior momento da nossa História foi precisamente esse. Não foi nem com o Cafôfo nem com o Costa. Foi Passos Coelho e depois Alberto João Jardim, mas também, a seguir, Miguel Albuquerque, porque eu não o vi, na altura em que Passos Coelho ainda era primeiro-ministro, sequer falar da questão dos juros, da questão do hospital… Quem criou o modelo de mobilidade que ele tanto critica, foi ele próprio e Passos Coelho… Eu não nego que existem problemas reais entre a República e a Região que têm de ser resolvidos. Tem de haver é vontade política de ambos os lados.

FN – Como concilia essas declarações que acabou de me fazer com os elogios recentes a Alberto João Jardim, de que este é uma “personalidade inigualável” do ponto de vista positivo?

PC – É uma personagem inigualável porque… É preciso reconhecer o papel que Alberto João Jardim teve na História. Houve um tempo para o Alberto João Jardim, que é um tempo passado. Temos de reconhecer que houve coisas negativas, mas houve coisas positivas. A Região teve infraestruturas necessárias que não tinha, básicas, e isso foi feito num determinado tempo. A verdade é que Miguel Albuquerque propôs-se fazer uma renovação, mas voltou ao antigamente, seja na postura, seja na estratégia ou melhor, na falta dela. Nós não podemos estar continuadamente nesta questão das inaugurações eleitoralistas, sem qualquer estratégia, sem qualquer visão. Tudo é feito em cima do joelho, com o fim de tentar captar votos. E isto não resulta, porque quem sai prejudicado já viu os resultados disto tudo no passado. Foi o acumular da dívida, foi a submissão da Madeira a Lisboa. E isso, eu não quero que aconteça. Para isso, precisamos de ter outra estratégia. Nós temos uma estratégia bem definida a dez anos, em áreas essenciais, seja da economia, seja da saúde, seja da educação, seja da habitação, seja mesmo no âmbito da continuidade territorial, seja aérea, seja marítima… Nós temos de andar para a frente. Precisamos de um virar de página, de um outro ciclo. E isso só se pode fazer com o PS. Como já vimos, a renovação falhou, Miguel Albuquerque foi um político que não soube sair do passado. Eu quero liderar a Região para o futuro e é nessa liderança que acredito. Sei que terei os madeirenses e os porto-santenses comigo.

FN – Tem-se esforçado por uma credibilização do seu projecto. Nesse sentido, pergunto-lhe porque manteve na lista, em lugar elegível, Avelino Conceição?

PC – A lista procurou conciliar o partido. Manter o partido unido e coeso. É por isso que nós mantivemos cinco deputados, que foram, na última legislatura, parlamentares por parte do PS. Todos eles estão em lugares elegíveis, além de que o adversário interno do PS, Carlos Pereira, que concorreu contra Emanuel Câmara, nós pusemo-lo novamente como cabeça-de-lista à Assembleia da República. Tentámos esta pacificação, esta coesão do partido, num momento importante para a Região. E aí, o PS deu o exemplo. Daí esta lista, tanto a regional como a nacional, representarem essa união.

FN – Terá sido a melhor opção?

PC – Estou convencido de que sim.

FN – Se perder, vai assumir o seu lugar como deputado na Assembleia Regional, eventualmente como líder parlamentar?

PC – Fazem-me sempre essa pergunta, mas eu estou convicto, mesmo, de que vou ser o próximo presidente do Governo Regional. É nisso que eu estou focado e concentrado, e sei que isso vai acontecer no dia 22.

FN – Vamos supor que a 6 de Outubro, Carlos Pereira obtém na Madeira uma percentagem maior do que aquela que o senhor vai obter no domingo. Que leitura é que faria de um tal resultado?

PC – Não faço, de maneira nenhuma, futurologia… Nós ainda nem obtivemos o resultado das eleições regionais. Vamos deixar o povo decidir, seja para as regionais, seja para a República… Logo depois poderei comentar essa situação. Mas aqui nós não andamos numa competição. Este é um projecto único do PS. São dois contextos diferentes, as regionais e as nacionais, mas a ambição e a união é a mesma. Não estamos aqui a falar numa corrida entre Carlos Pereira e Paulo Cafôfo. Estamos a falar, sim, dum projecto do PS que quer ganhar para a República e para a RAM.

FN – Está consciente de que se perder, não faltará quem o acuse de ter sido o candidato do PS que melhor enquadramento, melhores circunstâncias teve alguma vez para ganhar…

PC – Podem acusar-me de tudo e mais alguma coisa, mas acredito que vou ganhar. E há uma coisa que tenho de dizer: tenho a consciência tranquila, de que fiz tudo o que podia, tudo o que sabia, para merecer a confiança dos madeirenses e porto-santenses. Neste caso, não há um projecto meu e um do PS: estamos todos juntos nisto, e acredito que a vitória será de todos.

FN – Como comenta o facto de o seu principal adversário, Miguel Albuquerque, ter recusado um debate frente a frente consigo?

PC – Só tenho a lamentar isso, porque há ainda determinados tiques de uma certa prepotência relativamente ao que é uma postura democrática, de debate, de discussão, de partilha. Isso significa que… acho que Miguel Albuquerque já reconhece que perdeu as eleições. Quando não quer discutir ideias com o seu principal adversário, o que é muito útil, pois esse é que seria um debate de grande interesse, está a dizer que é indiferente relativamente ao futuro, que não quer saber da Madeira, nem quer ter uma oportunidade de esclarecer os madeirenses e os porto-santenses sobre o projecto do PSD. Isso também tem de ser mudado, temos de respirar outro ar democrático.

FN – Do ponto de vista da economia, e face às recentes notícias no mercado turístico, por exemplo de um iminente colapso do operador Thomas Cook e do impacto que isso teria num sector estratégico para a Madeira como é o turismo, quais são as suas principais preocupações?

PC – No capítulo da economia, e respondendo a essa pergunta, as principais preocupações para mim são com as pessoas, mesmo. A economia são as pessoas. É terem mais emprego, melhores salários, mais rendimentos e podermos, com uma economia em crescendo e dinâmica, fixar as pessoas para evitar que tenham que emigrar. Nos últimos oito anos, 14 madeirenses emigraram, a maior parte deles jovem. Isto é uma dor de alma. Como professor, eu tenho tantos alunos que infelizmente estão fora, em Londres, no Reino Unido, então, é uma coisa impressionante, e isso tem que acabar. Para mim, na economia, há três eixos que eu acho importantes. A questão do turismo, que precisa de ser revitalizado, a questão da deficitação da economia, que precisa de ter outras áreas para poder atrair outros investimentos, como a economia do mar, e a questão da fiscalidade e da baixa de impostos, com o compromisso que já tenho, de o diferencial que tínhamos ser reposto, particularmente na questão do IVA, de forma progressiva ao longo da legislatura. O assunto que focou, o do turismo, é mais preocupante, porque este é realmente um sector transversal e uma alavanca da nossa economia. E nele, temos estado a dormir à sombra da bananeira. Andamos a gerir isto como se fosse um condomínio. Vai aparecendo uma coisa e vamos fazendo. Se está bom está, se não, deixamos estar. Temo-nos limitado a gerir a conjuntura e não a actuar. Ora, repare, no último ano e meio nós tivemos oito companhias que deixaram de voar directamente para a Região. Umas porque faliram, outras por questões operacionais. Agora vem mais esta, a Thomas Cook, nesta incerteza, que será catastrófica para o nosso turismo se o pior acontecer. Não vejo qualquer proactividade…

FN – Isto sem falar na recuperação dos mercados do Mediterrâneo…

PC – Sem falar sequer nisso… Os mercados de que temos perdido mais turistas são precisamente os maiores, o inglês e o alemão. Se formos a ver os números já deste mês de Julho, comparativamente com o do ano transacto, nós estamos a perder em todos os indicadores. Seja no REVPAR, portanto, no preço do quarto, seja na estadia média por noite, seja na questão dos proveitos globais, seja no número de hóspedes… E é preciso fazer alguma coisa.

FN – Já se fala na possibilidade de uma nova crise económica ao nível mundial…

PC – Com a crise dos outros nós podemos. A questão é, no nosso bocado de mundo, o que podemos fazer?

FN – Queria dizer, a forma como uma conjuntura internacional adversa nos pode afectar.

PC – Mas nós não podemos estar nas mãos do destino, à espera que venham bons ventos. Nós temos de actuar, temos que ter uma estratégia. E há ainda um factor que não disse: estão a abrir mais hotéis, e a serem renovados outros… ou seja, estamos a aumentar o número de camas.

FN – Nem falando no Savoy…

PC – Não! Essa é questão para mim muito confortável. Não fui eu que licenciei o Savoy.

FN – Mas não falta quem lhe impute também responsabilidades pelo andamento desse mega-empreendimento.

PC – Comigo, o Savoy nunca teria sido licenciado. Que fique bem claro. Foi precisamente Miguel Albuquerque, enquanto presidente da Câmara do Funchal, que o licenciou. Agora, para melhorar a economia, precisamos de criar condições para incentivar companhias a trazer passageiros directamente dos mercados emissores. Estou a falar de rotas directas. Isso é possível, conjugando, incentivando. Nós somos um grãozinho de areia no meio do mercado global turístico. Mas temos uma vantagem: uma marca única. A Madeira, em termos de destino turístico, tem uma marca que é muito competitiva. O nosso destino é muito competitivo, porque temos uma identidade muito própria, coisas só nossas. É aí que nos devemos diferenciar. Copiar os outros, é um desastre. Temos de criar incentivos para captar novos operadores para a RAM. Isso tem que ser feito com investimento do Governo Regional, por parte do Turismo de Portugal, e por parte da ANA. Só neste âmbito é que é possível. Hoje em dia, a distribuição confunde-se muito com a promoção. Quase que são a mesma coisa. Além destes incentivos, temos claramente de aumentar as verbas para a Associação de Promoção da Madeira, porque só assim é que vamos conseguir vender o nosso produto, e ser competitivos para poder atrair, a preços elevados, a verdade é esta, somos um destino de qualidade, e é assim que nos devemos manter. Porque não interessa só trazer mais turistas. Importa que esses turistas que cá venham possam pagar bastante pelo quarto onde ficam e consumir bastante nos restaurantes, nos passeios que dão, no pequeno comércio local. Isso é que é importante, não só o número de turistas mas também aquilo que eles deixam aqui para dinamizar a nossa economia.

FN – E o destino Madeira está a manter-se como um destino de qualidade?

PC – Tem que se manter! Nós temos recebido prémios internacionais, e isso deve-se muito àquilo que nós, madeirenses, entendemos do turismo. Não é só quem trabalha na hotelaria nem na restauração. Nós somos, ao fim e ao cabo, todos agentes de turismo. A forma como recebemos as pessoas também faz toda a diferença. Não é só a paisagem. Nós temos paisagens óptimas, apesar de alguns erros que foram cometidos mas acho que mantemos intacta a nossa essência. Agora, o que temos de saber fazer é vender isto, que temos. E isso só se consegue com proactividade, trazendo e captando novas rotas e novos operadores para a RAM.

FN – Para finalizar, quer acrescentar algo mais que ache pertinente?

PC – Sim, queria apelar ao voto. Eu diria que nunca foi tão importante. Há muitas pessoas que sempre quiseram uma mudança, mas a mudança só se faz se forem votar. A opção é clara. Ou votam naquilo que tem sido um “quero, posso e mando”, do PSD de Miguel Albuquerque, ou votam no futuro, no optimismo, e votam em mim e no PS. Peço essa oportunidade, democrática. Se as pessoas não gostarem, ou se eu não cumprir aquilo com que me comprometi, daqui a quatro anos podem ter outro sentido de voto. Agora, termos sempre os mesmos no poder, sempre os mesmos a mandar nisto… Está na altura de dar oportunidade ao PS e a tantos madeirenses que querem uma lufada de ar fresco na Região.