Comentário à saída da Aigle Azur do mercado Português

A Aigle Azur é uma das companhias independentes mais antigas da Europa. A voar desde 1946, nunca esteve na dependência da Air France, e sempre de adaptou aos tempos. Tinha as suas valências afincadas no mercado Paris – Magreb (Tunísia e Argélia), e rotas para Portugal.

Sobreviveu à primavera árabe, e à crise que afetou Portugal, de maneira surpreendente. A estrutura acionista da Aigle Azur passou a integrar em 2012 o grupo chinês HNA e em 2017 entrou também David Neeleman. O HNA saiu em 2019, porque tem uma dívida equivalente ao orçamento de estado português, abandonando também a TAP e outros investimentos para obter liquidez. A Aigle Azur incorporou duas aeronaves Airbus A330 de longo curso e abriu linhas diretas para a Ásia e Brasil, um movimento muito arriscado para uma companhia deste tamanho e segmento. Consta que serviu para aumentar capacidade da brasileira Azul Linhas Aéreas, criação de Neeleman. Das onze aeronaves que compõem a frota, duas deles estão emprestadas à TAP, um A319 e um A320.

Airbus A319 da Aigle Azur emprestado à TAP. Crédito: José Freitas

Nos dias recentes a Aigle Azur emitiu um comunicado a confirmar a passagem por severas dificuldades, com a ação imediata de abandonar o Longo Curso, e venda da operação de Portugal à Vueling. A eliminação do longo curso é uma reação racional e standard numa situação destas, redução de capacidade e desprogramação de rotas não lucrativas. Um leasing mensal de um A330 custa 150 000 dólares. A devolução de uma das aeronaves operadas pela TAP estaria já programada, à medida que vão chegando os A320NEO novos de fábrica.

A venda da operação à Vueling já apresenta contornos mais confusos. O abandono de rotas chave mantendo a capacidade de médio curso deixa antever uma mutilação operacional a troco de encaixe financeiro imediato, entre 15 a 30 milhões de euros. Uma bola de oxigénio muito pequena, porque também tencionam transferir as operações do aeroporto de Orly para Charles de Gaulle.

A espanhola Vueling pertence ao grupo IAG, cujos acionistas são a Iberia e British Airways. Se quisessem voar de Paris para a Madeira já o fariam há muito tempo. Teme-se que simplesmente se apoderem dos slots em Orly e os usem para outras rotas, possivelmente para longo curso.

Mais surpreendente é ter voltado atrás na decisão de manter a rota do Brasil até ao fim de setembro. Especula-se que poderá ser devido ao code-share com a Azul, enquanto a brasileira procura outra solução para assegurar recursos aéreos, e evitar devolver receitas de bilhetes já vendidos.

A situação da Aigle Azur é muito grave, porque uma companhia aérea pequena e independente tem muita dificuldade em competir com as low cost e com as grandes. Traça-se o facilmente o paralelo com a defunta Monarch. A redução de capacidade implica imediatamente um custo mais elevado por voo, e mina severamente a capacidade competitiva da Aigle Azur.