“Nesta Universidade, júnior e sénior, ainda me considero caloiro”, escreve Martins Júnior sobre a Ribeira Seca

Foto Igreja Ribeira Seca anos 60
A Ribeira Seca dos anos 60. Foto blogue Martins Júnior

O padre Martins Júnior, o histórico pároco da Ribeira Seca, Machico, que o povo não deixou sair nos tempos “quentes” do diferendo com a Diocese do Funchal, então liderada por D. Francisco Santana, escreve hoje sobre o dia 22 de junho de 1969, faz 50 anos.

No seu blogue “Senso & Consenso”, Martins Júnior publicou um escrito intitulado “50 anos de Universidade: Ribeira Seca”, abordando o dia em que entrou como pároco. Como escreve “50 anos aprendidos – alguns sofridos, mas todos erguidos – na mais original “Aula Magna” da Universalidade de conhecimentos e sensações!”

“Eu te agradeço, Ribeira – Seca de apelido – mas Rio enorme, pleno da água fértil que dá força e amor à Vida!… 50 anos de curso! Nesta Universidade, júnior e sénior, ainda me considero caloiro, pelo tanto que há por desbravar e saber. E, sobretudo, servir.

Pela relevância do momento, quando hoje a população da Ribeira Seca preparou um programa de festas para assinalar meio século de entrada do padre Martins na paróquia, para mais num contexto em que o Bispo D. Nuno Brás acaba de revogar, e assinar, a suspensão “a divinis” aplicada por D. Francisco Santana, o FN publica o texto do padre Martins Júnior alusivo ao acontecimento que ficou marcado na história da Madeira:

50 anos de Universidade: Ribeira Seca

“Encosto a cabeça ao travesseiro do tempo e uma incontida emoção não me deixa adormecer, só em pensar que amanhã o mesmo sol de há 50 anos vai abrir-me a cortina de um novo dia. Era um Domingo de estio moço, cavalgando o dorso das montanhas e descendo à fundura do vale. O sol de milénios ficou sempre jovem e eu, de jovem, fiquei octogenário de nascimento.

Após um ano de magistério no Seminário Menor, dois anos de tirocínio no Porto Santo, mais dois na Sé do Funchal e ainda outros dois em terras de Moçambique retalhado pela guerra colonial, eis-me lançado como Édipo diante da esfinge, como Eurico Presbítero diante de Carteia ou como Moisés frente à Terra Prometida. Os mesmos contraditórios sentimentos de timidez e expectativa, de desafio e de aventura!

Terra verde por fora, mas amachucada por dentro: sem luz, sem estrada, sem água potável, tinha tudo para apagar o poema  dessa manhã clara. Sem escola de gente, muito menos de crianças, não dava senão para vergar o tronco e a cerviz aos servos da gleba cavando a própria sepultura.

Mas o sol foi maior. A esfinge desencantou-se, aberta e sábia. Carteia e Hermenegarda transfiguraram-se. E a terra que parecia ingrata e feia apresentou-se com o louro dos Poetas na fronte. De passada em passada, fui descobrindo que ali era a Minha Universidade. O Livro era o chão de cada dia, a caneta e o computador estavam vivos no bico da enxada, que os Mestres empunhavam com denodo matinal.  E esses,  os meus Mestres, foram as mulheres e os homens que, mesmo com fome e teimoso desalento, alimentavam a cidade.

50 anos aprendidos – alguns sofridos, mas todos erguidos – na mais original “Aula Magna” da Universalidade de conhecimentos e sensações!

Eu te agradeço, Ribeira – Seca de apelido – mas Rio enorme, pleno da água fértil que dá força e amor à Vida!… 50 anos de curso! Nesta Universidade, júnior e sénior, ainda me considero caloiro, pelo tanto que há por desbravar e saber. E, sobretudo, servir.

Uma saudade sem termo para aqueles que bem mereciam mas já não puderam ver a luz deste ‘seu’ dia! Estamos juntos.

Como Labão pastor, enamorado de Raquel serrana bela, convida-me Camões a cantar:

“……………. E mais servira se não fora

Para tão longo amor tão curta a vida”.