Bispo do Funchal escolhe falar do Amor no primeiro Corpo de Deus do seu Episcopado

Fotos Rui Marote.

O bispo do Funchal, D. Nuno Brás participou hoje, pela primeira vez, na Festa do Corpo de Deus, no Largo do Colégio.

Na homilia, perante milhares de fiéis, aludiu ao Amor como centro de toda a vida cristã.

Leia aqui a homilia na íntegra:

“Anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha”

  1. Encerradas as festas pascais com a Solenidade do Pentecostes, podemos agora deter-nos a contemplar e celebrar (particularmente nós, as “Ilhas do Santíssimo Sacramento”) o Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus — quer dizer: esta realidade sacramental que Jesus nos deixou e que nos mandou (a nós, seus discípulos) que celebrássemos até Ele regressar colocando fim à história.

Até esse momento — “até que Ele venha”, dizia S. Paulo, na sequência daquilo que o próprio Senhor afirmou na Última Ceia: “Não beberei mais do fruto da videira, desde agora, até àquele dia em que convosco o hei-de beber, novo, no Reino do meu Pai” (Mt 26,29) — até esse momento de plenitude, havemos nós, seus discípulos, de celebrar e nos alimentarmos com o Sacramento Eucarístico.

Entre estes dois banquetes (a Última Ceia de Jesus com os discípulos e o banquete escatológico, final, quando o mundo inteiro for entregue por Jesus nas mãos do Pai), vivemos a fé como peregrinos. E a Eucaristia — toda e qualquer celebração da Eucaristia — será sempre marcada por estas três realidades: memória (quer dizer: presença) da morte do Senhor e da sua última Ceia; antecipação do gozo em que nos será dado contemplar a Deus face a face; alimento sobreabundante de peregrino, força que nos transforma, presença de Deus que nos revigora, a nós, cansados caminheiros do Céu.

  1. Mas, ao celebrarmos a Eucaristia, afirmava S. Paulo na IIª leitura, ao celebrarmos a Eucaristia, anunciamos também a morte do Senhor. Porque havemos nós de anunciar, constantemente, a morte do Senhor? Não é ela uma derrota (a derrota de Deus diante do pecado dos homens que se recusam a recebê-lo)?

Claro que a cruz é uma derrota. Claro que a cruz é uma falência. Tal como a morte humana (a morte de cada ser humano) é uma derrota, uma falência: é aquele momento em que já não somos capazes de viver; em que cessam as sabedorias humanas; em que todo o nosso poder se mostra fraco.

À morte, estamos nós, seres humanos, habituados: contamos com ela, faz parte do nosso viver. Mas não estamos habituados — como poderíamos estar? — à morte de Deus. Como poderia Deus sofrer a morte? Como poderia Ele estar sujeito à fraqueza, à impotência máxima, ao aniquilamento do seu ser? Quando os discípulos vêem Jesus que pende da Cruz, é natural que fujam, desanimados e sem sentido. Afinal, Aquele que comandava ventos e mares, Aquele que curava e que falava com a autoridade divina, perdoando os pecados; Aquele diante de quem não raras vezes sentiam o temor devido somente à presença de Deus, também Ele ali estava, pendendo do madeiro, sofrendo a caducidade humana, sujeito à maior agonia então imaginável. Que fazer, senão fugir? Que fazer, senão procurar o regresso ao quotidiano, e tentar que tudo não tivesse passado de um sonho transformado em pesadelo?

Mas a ressurreição do Senhor, aqueles encontros com o Ressuscitado que se seguiram ao dia de Páscoa; o olhar com os olhos de discípulos; o escutar com os seus ouvidos; o tocar o Ressuscitado com as próprias mãos; as refeições tomadas com Jesus ao longo daqueles 40 dias; a Sua presença gloriosa que vencia e ultrapassava todos os obstáculos: tudo isso conduziu os discípulos a um outro entendimento, a olhar para a cruz de um modo radicalmente diferente.

Que o homem morra é normal; mas que Deus sofra a morte, custa-nos, ainda hoje, entender — que Deus experimente o que é morrer; que Ele experimente a morte real, física e moral; que sofra o abandono dos seus, a solidão, o silêncio, a dor maior do abandono do Pai, para (por nossa causa) vencer a morte e nos dar a vida, a Sua vida — isso apenas poderá ter uma justificação: o amor divino, incomensurável, o amor maior e concreto por todos e por cada um: o amor definitivo. Ou, simplesmente, “o amor”.

A morte de Jesus, longe de ser apenas uma morte injusta e sem sentido, mostrou e mostra ainda hoje a todo o que se deixar confrontar por ela, o quanto cada ser humano vale para Deus. Mostra como o amor divino pode ir longe — bem mais longe que qualquer sentimento, bem mais longe que qualquer poder humano, bem mais longe que qualquer desejo: é uma vontade (um querer divino!) de a todos chegar, de a todos oferecer a sua vida, de a todos convencer com o amor, de a todos oferecer a eternidade. A Cruz de Jesus Cristo é o lugar do amor. Neste Jesus que assim morre na cruz, conhecemos o que é o amor, sem fronteiras, sem limites — o amor que tudo pode porque não é fruto de uma fantasia ou de um sentimento vago, mas antes daquele querer divino, único a poder vencer a morte no seu próprio terreno.

Não nos espante, portanto, irmãos, que S. Paulo nos diga — a nós, discípulos que celebramos a Eucaristia, a nós que comungamos — que sempre que o fazemos anunciamos a morte do Senhor até que Ele venha! Anunciamos, verdadeiramente, a morte do Senhor. Somos seus anunciadores, seus pregoeiros; somos portadores da morte de Jesus, porque nela se mostrou o amor e a medida do amor: “longe de mim gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” — afirmava S. Paulo noutro lugar (Gal 6,14). Na cruz de Jesus Cristo vem-nos ao encontro a vida que vence a morte; e no Crucificado somos surpreendidos pela grandeza do ser humano, a grandeza de cada um de nós; a grandeza que permanece sem que nada mais a possa destruir.

  1. Sim, todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice anunciamos a morte do Senhor — nós, discípulos peregrinos do Céu — até que Ele venha de novo na plenitude dos tempos. O mesmo é dizer: anunciamos o amor até ao fim; anunciamos o amor na sua medida mais alta e excelente; anunciamos o amor que vence efectivamente o ódio, a guerra, o egoísmo; anunciamos o amor que transforma o mundo (o único a poder transformar o mundo!).

Quando celebramos a Eucaristia, celebramos este Amor, único e total de Deus por cada um de nós e por todos; quando comungamos, recebemos em nós o Amor. Quando nos ajoelhamos diante do Santíssimo Sacramento, ajoelhamos diante do Amor. Quando abrimos o nosso coração num momento de oração silenciosa perante o Sacrário, abrimos o nosso coração ao Amor. E quando O mostramos à cidade, numa procissão jubilosa, mostramos a todos o Amor — aquele Amor de que todos os homens necessitam para ser, para viver, para resolver os seus problemas, para chegar à verdadeira e autêntica felicidade. Mostramos o Amor que é fonte de verdadeira comunhão.

Grande é a graça, irmãos, de poder olhar com os nossos olhos o Pão Eucarístico, e de contemplar o Deus morto e ressuscitado a dar-nos a vida. Grande é a graça de receber Deus nas nossas mãos, na nossa boca, no nosso coração: sim, Aquele que tudo criou e que nos criou a nós, num acto único de amor, está ali, nas nossas mãos, na nossa boca e no nosso coração. E pede que o comunguemos. Que o deixemos ser um connosco. Pede que O façamos nosso. Melhor: pede que a nossa vida seja sua, inteiramente sua.

E pede-nos, hoje, que o seu anúncio e as suas acções possam estar próximos, e interpelar, convidar — hoje como na Galileia de há 2000 anos — a todos aqueles que ainda não se encontraram com Ele, mas a quem Ele não desiste de procurar, de encontrar, de amar.”