Os partidos querem mesmo saber as razões da abstenção?

icon-henrique-correia-opiniao-forum-fnQuerem mesmo saber as razões que estão subjacentes aos elevados níveis de abstenção? Querem mesmo saber as razões que levam os cidadãos a um completo alheamento destas eleições europeias? Estas e outras. Querem mesmo saber o que pensam as pessoas, o que pensam mesmo, não é o que dizem, sobre os candidatos e a forma como os partidos continuam fazendo a campanha, à moda antiga, mas com uma diferença, agora têm agências de comunicação para comunicarem como sempre, ou seja muito igual, normalmente mal, sem qualquer criatividade? Não sei se os partidos querem mesmo saber, acho que não querem nem convém mexer muito nisso, não vá começar a saltar as insuficiências com o “escarafunchar” da coisa.

Na realidade, esta estratégia utilizada pelas forças partidárias, naquilo que se prende com o esclarecimento da população, esclarece muito pouco. Esclarece nada para sermos mais rigorosos. Quem sabe já sabe. Quem não sabe, ou não quer saber mesmo, ou faz um esforço para saber o mesmo, ou seja nada, em função das inúmeras iniciativas que não passam de reuniões com associações, para dizer sempre a mesma coisa, ou de ações de rua onde a simpatia vale uma coisa e o voto vale outra.

Não há nada de criativo e de formativo ao mesmo tempo, já se fazia isto há vinte ou trinta anos, onde os partidos andavam pelas ruas e pelas associações. Se era na banana, prometiam defender o produto na Europa, se era na pobreza prometiam maior justiça social. Entretanto, passava o dia das eleições, a banana continuava com as mesmas dificuldades e as assimetrias sociais também. Uns apontavam crescimento, como continuam a apontar, outros apontavam desinvestimento, como continuam a fazer, variava conforme se estávamos perante quem era Governo e quem era oposição. Está praticamente igual, tirando a circunstância de haver menos comícios e menos “acampamento” nos adros das igrejas. Neste particular, está mais suave.

As agências parece que estão aí, mas só demos por elas quando alguém criticou um candidato, que não era bem essa a função que se pedia. Não se sabe se é uma inovação para fazer “escola”, se estão a reservar-se para as Regionais, mas convinha que as agências de comunicação trouxessem também alguma coisa inovadora de comunicação. É para isso que são contratadas. Pelo menos prefiro pensar que é para isso…

Claro que estas dificuldades para fazer passar a mensagem agravam-se quando estamos perante eleições que, por norma, não são apelativas para as pessoas, na generalidade, apesar da sua real importância, como se comprovam os níveis elevados de abstenção, registados em atos anteriores. Por erros de análise, por um lado, por pensarem, erradamente, que a Europa é algo distante e que tem pouco a ver com a Madeira, mas também por erros de proximidade entre eleitos e eleitores, que durante a campanha assentam a estratégia de “rédea curta”, sufocante por vezes, entediante outras, mas que durante o mandato praticamente não existem além das comunicações gerais, normalmente herméticas, exaustivas e sem capacidade comunicativa. Este é um problema, além de outros.

Por tudo isto, não é de estranhar que no próximo domingo, as pessoas optem por outros programas. Fazem mal, mas não há volta a dar, é assim. Enquanto os partidos não se reinventarem na estratégia de comunicação, enquanto não falarem menos e comunicarem mais, todo o mandato, dificilmente poderemos alterar este “divórcio” quase crónico entre os eleitores e as eleições europeias, além obviamente de já pouca gente acreditar naquilo que dizem os candidatos, em função da descredibilização de alguma classe política e do excesso de partidarização da vida política portuguesa, resolvida nos partidos quando deveria ser resolvida no País. É uma questão geral, como diz o povo, às vezes “paga o justo pelo pecador”.

Mesmo assim, compreendendo que a falta de inovação e de criatividade possam constituir óbices à procura do voto por parte do eleitorado, é importante que as pessoas estejam sensibilizadas para a relevância do seu contributo para a democracia, que se traduz de forma mais direta no voto. Não é mera retórica, é mesmo importante votar, independentemente da escolha que cada um venha a assumir.

É preciso que os eleitores estejam suficientemente capacitados pelo menos para o entendimento que a abstenção pode abrir portas a projetos de consequências irreparáveis, radicalismos que começam a florescer na Europa precisamente fruto da ausência de decisão por parte de muitos cidadãos quando são chamados a exercer o seu dever e o seu direito e ficam-se pela praia. Exemplos não faltam. Hoje e no passado.

Cada eleitor deve ser mais inteligente do que os partidos nesta luta pela democracia na Europa e que às vezes confundem com outras lutas para primárias ou secundárias de outras eleições. Lutar pelo País acima de tudo. Pelo futuro do País. Depois, vêm aí outras “guerras”.

Cada cidadão, por si, deve ser consciente, participar votando. E nunca esquecendo que uma não decisão pode também decidir muita coisa!

Depois não se queixem…