Bloco de Esquerda: Marisa Matias alerta para o “assalto” da Europa às pensões

Fotos LR

“A União Europeia está mesmo a preparar um assalto às pensões”. Palavras da eurodeputada do Bloco de Esquerda, Marisa Matias, que se recandidata a um novo mandato e que esteve hoje na praça do peixe do Mercado dos Lavradores, juntamente com a coordenadora nacional, Catarina Martins, o coordenador regional, Paulino Ascensão, e o candidato a eurodeputado pela Madeira, Rui Ferrão.

A temática foi central às intervenções dos dirigentes e candidatos bloquistas, numa lógica dos benefícios da gestão pública versus os vícios da gestão privada e da banca europeia. “Ainda há pouco tempo ouviram Cavaco Silva a defender a reforma aos 70 anos”, criticou a candidata, apontando que não faltará muito para que se defenda que as pessoas trabalhem até morrerem. No seu entender há que responder a isto para dizer que a sustentabilidade da Segurança Social é apenas compatível com trabalho, com direitos.

“As pessoas não confiam nos sistemas privados para proteger as suas finanças. É como pôr a raposa a guardar o galinheiro”, apontou, garantindo que “o que a União Europeia quer é atacar os nossos sistemas públicos de segurança social, de pensões, e pôr o bancos a apostar as nossas contribuições nos mercados financeiros. Tudo isto com o dinheiro dos nossos impostos”, denunciou.

Já antes, Catarina Martins apontara, por seu turno, que Portugal “é um país muito pobre e desigual, e na Madeira a desigualdade é ainda maior e a pobreza faz-se sentir ainda com mais força”. Resultado, queixou-se, dos sucessivos governantes que não protegeram as políticas públicas para garantir salários e pensões dignas, as escolas e o acesso à saúde de que precisamos. Aspectos que prejudicam sempre quem já está mais frágil. Os negócios ruinosos que referiu, se fizeram no país e na Madeira, “cavaram mais fundo esta desigualdade”.

A promiscuidade dos sucessivos governantes da República e da Madeira com “o sistema financeiro, as privatizações e os oligopólios”, salientou, prejudica sempre quem tantas horas trabalha mas “chega ao fim do mês a contar os tostões”.

Mas, avisou, “não se enganem: se é assim na Madeira, se é assim na República, este é também o problema da União Europeia”. Por isso, apelou à união dos trabalhadores, “quem constrói este país, e não quer continuar a alimentar os banqueiros irresponsáveis da Madeira, de Portugal, e da Europa”.

Catarina Martins referiu-se indirectamente ao Centro Internacional de Negócios da Madeira quando apontou, na senda de Rui Ferrão, que nada nos deve envergonhar mais do que atribuir benefícios fiscais quando nem sequer pomos como condição a criação de emprego. “O investimento que interessa à Madeira é aquele que cria emprego, e que paga salários”.

Relativamente às pensões, “para quem contribuiu toda uma vida” ou para quem está a trabalhar e quer ter uma velhice confortável, é um assunto de que, garantiu, “ninguém quer falar”. O BE desde o princípio que apostou na protecção da Segurança Social e no descongelamento das pensões. Denunciou, a respeito, que a direita portuguesa, quando estava no governo da República, “tinha dito à UE que todos os anos os pensionistas teriam cortes”, e o PS, por seu turno, apostava no congelamento das mesmas.

Catarina Martins sublinhou a acção do BE na protecção dos direitos dos trabalhadores, da Segurança Social e das pensões e prometeu que o partido prosseguirá nesse caminho, na Madeira, em Portugal e na Europa. Mas sublinhou que as “pensões em Portugal são baixas de mais” e que é “indigno que tantos idosos tenham de escolher entre o jantar e os medicamentos”.

Referindo-se à notícia de que Pedro Passos Coelho entrará na recta final da campanha do PSD, ironizou: “Talvez seja este o momento em nos vá explicar os cortes que queria fazer de 600 milhões de euros ao ano às pensões, e talvez o PS possa também aproveitar para explicar porque queria congelar 150 milhões de euros ao ano às pensões”.

Rui Ferrão opinou que a Europa é um lugar de democracia, de direitos humanos e de desenvolvimento, mas “a Europa de hoje é autoritária e impõe as suas regras (…) Já não é garantia de democracia”. Pelo que a acção do Bloco no Parlamento Europeu se torna tanto mais importante. Para a grande maioria da população, considerou, o crescimento económico tem sido nulo. Quem tem beneficiado, aponta, são os privados, beneficiados pelos governos. No Parlamento Europeu, disse, urge defender os interesses da Madeira como região ultraperiférica.

Referindo-se à Zona Franca da Madeira, que deveria ser para o benefício de todos, considerou que a gestão privada explica a falta de criação de emprego, pois aos privados “não interessa pagar melhores salários nem criar mais emprego”.

O coordenador do Bloco na Madeira, Paulino Ascensão, lamentou todos aqueles que foram obrigados a emigrar sem tal quererem, por não terem empregos suficientes nem futuro na sua própria terra. Lamentou também aqueles que colocaram a Madeira na “bancarrota”, dívida que ainda continuamos a pagar e que nos prejudica seriamente a economia. Graças a tantos investimentos bem feitos, lamentou, é que há tantos madeirenses em risco de pobreza. Há a ideia de que só os privados é que sabem gerir as coisas, pelo que tantos responsáveis políticos passam a si mesmos um atestado de incompetência, transferindo tantas e tantas responsabilidades para os privados. Porém, alertou, a “qualidade” da gestão privada ficou recentemente bem à vista, com o caso do investidor Joe Berardo, “exemplo acabado de superioridade dessa gestão”.

“Tão amigos que eles eram Jardim, Horácio Roque e Berardo”, ironizou, lembrando o descalabro da banca lusa.

Houve também palavras para mimosear o professor que era vice-presidente do Sindicato dos Professores da Madeira e que se demitiu porque Jardim foi convidado para a inauguração da nova sede da estrutura sindical. “Ora, esse professor é o actual presidente da Câmara e não poupa esforços para aparecer em fotografias ao lado do mesmo Jardim. É estranho, não é? Mas quem mudou não é Jardim, esse é o mesmo”, frisou Paulino Ascensão.