“Bernarda” em cima de Berardo

icon-henrique-correia-opiniao-forum-fnNão, não é só um trocadilho de palavras. As declarações de Joe Berardo, o comendador madeirense que foi ouvido na Assembleia da República, com o País a ver e a ouvir, na comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos, provocaram uma autêntica “bernarda”, que é como quem diz “revolta”, numa opinião pública que nos últimos tempos até já começou a habituar-se a estas situações resultantes da gestão bancária. Ou da falta dela. Enquanto os reguladores assobiavam para o lado e os tribunais vão analisando e reanalisando por entre papelada que nunca mais acaba. O País ouviu, o País indignou-se, o País riu-se, o País conforma-se, mais dia menos dia, é uma questão de tempo até à próxima indignação. E assim vai o País, devagar, devagarinho, seguindo para um abismo de caráter e todos os dias dando um passo em frente.

Para falar a sério, não esperava grande coisa desta audição. Para dizer a verdade, não espero grande coisa deste tipo de audições, em termos de responsabilização e de apuramento das verdades. Vale pela exposição pública, uma vez que ali, daquela forma publicamente apresentada, não se pode esconder o que está à vista. Quem não tem, não pode mostrar que tem. Vá lá que estas audições parlamentares têm esse mérito, que vale para quem é ouvido, mas também vale para alguns deputados, muitos deles vão para ali como se fossem para uma conversa de café.

O problema não é Berardo não ter o dom da oratória e não encadear o discurso, como quem tem o dom faz, de forma fluente, ou seja “embrulhar” os portugueses com elegância, passa melhor e alguns portugueses até gostam disso. O problema, neste caso concreto, é mesmo a falta de oratória aliada à falta de bom senso, o que, como se viu, dá uma mistura “explosiva” . Não dá para acreditar o que ali foi dito, para mais agora que podemos puxar as declarações para trás e ver quantas vezes quisermos, acompanhado por gestos, palavras e omissões, além das emissões proporcionadas por momentos de profunda tristeza. Não sei se o País riu por causa do que Berardo (não) disse ou se riu de si próprio, enquanto País que permite isto. Acho que foram as duas coisas. Descrever o que se passou será, sempre, insuficiente, para expressar o que se passou. Só visto. E mesmo assim…

A questão fulcral não tem nada a ver com situações de formação académica nem com dificuldades de expressão, apesar de, cá para a gente, não se perceber isso em algumas situações tão elementares, mas vá lá, damos de barato que haja dificuldades, não é caso único. Mas a questão fulcral esteve na atitude, na forma como conduziu a abordagem da dívida, um descalabro, uma forma tão primária de explicar o inexplicável. Comprou ações, estabeleceu com o banco o limite de responsabilidades e quando chegasse a esse limite o banco vendia. Logo, a culpa é do Banco. Uma prática bonita, sim senhor. O Banco empresta, se as ações subissem, Berardo ganhava, se as ações descessem o Banco evitava prejuízo… vendendo a tempo. Um “bonito serviço” como diz o povo. Estamos bem entregues. Nem é preciso saber mais, podem fazer todas as audições que quiserem. E anda tudo a passear na rua. Incluindo o Banco do Estado e a regulação.

O que não se percebe mesmo nada é que, consciente de uma audição destas, da relevância institucional e respetiva exposição pública, ou não estando consciente fosse, no mínimo, colocado ao corrente dessa consciência pelos assessores jurídicos e outros, não estivesse minimamente preparado para dar resposta sobre o que era mais primário. Com uma exposição destas, não passa despercebido a ninguém que até uma simples palavra “exposição” ficasse difícil de dizer.

Claro que o assessor jurídico que o acompanhou na audição teve uma tarefa complexa, não se sabe se fez o trabalho de casa, mas se o fez o “aluno” apreendeu e aprendeu pouco. Nem sei se, em consciência, estaria preparado para aquilo. Foi excessivo. Em tudo.

Falar não é o seu ponto forte. Mas isso não é importante. Podia superar essa menor fluência de expressão com outras qualidades, falando com seriedade e mostrando isso, dentro do princípio que “à mulher de César não basta ser séria, tem que parecer”, não rir, não fugindo às questões e sobretudo não tendo o desplante de dizer “eu cá não tenho dívidas”. Assumia a dívida, de forma transparente, para Portugal ouvir, mantinha a estratégia de dizer que estava em negociações com a CGD por razões que se prendem com condições contratuais, aqui até com idênticas ou maiores responsabilidades para a instituição bancária e seus gestores, que permitiram essas arbitrariedades, normais na altura, na linha que a Banca utilizava de ser fraca com os fortes e forte com os fracos. O que ainda acontece em parte, não acontece mais porque já foram tantos os casos que poucos arriscam.

Nem os gestores que emprestam dinheiro sem critério, nem alguns investidores que investem o dinheiro concedido pelos gestores, dinheiro que nem é de uns nem de outros, estão a salvo desta cumplicidade que, no mínimo, deixa muitas dúvidas. Fica a sensação, para não dizer certeza, que o cidadão comum é o único que trabalha com o seu dinheiro. Paga o que é seu e o que é dos outros. Pede emprestado mas paga que se farta, se não pagar fica sem nada no dia seguinte. E ainda pode ir preso, o que não acontece com todos. Aqui não há limite de responsabilidade. Por isso é que para o cidadão comum, fica mais difícil, assim, fazer dinheiro.

E esta ideia que começamos a ficar que quanto maior é o envolvimento financeiro, menor é a responsabilidade, a que corresponde maior responsabilidade a quem tem menor envolvimento financeiro, coloca a confiança nas instituições muito por baixo, com os riscos daí inerentes no que toca à reação dos cidadãos face a esta suposta cultura da impunidade.

Ponham ordem nisto para não vir “bernarda” maior.