O dia (20) na vida de um jornalista: “Não se esqueçam de trazer as botas de água”

Celso Gomes: “Não me esqueço da imagem estranha que foi ver diversos produtos oriundos do supermercado a boiar pela rua”.
A primeira página do então Jornal da Madeira do dia 20 de fevereiro de 2010 já dava conta da preparação das entidades face às previsões de mau tempo. Ninguém pensava que fosse tanto.

Celso Gomes, jornalista, viveu por dentro o 20 de fevereiro de 2010, enquanto cidadão e enquanto profissional. Foi um dia daqueles que ficam marcados para a vida. É esse depoimento, na primeira pessoa, que hoje o Funchal Notícias publica, num dia em que passam nove anos desde a tragédia que deixou o Funchal “mergulhado” na lama, o Funchal e a Ribeira Brava mais, mas também um pouco por toda a ilha, com episódios que ficaram gravados na memória coletiva de um povo.

Aqui fica, pois, o testemunho de vida, naquele dia 20 que o Celso Gomes começou a “sentir” a 19:

“Falar do 20 de Fevereiro de 2010 obriga-me, forçosamente, a viajar até ao dia anterior, 19… estava eu, então, de serviço, na redacção do Jornal da Madeira. Na altura, tinha as funções de jornalista e editor.

Recordo-me que, na manhã desse dia 19, fui incumbido de ouvir os presidentes de Câmara com o intuito de saber como andavam os preparativos nos 11 concelhos da Região, em virtude do aviso de mau tempo previsto para o dia seguinte. Nesse âmbito, nunca esquecerei a conversa que mantive, então, com o Dr. Bruno Pereira, na altura, vice presidente da Câmara do Funchal e responsável pela coordenação da Protecção Civil. A apreensão era mais do que evidente.

Fiz as auscultações e escrevi o texto que acabou com chamada à primeira página no dia seguinte. Ao sair nesse dia da redacção, e porque estava com a edição do dia seguinte, virei-me para os colegas que estavam de serviço comigo no dia 20 e disse em tom de brincadeira qualquer coisa como “não se esqueçam de trazer as botas de água”…

Mal sabia eu…

Nesse dia 20 cheguei ao Funchal pouco depois das 8 e 30. Estacionei o carro no Parque Almirante Reis e dirigi-me, como sempre fazia, rumo à Fernão Ornelas, usando a Rua D. Carlos I. Ao chegar junto ao Restaurante “O Almirante” comecei, desde logo, a aperceber-me de que seria mais do que uma simples chuvinha. A água turva da ribeira começava já a transbordar naquela zona para a via pública.

Decidi voltar para trás, para o parque, por forma a mudar o carro. Deixei-o no piso de entrada e, receoso, optei por levá-lo para o piso 3. Estou a acabar de estacionar e, ainda dentro do parque, vejo um condutor já em pânico a passar por mim e a enfaixar-se contra um dos pilares, já que o piso estava muito escorregadio. Não se magoou, felizmente.

Vou descendo e apercebo-me que o rosto das pessoas está mais apreensivo. Retomo o caminho, só que ao chegar junto ao Almirante, deparo-me com uma ribeira a verter cada vez mais e eis que chega, arrastado pelas águas em fúria da ribeira, um tanque velho e enferrujado para armazenamento de combustível…

Temendo que pudesse estar com algum produto, toda a gente começa a afastar-se… Lembro-me de pegar no telefone e ligar para a Antena 1 Madeira que, por essa altura, dava já conta, em pequenos espaços informativos, de alguns problemas em alguns pontos da cidade. Expliquei a situação naquela parte da baixa para que pedissem às pessoas para evitarem circular por ali.

Entretanto, eis que chega até mim uma viatura do Jornal. Junto-me ao nosso condutor Ricardo Abreu e ao fotógrafo Duarte Gomes e seguimos até junto do “Story Centre”, na Zona Velha e subimos por uma das artérias ali existentes em direcção ao Liceu. Tudo isto já com a água a dar pelas portas do carro, uma vez que o ribeiro da Nora estava com um enorme caudal e a encher esta rua.

Os meus colegas de viagem seguiram para os lados de Gaula e eu fiquei junto ao Liceu, procurando chegar à redacção do Jornal, por forma a coordenar as acções junto com a restante equipa.

Perante a impossibilidade de seguir pela Rua do Hospital Velho, subo até ao Comando da PSP. Aqui, alguns agentes já aconselhavam as pessoas a subirem ainda mais, para o Campo da Barca. Sigo então para o edifício da antiga Secretaria Regional do Equipamento Social onde um número considerável de pessoas assiste de forma preocupante à forma como a água transbordava a ribeira e invadia o posto de combustíveis que ali existia e que, mais tarde, como todos sabemos, acabou mesmo por ser levado pela fúria da aluvião.

Antes disso, decidi subir e atravessar a ribeira usando a ponte da Cota 40. O cenário lá de cima era impressionante. Fiz aí as minhas primeiras fotos e videos do que se estava a passar. Passei o túnel e desci a artéria junto ao Museu Henrique e Francisco Franco. A água tomava conta da estrada, fruto também do enorme caudal que vinha do lado da Pena. Por esta altura, já o túnel da Cota 40 junto à Francisco Franco estava intransitável, transformado numa espécie de largo.

Atravessei a Rua João de Deus, passei em frente à Francisco Franco e desço pela Rua das Hortas, sempre com os sapatos mergulhados em água e ao som de inúmeros alarmes que disparavam um pouco por todo o lado.

Finalmente, chego ao cruzamento da Fernão de Ornelas com a Rua do Carmo cerca das 10:30 horas e olho em direcção à Ribeira de Santa Luzia. O cenário era o mesmo… A água galgava as paredes da ribeira e invadia as ruas circundantes, nomeadamente, a Rua do Seminário.

Entrei no Jornal e comecei a dar as primeiras ordens de serviço aos colegas (eram ainda poucos, pois estavam todos com dificuldades em chegar). Perante as dificuldades, a decisão foi rápida: “onde quer que estejam, façam reportagem. Enviem textos por e-mail e fotos. Tentem deslocar-se o mai que puderem”.

Assim foi. Até que, por volta das 12 horas, chegou a hora mais dolorosa para todos nós, os que se encontravam na redacção. Alertados por gritos de pânico vindos da Rua do Seminário ( a redação tinha as janelas viradas para essa rua), acabamos por nos inteirar que a água subia de forma alarmante, sendo que o Pingo Doce estava já mergulhado em água. Não me esqueço da imagem estranha que foi ver diversos produtos oriundos do supermercado a boiar pela rua.

Entretanto, alguém entra na redacção alertando que a cave do Jornal, onde funcionava a publicidade, a informática e o arquivo, estava submersa. A água entrava por trás, via Rua do Seminário, e pela porta da frente, Rua Fernão Ornelas.

Contactados os responsáveis máximos, eis que dou a “ordem” para que todos saíssem da redacção.

Saímos à rua já com água bem acima dos tornozelos. Atravessamos a estrada e ficamos à porta da antiga Peugeot a ver a água a entrar, com o caudal cada vez maior e a altura da água sempre a subir, dado o declive da rua e tendo em conta que no final desta, a água já não escoava.

Acabamos por receber ordem para nos dirigirmos para a Ribeira dos Socorridos, para as instalações do Liberal que, entretanto, cedeu-nos um espaço para trabalharmos.

Naquele novo “quartel-general”, eu e a chefia de redacção que entretanto foi chegando fomos recebendo textos, fotos e testemunhos daquele que foi um dia que jamais esqueceremos. Acabei por não levar as botas que tanto recomendei aos colegas, e ainda hoje, acabamos por brincar com essa situação. Um dia que nos marcou a todos. Ao fim desse dia, toda a equipa do Jornal, mesmo os que estavam de folga, colaboravam no envio de material diverso de reportagem. Desdobrávamo-nos em directos para a rádio, num autêntico corrupio de reportagens. No final, ficou o orgulho pelo trabalho que apresentávamos, numa das primeiras páginas que mais nos marcou.

Eu, pessoalmente, confesso: em todo aquele tempo posterior ao 20 de fevereiro, nunca cheguei a ver o estado em que ficou o nosso Funchal. Foi uma decisão minha. Recusei-me a ver aquela destruição. Tudo o que vi foi em fotos dos nossos repórteres fotográficos. O meu carro ficou no parque de estacionamento quase uma semana. A entrada e a saída do parque ficaram bloqueadas por pedras, lama e troncos”.

Funchal, 20 de fevereiro de 2019