O artista madeirense Hugo Brazão apresenta a sua mais recente exposição individual no espaço do projecto Las Palmas, em Lisboa. Nascido em 1989, este criador formou-se pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa em 2013, tendo prosseguido estudos artísticos em Londres, na Central Saint Martins University of Arts. Distinguido com o prémio ibero-americano de artes visuais VIA no Reino Unido em 2018, Hugo Brazão apresenta actualmente a mostra “Take Ten” no espaço supracitado, sobre a qual escreve Carolina Forjaz Trigueiros: “(…) o artista apropria-se da cor das paredes do Las Palmas, como tal fosse propositado para a exposição em questão. Esta dissolução entre o que é uma condição implícita do espaço e aquilo que pode ser uma intenção artística prenuncia as ligações construídas em torno deste tom rosa”.
E prossegue: “Na verdade, um tom muito similar ao das paredes foi cunhado por Alexander Schauss nos anos 70. Schauss estava interessado em analisar a forma como a cor afecta psicológica e fisiologicamente as pessoas, alegando que “este” rosa tinha um forte efeito calmante, terapêutico, capaz de reduzir comportamentos agressivos ou hostis. No decorrer destas pesquisas o tom Schauss pink, P-618, ou devido a este incidente Baker-Miller Pink, foi testado em celas prisionais de um instituto naval correcional em Seattle, Washington, onde – aparentemente – os efeitos benéficos de exposição à cor durante alguns minutos foram comprovados. A tendência alastrou-se por outros espaços (clínicas, balneários, etc), sempre envolta de controvérsia e resultados, por vezes, díspares e pouco claros.
Neste seguimento, encontramos de forma evidente na peça inicial em tecido, a tentativa de chegar à origem deste tom, destas propriedades terapêuticas. Neste caso, ao pigmento natural mais próximo: o vermelho da cochinilha – extraído do corpo seco de fêmeas adultas de cochonilha, que vivem em certas espécies de cactos. Contudo, este processo implica banalizar a morte de milhares ou milhões de insetos que, se por um lado são considerados uma praga, por outro, produzem o famoso ácido carmínico (E-120). Assim, os vários elementos da exposição convergem, contaminam-se, dialogam, mas também contradizem. Entre aquilo que se diz e o que se omite.
Procura-se demostrar o processo artístico envolvido na catalogação de um nome, ou na definição possível que contenha esta cor. Há uma juvenilidade e ironia patente na utilização, por exemplo, de pigmento de calamina num dos trabalhos, aludido às propriedades calmantes do mineral; Sal dos Himalaias noutro, ou ainda, Subsalicilato de Bismuto (ou Pepto-Bismol) – conhecido por tratar temporariamente problemas digestivos. Mas, em todos os casos, o uso a longo prazo ou em demasia pode ter efeitos secundários, tal como uma exposição prolongada a “este” tom de rosa, segundo os testes de Schauss.
Por isso, se tudo está calmo, também tudo parece não o estar. Se o espaço expositivo é metáfora para um lugar pacífico, sereno, de bem-estar, também por nada devemos estar assim tão tranquilos. Tal como a pintura que alude ao Boto-cor-de-rosa, uma espécie de golfinho fluvial, afinal, em vias de extinção. E é este subtexto latente que reformula todas as assunções até agora feitas, que nos interpela. Quando tudo é pacífico podemos deixar de pensar, de ser críticos, de ser abertos. A ansiedade e o entusiasmo, muitas vezes, coabitam (…)”.
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