Depois… queixem-se

A avaliar pelo aparato policial e pelo impacto que o protesto dos  “coletes amarelos” à portuguesa teve na generalidade da comunicação social, avizinhava-se um dia 21 de Dezembro complicado em diversas cidades do país.

A montanha, porém, pariu um rato. E muita gente, a começar pela classe política, mas não só, sentiu-se aliviada com o fiasco do anunciado protesto contra o “Estado ladrão”.

Claro está que há variadas razões que explicam porque é que o movimento dos “gilets jaunes” teve o impacto que é sobejamente conhecido em terras gaulesas e redundou em fracasso entre nós.

Uma tal contestação não nos deve levar, contudo, a concluir que o  insucesso de agora não possa ter outro desfecho em eventuais futuros protestos.

A nosso favor abona a circunstância de, pese embora os sinais de descontentamento perceptíveis, haver em simultâneo um clima de
optimismo cuja prevalência no tempo não é possível garantir com rigor, face às inúmeras incertezas que se colocam no horizonte.

Esse clima de algum optimismo e confiança resulta em grande parte da evolução económica, particularmente do facto de a taxa de desemprego actualmente registada em Portugal – 6,7% –  ser a mais baixa dos últimos 16 anos, muito embora os salários pagos se mantenham baixos e o salário mínimo, de 600 euros, ser inferior em 300 euros ao verificado em Espanha e quase 900 euros menor que o pago em França.

Por outro lado, houve, como é sabido, uma reposição dos rendimentos (salários  e pensões) cortados durante o período da “troika”, o país cumpriu as metas orçamentais e baixou a fasquia do défice de 3% do PIB que se aproxima do zero; saiu do “lixo” nas agências de rating, recuperando a confiança dos investidores e o crescimento do PIB vem sendo superior à média da zona euro e do conjunto dos países da União Europeia, o que significa convergir com a Europa, apesar desse mesmo PIB só este ano é que regressa ao que era há dez anos, como sublinhava o jornalista João Silvestre, num recente Expresso Diário.

Mas, a dívida pública é ainda a 3.ª maior da zona euro, prevê-se que seja de cerca de 118% do PIB no final deste ano e que só na década de 2030 é que poderá voltar ao limiar dos 60% das regras de Maastricht, uma sustentabilidade que depende do crescimento da economia e do valor das taxas de juro da dívida, factores que tendem a suscitar preocupação face à previsão de desaceleração da economia e ao fim do programa do BCE de compra de dívida.

Tudo, aliás, se poderá complicar, atendendo às demasiadas incertezas que pairam no horizonte. Desde as consequências do “Brexit” que não são possíveis de prever, à chamada bolha imobiliária que atinge o país (principalmente em Lisboa e no Porto e nas localidades próximas) e que poderá rebentar, à baixa poupança das famílias e ao regresso em força do recurso ao crédito. Factores de risco que não podem deixar de ser encarados com preocupação, sobretudo porque já se fala de uma nova crise económica internacional, a eclodir precisamente em 2019. E há ainda a incógnita que constitui o desempenho do governo italiano que se evoluir para um afrontamento com Bruxelas poderá abalar seriamente a moeda única, o euro, com as inevitáveis repercussões entre nós.

O nosso país depara-se ainda com uma outra grande vulnerabilidade: o elevado índice de pobreza, situado em 2017 em 17,3%, o valor mais baixo desde 2013, mas que significa a existência de 1,7 milhões de portugueses em risco de pobreza, a que acresce o facto de esse risco se ter agravado em segmentos da população, como os idosos, mas não só.

Ora, a estas debilidades económicas e sociais que são o retrato do país que somos e dos riscos que enfrenta, em particular os últimos anos, vieram acrescentar um outro motivo sério de preocupação – o funcionamento do próprio Estado, designadamente a sua capacidade de assegurar ou não a segurança dos seus cidadãos e das infraestruturas de que dispõe.

Naturalmente que importa não esquecer que deixamos de ser, há bem pouco tempo, um país de Terceiro Mundo.

E não temos o grau de desenvolvimento que outros países foram construindo bem antes de nós. O que significa que não somos
propriamente um país como a Suíça. E embora a memória dos homens seja curta, a queda da ponte de Entre-os -Rios, que provocou dezenas de vítimas, ocorreu há menos de 20 anos, em 2001. Mas, a carga fiscal e contributiva, situada em 37,1% do PIB, reclama que o país sinta no seu todo um grau de segurança que sucessivos acontecimentos vêm revelando não dispor ou não lhe estar a ser garantido como devia e se impunha. Pedrogão Grande, Tancos, Borba, Valongo (queda do helicóptero do INEM) são demasiados casos em tão pouco tempo que não transmitem confiança aos cidadãos por parte do Estado, dado o largo número de estruturas e
organismos que falharam redondamente. E pior do que isso podem desencadear o instalar de um ambiente de receio, se não mesmo de medo entre as populações que o Estado tem o dever de proteger – paradoxalmente num país que é apontado como o 4.º mais seguro do mundo, em matéria de criminalidade.

No âmbito igualmente das responsabilidades do Estado, há uma outra área que vem enfrentando tempos difíceis, que é a da saúde. Os cortes ocorridos no sector durante a intervenção externa a que o país esteve submetido, associados às crescentes necessidades que a procura coloca aos serviços em termos humanos e materiais vai exigir um esforço financeiro que não se vislumbra que o país esteja em condições de assegurar plenamente, dadas as pressões e reivindicações a que está sujeito noutras áreas e por parte de outros sectores profissionais.

A este propósito, é inconcebível que o titular regional da saúde se atreva a afirmar que, aqui e agora, a saúde está melhor do que no
país. Se assim fosse, o número de doentes em lista de espera para cirurgia e para consultas, na Região, teria diminuído e não aumentado, como ocorreu. Ou que tenha o desplante de proclamar que quem recorre aos serviços de saúde não tem “razões de queixa”. É preciso ter lata!

Neste quadro seria recomendável que a classe política não contribuísse com mais achas para a fogueira. Que não desse frequentemente tiros nos pés na sua reputação e credibilidade que, convenhamos, já há muito que deixa muito a desejar.

Mas, não. Pelos vistos, há muita gentinha na política que acha que pode fazer tudo o que lhes dá na real gana. Principalmente participar em esquemas que permitam sacar mais algum “pilim” ao erário público.
Seja arranjando duplas residências, receber reembolsos de viagens em duplicado, marcar presença em reuniões por outrem. E, transmitindo por essa via, a ideia de que estão lá para se servirem, para tratarem da sua vidinha, e não para representar condignamente os cidadãos que os elegeram. E os seus pares, que até poderão não ter “rabos de palha” nessas e noutras matérias desprestigiantes, continuam a não ligar ou a fazer de conta, ao lastro que tais comportamentos vão espalhando e que
se resume na ideia de que eles (os políticos) são todos iguais.  Contribuindo assim com o seu silêncio e com a sua inacção para que a descredibilização da classe política se vá fortalecendo.

E que se regista também no plano regional. Onde, como os factos o comprovam, é sempre possível ir mais além. Depois do deputado que  ficou conhecido como “mijinhas”, há agora o que foge embriagado à polícia e o que se masturba nas redes sociais. E mesmo que num caso (o do PSD), tenha havido a suspensão de mandato e no outro, o do PS, o partido tenha assumido que o acto não punha em causa o desempenho político e parlamentar, o mal está feito. Não há sabão que o limpe. A mancha fica. Se bem que um, o PSD, possa dizer que tentou atenuar o dano, enquanto o outro, o PS, nem isso percebeu.

A verdade é que ninguém tem a casa limpa. E o mesmo PSD até se dá ao luxo de, por um lado, tentar varrer o “lixo”, afastando o deputado, ao mesmo tempo que mantém a directora adjunta de economia, arguida num processo, que, aliás, foi nomeada já se sabendo dessa condição.

E é porque todos sabem que têm os seus “rabos de palha” que não há consequências internas e vão-se amparando uns aos outros. A Dantas com o Abreu. E o Conceição com o Calaça. Tudo boa gente.

Pode é haver, um dia, reacções externas. Em França, foi o preço dos combustíveis que fez despoletar o protesto. Foi a gota de água, num copo que já estava demasiado cheio.

Por cá, não é possível prever o que poderá ser o rastilho. Não se pense, porém, que estamos imunes. Até porque, para além de tudo o que já falamos, há ainda as eleições europeias, particularmente as consequências que poderão advir dos seus resultados, e Trump, esse mesmo, o presidente dos EUA.

Sobre o qual não resisto a transcrever uma pequena parte do texto que Pacheco Pereira publicou no “Público” do passado dia 23 de Dezembro: “Dele (de Donald Trump) vai depender quase tudo o que se passa no mundo em 2019: a crise da Europa, a paz do mundo, a situação no Médio Oriente, a corrida aos armamentos, a contínua ascensão de Putin, a economia global, as instituições como a ONU, a UNESCO, a UNICEF, as agências humanitárias internacionais e a nova guerra cultural contra as mulheres e a comunidade LGBT, a independência e a separação de poderes nos EUA, a politização da justiça e das Forças Armadas, a democracia em muitos países, a democracia nos EUA, de um modo geral o grau de violência que o mundo vai ter sob todas as formas”. E tudo
isto porque (cito de novo Pacheco Pereira): “Trump foi a todas as cloacas da vida que se manifestam nas redes sociais e fê-las correr a céu aberto e inundar mesmo as terras que eram sadias e limpas. Ele é o primeiro político típico do século XXI.”

Preparemo-nos, pois!

* Por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.

Post-Sriptum: 1) O narcisista mor cá do burgo, o trumpista regional continua a procurar vender a ideia de uma governação imaculada. Agora, até quer que acreditemos que a dívida “oculta”, mas não só, que legou foi contraída para produzir apenas obra virtuosa, na saúde, na educação, etc. Esquecendo-se de tudo o resto. Como o desbaratar de dinheiros públicos em obras inúteis, muitas delas já votadas ao abandono, como parques empresariais, centros cívicos, piscinas, etc., etc. Bem como as derrapagens orçamentais que ficaram para a história, de que o exemplo mais gritante é, porventura, o Museu da Baleia, no Caniçal. Oh, homem, quer um roteiro, para recuperar da amnésia?…

2) O dito cujo vai repetindo que não, que não é “candidato a coisa nenhuma”. Mas, já apresenta programa para a Europa e é anunciada a sua presença no próximo congresso do partido que chefiou durante quase 4 décadas. E disfarça tão mal que até já cita Marcelo Rebelo de Sousa que, há anos, disse que envolvência política: “Só se Cristo descer à terra” e que depois fez o que conhecemos. Já agora, vai também trazer por arrasto a demais “brigada do reumático”?

3) Os calotes à Segurança Social na Região repetem-se. E pior ainda, deixam-se passar prazos para reclamar indemnização. Parece que o organismo pura e simplesmente não controla nada. É que a sucessão de casos já tem “barbas”.

4) Os governantes que (não) temos lidam mal com as estatísticas que colocam a nu a triste realidade. Seja a da pobreza ou do abandono e insucesso escolares. O atrevimento é tal que até se questionam coeficientes universais. E para sacudir a água do capote, até o pai da dívida “oculta” diz que a pobreza na RAM é culpa da República.

5) O antigo director regional das florestas não larga o caso da queda da árvore no Monte. Um empenho que não se lhe viu no caso da prova para guardas florestais que culminou em tragédia.