Os Natais da minha infância

Os Natais da minha infância foram vividos em locais distantes, pois  que toda a minha família materna era de Trás-os-Montes e mantinham os hábitos do norte de Portugal, que anualmente se repetia; desde que me lembro eram os natais passados em Abrantes, onde os meus avós estavam a viver, que tinham um encanto e “mistério”, por se reunir toda a família – tios, primo, e velhos amigos de meus avós.

Nos conturbados tempos da II Grande Guerra, pelos anos 39 /40, era difícil irmos à Madeira, daí que rumávamos a Abrantes. O casarão dos meus avós era enorme, situado na actual Rua Grande e tinha nada menos do que uma entrada grande e larga que desembocava numa cozinha igualmente enorme, aos meus olhos de criança.  Dessa entrada, à direita, havia uma escada que nos levava ao 1.º andar e aí havia a sala de jantar, a seguir a sala do piano e a última divisão era o escritório do meu avô (onde não tínhamos, eu e o meu primo, direito de entrar ); havia ainda o 2º andar onde estavam os quartos de dormir e o quarto de banho,  mas  todo o casarão terminava num sótão onde dormiam as criadas . Era na verdade, aos nossos olhos de criança, um autêntico” palácio”.

Na época do Natal, os meus avós reuniam a família, que constava  além dos meus avós e da minha tia mais nova, solteira que vivia com eles, os meus pais e eu, os meus tios e o meu único primo, os meus tios solteiros Alberto, médico municipal no Sardoal, que distava a uns poucos quilómetros e, por vezes, juntavam o meu tio mais velho, que vivia em Lisboa. Muitas vezes aparecia também um casal pela idade dos meus avós e, antes da ceia ou consoada, jogavam o loto. Era hábito ir à Missa do Galo numa das muitas igrejas locais e, mal chegávamos, estava uma canja quentinha e a sala aquecida pela braseira.

Havia ainda um pormenor que a nós crianças nos intrigava: um pequeno elevador que trazia as travessas da cozinha para a sala de jantar. A ceia constava do peru assado com batatas coradas, muita doçaria e apenas me recordo do arroz-doce. Mais tarde, já comecei a gostar das guloseimas natalícias: filhoses, azevias, rabanadas e ainda das lampreias de ovos cobertas da “famosa” palha de Abrantes especialidade da terra, que mais não era do que fios de ovos.

Nunca mais comi comida igual à dessa minha avó Ludovina: a canja com uma folha de hortelã, o caldo verde, os bifes com batatas fritas e ovos estrelados e pedacinhos de alheira, vinda das primas.

A Festa na Ponta Delgada era muito diferente, pois apenas estávamos os meus pais, a minha avó Firmina e eu; havia, ainda, como companhia, a cadela da minha avó, a Miss branca e de pelo muito luzidio e dois gatos igualmente brancos.
Quando lá chegávamos, o forno já estava cozer o pão, para de seguida cozer os bolos de mel rico – receita muito antiga da avó de meu pai, Balbina- já prontos nas pudineiras: No fim ia a galinha a corar,  acompanhada de cuscus, oferta da prima Mariquinhas Jardim, da Fajã, oferta habitual nessas alturas. O velho forno aquecia toda a casa e à  luz dos candeeiros de petróleo comíamos, a apetitosa ceia.

Então, a minha avó fazia também uns brindeiros (bonecos feitos com a massa do pão para as crianças). O jantar constava de dois pratos: sopa de couve, com carne de porco-uma espécie de cozido-com batata doce, pimpinela, inhame, semilha e boganga -, e canja de galinha com ovinhos, que depois de corada no forno de lenha-, e acompanhada de cuscus (arroz não havia senão no Funchal). O jantar terminava com as broas de mel, os bolos de mel, licor caseiro ou com chá de flor de laranjeira, o preferido de meu pai.

A minha mãe fazia o presépio com os pastores comprados no Talassa, no Funchal, a minha avó fazia a escadinha com o velho Menino Jesus no alto e uma cercadura de flores à volta. Não faltavam os frutos da época – laranjas e maçãs, nozes e castanhas. Se o frio não fosse muito, descíamos até à Igreja e íamos à Missa do Galo, era um encanto.
A igreja enfeitada com alegra-campo, as grandes lamparinas do tecto, o Anjo a entoar loas ao Deus Menino, uma lapinha onde não faltavam na gruta a Sagrada Família, a vaca e o burrinho, ovelhas, pastores,  e no fim os três Reis Magos. Os foguetes e as bombinhas estralejavam por toda a parte e anunciavam o nascimento do Salvador.

A Festa, todos os preparativos, os bolos de mel – uma receita do bolo – de -mel rico da avó de meu pai Balbina – as broas de mel que minha avó guardava numa cesta de vime, as bombinhas de rebentar compradas no Talassa, e única vez que meu Pai apenas acendia o cigarro, isso ERA A  FESTA!
Nesses dias, um grupo de rapaziada percorria a freguesia tocando modinhas ao Deus Menino, com machetes, violas, pandeiretas, ferrinhos, rabecão e harmónio.

Era hábito não sair de casa no dia da Festa e até ao fim do ano as famílias visitavam-se para provarem os diversos bolos de mel e os
licores caseiros. Que saudades desses tempos de menina, despreocupados, felizes e sempre à espera dos presentes do Menino Jesus.