Os três pilares da vida na Igreja

A Igreja Católica do Concílio Vaticano II, encarnada e reclamada pelo Papa Francisco, reúne três características (pilares) essenciais: a misericórdia, a sinodalidade e uma Igreja para os pobres. Vamos ver em que medida está a ser aplicado estes elementos na nossa Igreja da Madeira.

  1. No que diz respeito à misericórdia. No discurso e na pregação estamos como naquele momento evangélico, quando os discípulos de Jesus de olhos bem arregalados, recolhiam os doze cestos de peixe e pão, após a milagrosa multiplicação no meio do descampando do deserto, algures nas montanhas da Galiléia. Quer dizer, muito sobra em discurso, mas escasseia em prática. A intolerância Católica domina, a inveja comanda os corações, a maledicência de uns contra os outros alimenta os egos, não sobra tempo para incluir os que vacilaram no caminho, são uns reles pecadores que não merecem nem segunda nem nenhuma outra oportunidade. Pecou morreu para sempre. Não pode ser. A vida não se faz assim com exclusivistas que se acham melhores do que ninguém, autorizados a sepultar os sentimentos e os valores que no meio da miséria podem emergir com luz renovada. Precisamos de uma Igreja misericordiosa, feliz e de bem consigo mesma para levar adiante um plano que contemple a vida inteira com todos os seus contornos e detalhes, sejam bons ou sejam maus.
  2. A sinodalidade. O elemento mais difícil de levar à prática, mas o mais importante, porque com ele realizar-se-á a riqueza desconcertante do Evangelho de Jesus Cristo, o amor ao próximo e a fraternidade. Pediu o Papa Francisco, que este valor fosse vivido por todos os organismos da Igreja. Segundo ele “é impossível tratar o povo de Deus, que foi distinguido pelo Espírito Santo com o sensus fidei, que não se engana, e tem parte na missão profética de Jesus, sujeito meramente passivo a ser instruído por ministros”. A Igreja tem que sair da ideia de que é uma monarquia absoluta, para passar a ser uma fraternidade, onde o dever da transparência passa a ser uma normalidade quotidiana. Ninguém é dono de ninguém, todos por tudo e por todos. Falta-nos esta sensibilidade, para existir verdadeira Igreja vinda do espírito novo que nasceu do Concílio Vaticano II, inspirado pelo Evangelho de Jesus, que este Papa tão bem reclama e encarna. Ele tenta à saciedade experimentar no meio de imensos entraves, naquele Vaticano ensombrado pela poeira secular da teimosia e da «vã glória de mandar»… Os poderes absolutos corrompem absolutamente.
  3. Os pobres. Não significa que tenhamos que ser uma Igreja de pobretanas, sem lugar onde cair mortos. Mas dar azo a uma consciência que ninguém precisa estar fora da mesa do pão. Uma Igreja profética que anuncia e denuncia todos os atropelos contra os mais indefesos. Procura contribuir com a sua autoridade para que as políticas sejam de emprego para todos. Uma Igreja a sério, não permitiria que os governos não fossem justos na distribuição da riqueza, muito menos seria pacífica diante da instrumentalização das populações indefesas ao fazer com elas ações partidárias e eleitoralistas. Obviamente, que na Igreja o serviço aos pobres deve ser primeiramente assistencialista, dando de comer a quem tem fome e vestindo quem está nu, mas depois tem que encaminhar para os serviços que cobram impostos, porque estes devem resolver efetivamente estas carências sociais. Mas o que temos, governos que embarcam no assistencialismo e uma Igreja totalmente silenciada perante a adulteração dos papéis. Pobres sempre os terão, mas podíamos, se a honestidade comandasse as instituições, ver a assunção honesta e verdadeira daquilo que lhes compete realmente fazer, fruto da sua natureza. Jesus reclama tudo isso de forma tão viva e tão urgente neste Natal para todos os dias do ano.