Do Porto Santo ao Santo da Serra -1850

Marcado desde os primórdios, a Ilha do Porto Santo teve sempre grandes dificuldades, devido ao seu isolamento e às condições que neste pedaço de terra existia. Era como se os habitantes estivessem entregues a si próprios, num sobressalto constante e com vista aos dias de chuva, para que, com recursos bastante limitados, tivessem na terra a solução para o combate à fome.

Podemos recuar 168 anos para ver que, de facto, as adversidades no Porto Santo eram bem significativas, ao ponto de ter de se mobilizar os habitantes para terra de onde as condições fossem mais fiéis ao bem-estar de todos.

Vista parcial do Porto Santo, a partir do Pico de Ana Ferreira.

Estariam os Porto-santenses preparados para mudar de território?

Os apoios do Reino e da Madeira, na época, eram escassos ou nenhuns, pelo que os habitantes viam na terra uma fonte de rendimento ao longo de séculos, tendo sido, para além do Mar, a única forma de matar a fome a muitas crianças e adultos, visto que, infelizmente, segundo registos, a falta de vegetais, devido à falta de chuva, teria um impacto bastante negativo.

Trabalhos do campo, neste caso a vindima.

“Está a chover – MILAGRE!”

A falta de diversidade de alimentação era causa de mortalidade infantil, o que tornou este povo, um povo mais resiliente e mais forte nas árduas tarefas diárias. Quando chovia, a alegria estabelecia-se na ilha, pois permitia ver ao fundo do túnel uma luz de estabilidade, quer nas famílias quer na população em geral.

Em 1850, depois de um longo período de seca, por falta de chuva, a população não teve alternativas senão receber as ajudas do Reino, com o envio de cereais, bem como outros mantimentos, esperando dias melhores no “nosso grande pequeno” território.

Para além das ajudas nos mantimentos enviados pelo Reino, houve uma tentativa de “deslocar” a população do Porto Santo para a Madeira, neste caso, para o Santo da Serra, tendo sido mesmo concretizado o transporte de 300 pessoas (aprox.) para um lugar desconhecido e com condições climatéricas bem diferenciadas daquelas que a população estava acostumada.

 

Do Porto Santo ao Santo da Serra!

Numa terra onde a palavra “Milagre” era proferida quando chovia, onde olhar o horizonte à procura de nuvens carregadas de água era uma constante, teriam no Santo da Serra uma alternativa que, em pouco tempo, deixou de ser uma alegria para esta pequena comunidade.

O regresso ao Porto Santo foi inevitável, pois a comunidade que daqui saiu com esperança, rápido se esmorecera com a falta de adaptação num lugar muito húmido e muito frio, pelo que, preferiam passar alguma fome mas permanecendo em suas rotinas ao invés de se moldarem a um local “obscuro”, pelo nevoeiro.

As adversidades permanecem na memória social dos Porto-santenses que, nos dias de hoje, recordam essas vivências e dificuldades que esta Ilha outrora presenciou. De geração em geração, são alcançados os testemunhos que durante séculos a fio foram vividos, sentidos e sofridos por uma população deixada à sua sorte e ao seu “destino”, quem para ele olha e acredita – PORTO SANTO.

Desembarque feito no areal da praia do Porto Santo com esforço humano.

Num ano em que o Porto Santo é parabenizado pelos seus 600 anos, é relevante realçar o sangue forte de uma população que nunca desistiu das suas origens, da sua “raça” e da sua vontade de querer ver um pedaço de terra à deriva ser a pedra angular dos Descobrimentos Portugueses e ser-lhes fiel na história que perdurará eternamente.