Fugir ao cárcere prometido

Sem que estejamos sintonizados, digamos assim, preparados ou suficientemente atentos, em cima dos cidadãos, em qualquer parte do mundo, sempre poderá cair, sem piedade, de unhas afiadas e um inconfessável desejo de poder banhado em sangue, um qualquer 28 de Maio a preparar salazares, uma sinistra contenda, como a de 36/39, a erigir francos, um tenebroso 21 de Abril a vitoriar coronéis, um ameaçador 11 de Setembro a consagrar pinochets.

Estas ligeiras mas sentidas referências à cronologia de algumas das mais impressivas ditaduras – e não é, sequer, relevante a insistência, ou não, no rótulo que ostentam – a que a memória vai recorrendo num saudável exercício de combate ao esquecimento, em Portugal, em Espanha, na Grécia ou no Chile são feitas, aqui e agora, com a ideia de afirmar de forma sublinhada que, historiadores que não somos e, portanto, pouco atentos àquelas que poderão ser as causas remotas ou próximas de tão infaustos e violentos momentos da vida colectiva, são alheias à vontade, à razão própria, à acção consciente de cada um e de todos, remetendo a responsabilidade total para os ideólogos, mandantes e autores dos crimes a que se propuseram e concretizaram contra a liberdade e os mais elementares direitos dos cidadãos. Expandir-se-iam exemplos como aqueles, e piores, sempre possíveis, até ao insuportável, mas interessa sobretudo, penso, consolidar o pressuposto da discordância popular, da não colaboração, da não conivência, da submissão forçada, da repressão que lhe é imposta, dos direitos que lhe são subtraídos, do zero em que é transformada.

A segunda volta das eleições presidenciais no Brasil é já no próximo dia 28 de Outubro e, segundo as notícias que nos vão chegando, o candidato fascista, um tal Bolsonaro, terá praticamente assegurada a sua eleição para o Palácio do Planalto, o palácio presidencial, de onde, do cimo da carroça, como tem acontecido durante a campanha eleitoral, exercitará a completa falta de respeito pelas pessoas, o seu notório racismo, a marginalidade patológica que exibe, a intenção criminosa que ostenta, a amoralidade que propagandeia, os preconceitos hediondos que publicita com orgulho, a discriminação sexual que ameaçadoramente promete, o classismo arrogante de que quer mostrar ser titular, o desprezo pela vida humana que jura levar às últimas consequências e, tudo isto, por vontade expressa de uma significativa maioria de eleitores brasileiros que, por desinformação, distração ou seguidismo cego, surpreendentemente, parecem apostar nas prisões, na ausência de direitos, na supressão da liberdade, na denúncia, no arbítrio, no ódio, na vingança, no horror, no medo, na perseguição, na censura, na tortura, no sangue, na morte, nos algozes.

Estou, naturalmente, preocupado pelo que pode acontecer no Brasil mas, sobretudo, com os brasileiros; não porque sejam meus irmãos, que não são, mas porque são pessoas e, como todas as outras, – citando de memória o art.º 1.º da “Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão”, de 1789, “Todos os homens nascem e permanecem livres e iguais perante a Lei…” -, numa democracia e num estado de direito, são credoras de respeito pelos direitos de que gozam, inerentes à sua condição, e tratados de acordo com as maiores e mais relevantes características da lei, quais sejam, a universalidade, a generalidade e a abstracção; é, também isto, o que está em causa no próximo Brasil político e social, – observável a partir de Domingo pela noite dentro -, a que se deve acrescentar a imagem, inevitavelmente afectada no plano internacional, sob todos os pontos de vista, por uma ditadura dos poderosos, ironicamente contra todos os que lhes outorgaram, em sede de exercício democrático, esse gigantesco e incontrolável poder.

Em pés-de-lã, disfarçado de um populismo que parece tolerado pela democracia e por ela vigiado, o fascismo ganha vigor e vai fazendo o seu descarado e provocador reaparecimento, não hesitando na publicitação festejada das suas imagens de marca, dos seus slogans e das suas tenebrosas características identitárias, aproveitando todos os oportunismos de que alguns sectores da política e da sociedade, nomeadamente a comunicação social, um pouco por toda a parte, se vão servindo com o intuito de que se desvalorize o ameaçador fenómeno, se relativize a sua importância e se continue, para gaudio de alguns, a zurzir a democracia, as suas instituições e os seus intérpretes, de forma perversa, premeditada, reflectida e calculada.

Numa das suas excelentes crónicas na imprensa portuguesa Alexandre O’ Neille conta que uma parente sua que o queria reconverter ao Catolicismo passava a vida a dizer-lhe: “Alexandre, não penses. Se começas a pensar estragas tudo. A crença em Deus, se, em vez de pensares, reaprenderes a rezar, vem por si. É uma graça, sabias? Vá, reza comigo.” Se me fosse permitido o atrevimento de sugerir aos eleitores do Brasil, e para o Brasil, uma atitude que corrigisse a distração a que parece terem-se entregado, ou a (des) informação que elegeram como boa, ou, ainda, a incomensurável intoxicação de que foram alvo, sugerir-lhes-ia que pensassem bem, que avaliassem os riscos de um voto que tem tanto de atrevido como de irrevogavelmente perigoso e então sim, de posse de uma vontade informada, cuidada e realista, não hesitaria na certeza de que, com alma e determinação, seriam parte decisiva do reacender da democracia e do que ela exibe de mais nobre: a liberdade!

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Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ortografia.


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