Agost’arte


Qualquer mês é sempre, mais do que, propício para assistirmos ou envolvermo-nos ativamente com o diversificado universo artístico que temos ao nosso dispor, um pouco por todo o lado.
No entanto, é com um misto de espanto e angústia, que fico, quando visito uma localidade, vila ou cidade, durante o mês de agosto e deparo-me com a maioria dos espaços culturais fechados, ou então, só abertos de forma parcial para visitas guiadas. Refiro-me, nomeadamente, aos auditórios de espetáculos de palco, aos teatros nacionais, municipais ou independentes.
Infelizmente, a maioria das companhias de teatro, dança, música, não têm um programa disponível, para o público interessado em assistir a uma performance artística, nas salas de espetáculos, durante o mês de agosto. Pois as temporadas artísticas das estruturas e grupos culturais, na sua grande maioria, decorrem de setembro a julho. Sim, os artistas, diretores, gestores, programadores, assessores, curadores e todos os outros membros envolvidos com os espaços culturais, também têm, e de que maneira, o direito às merecidas férias, no quente mês de agosto. Mas alguns turistas que visitam essas cidades e outras localidades, também gostariam, certamente, de conhecer um pouco mais sobre a cultura artística dessas zonas, usufruindo dos trabalhos performativos de algumas companhias artísticas residentes. Mas em agosto a oferta é praticamente inexistente. Talvez os grupos que recebem subsídios de diversas entidades públicas, – há uns que rebem mesmo a treplicar, independente de terem muitos ou poucos elementos; muitos ou poucos espetáculos; bons ou razoáveis espetáculos – deveriam ter a obrigação de oferecer alguns espetáculos em agosto, para se colmatar, em parte, esta situação. Mas pronto, bem sabemos que não é fácil agradar em tudo e a todos. E ainda bem que, felizmente, não concordamos todos com o mesmo, pois a criação artística, quer mesmo é a diversidade de opiniões.
Julgo que todas as localidades, vilas e cidades, que vivem em grande parte do impacto do turismo, têm que ter um maior interesse e cuidado, em disponibilizar uma melhor oferta cultural o ano inteiro, onde se inclua, também, intervenções de artes performativas nos espaços apropriados para o efeito. A verdade é que muitas cidades e vilas por esse país fora, não têm essa oferta cultural disponível. É caso para questionar: mas por que razão, é que temos que ser iguais aos outros, que também não têm essa oferta cultural específica, durante o mês de agosto? Não temos que realmente ser iguais aos demais, mas também é conveniente não esquecer que, por vezes, é na diferença que está o ganho.
Em caso de tempo de férias, no mínimo, artisticamente, há que aproveitar este oitavo mês do ano para desfrutar um pouco da cultura disponível nas zonas que frequentamos ou então, por exemplo, aproveitar para ler, afincadamente, aqueles livros que há tanto tempo estão bem guardados ou simplesmente esquecidos – de propósito – numa prateleira.
Enfim, provavelmente, tudo isto não passa de alguns destinos e desatinos do mês de agosto. Vem mesmo a propósito (ou a despropósito) a badalada canção de Dino Meira “meu querido mês de agosto”. Para os que queiram ouvir ou reouvir este tema musical, cá fica a hiperligação: https://www.youtube.com/watch?v=fiPh62iyLz0.
Abençoado mês de agosto que traz os filhos deste país às suas origens. Cá os esperam as famílias, amigos, romarias e arraiais. E certamente que alguns destes nossos conterrâneos espalhados pelo mundo, quando regressam, também gostariam de conhecer o que se faz de bem, na área das artes performativas na sua terra de origem. Mas com esta política de férias às artes de palco em agosto, nada feito.
Muitos, devem estar a pensar ou a repostar que o mês de agosto é para dedicar-se às atividades realizadas ao ar livre. Não podia estar mais de acordo. E o que não faltam por aí, são eventos culturais na rua e de puro entretenimento, com cartazes de “encher o olho”. Podemos juntar ainda a este rol de animações, as semanas gastronómicas, as festas religiosas – que cada vez mais, têm maior afluência de pessoas na rua, do que dentro das igrejas. Na verdade prolifera nesta data, de lés a lés, uma ampla e ambiciosa oferta de festivais de música de verão, promovidos tanto pelo setor público, como através de iniciativas privadas. Somos mesmo uma sociedade do espetáculo. Por vezes, é demais. Na realidade, são eventos em excesso e em sobreposição, numa ilha tão pequena.
E então em ano que antecede os atos eleitorais que aí vêm em força – em 2019 serão três sufrágios para animar as hostes – o que não faltam por todo o lado, são diversificadas sugestões de eventos “à borla” – pagos indiretamente por todos nós, quer queiramos ou não.
Mas o mais importante é sabermos que ao optarmos pelo contacto ativo com as artes em geral, além de ser um momento de encontro, abrimos novos caminhos para a criatividade e a inovação. Daí, seja no mês de agosto ou não, contamos sempre com a disponibilidade de todos para celebrar as artes em prol do desenvolvimento sustentável, da cidadania, da diversidade e da paz.


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