All  You  Need …

Um slogan repetido ao longo do tempo chegou aos topos da nossa rotina, como marco essencial  de emergências  primordiais: «All you need…is love».  Utilizando a expressiva canção dos Beatles, a banalização dum programa televisivo  de  formato  holandês que avassalou audiências nos anos 90, subestimou o ecletismo que tornava o slogan «máxima» importante na arte de conduzir a vida. No entanto, e apesar disso, o seu contexto não se alterou e, neste momento, apenas uma palavra se substituiu, afim  de se afirmar outra necessidade essencial que apela a uma visão estética do mundo, à consecução de múltiplas emoções, à elaboração de ideias e expansão do pensamento. Então, dando lugar às teses de carácter educativo a «máxima» tornou-se em «all you need is Art».

«All you need is Art»  é a grande exortação que o cinema italiano nos dirige através de dois excelentes registos sobre a obra de duas figuras geniais da Pintura Renascentista da Escola Florentina. Entre muitos, (porque são muitos os nomes que a História refere, mas se diluíram na corrente dos séculos), resistem na memória colectiva dos povos ocidentais, e conferem à Europa e sobretudo à Itália o brio e a grandeza que as distinguem na esfera global dos grandes territórios. Esses  nomes são os de Sandro Botticelli e Rafael Sanzio.  Botticelli precedeu Rafael,  é autor da conhecida Primavera e do Nascimento de Vénus, interpretou o Inferno de Dante e está presente na Capela Sistina e na Galeria Uffizi. Qualquer deles tem lugar próprio e impar no panorama geral da Arte, especificamente, na Arte dos séculos XV e XVI.

Falar destes dois percursos, apenas falar, dar conta das centenas de telas e frescos que enobrecem os ambientes dos palácios, edifícios civis e igrejas, que transformam enormes paredes de pedra  em retábulos vivos, esplendorosos de cor e de formas, páginas e páginas de pensamento e de História, de nobres técnicas pictóricas já desaparecidas, falar de tudo isto, é somente um  simples e pobre modo de «recordar». Servir-se das prerrogativas da memória apenas poderá acalmar a ansiedade de  querer usufruir in loco das emoções que só o «ver» pode realmente despertar.

Por isso,  lamento que este texto possa ser apenas um mero debitar de frases gastas, quando, aquilo a que se refere, somente um bom registo de imagens pode tornar evidente. No entanto este é o único meio possível para realçar a Festa do Cinema Italiano, que a agenda do teatro Baltazar Dias nos proporcionou na última semana.  Uma oportunidade que me fez voltar ao passado, quando se folheava a História da Arte e a Pintura nos surgia em todo o esplendor dos grandes retábulos, mitos e alegorias, quando, nas Escolas de Belas Artes, ainda era possível experimentar o prazer de amassar as tintas, produzir as têmperas, postar a argamassa para receber a pintura a «fresco», uma das técnicas mais difíceis, cujas pinceladas se queriam rápidas e exactas,  para que o caulino as absorvesse, o desenho se mantivesse puro e a pintura se tornasse espontânea e límpida como a aguarela.  Eram técnicas nobres, hoje inexistentes, herdeiras da tradição que o Renascimento projectou e conseguiram ainda chegar, embora temporariamente, aos primeiros anos da nossa contemporaneidade.

Mas vou ultrapassar este desvio onde assumo convictamente alguns ressaibos de nostalgia e acentuar, como devo, a memória de Rafael Sanzio, — o Príncipe das Artes – criança precoce que se tornou no gigante criador duma obra  monumental, salientando-se pela facilidade de execução, pelo ecletismo, pelo estilo e a técnica, pelo domínio da composição, a harmonia do desenho e da cor, pela qualidade de ser pensante. Incansável criador e executante, é forçoso constatar o número assombroso de obras que Rafael realizou no curto período da sua vida de apenas 37 anos. Morreu deixando inacabados alguns dos seus painéis  no Vaticano. Vida tão curta e tão vivida em compromisso com a Arte, Rafael é exemplo de trabalho, dedicação total à aria que escolheu para aplicar o seu talento, para conduzir a sua vida na procura constante da mestria, na investigação da História e do Pensamento. Veja-se o grande «fresco» A Escola de Atenas onde o pintor reuniu os grandes mestres da Antiguidade. Lá estão Aristóteles, Platão, Pitágoras, Euclides, Sócrates, Diógenes, Alexandre, Minerva, Zenão, Ptolomeu, Averróis, e muitos outros, numa totalidade de 40 e mais figuras, cada uma delas ostentando a representação simbólica do próprio estatuto. Rafael serviu-se de pessoas reais para realizar os retratos, tendo escolhido Miguel Ângelo para modelo de Heráclito. Margherita Lupi, La Fornarina, foi a grande musa, inspiradora das suas Madonas.

A Festa do Cinema Italiano veio trazer um  testemunho de como a Arte nunca é extemporânea. Bendigo quem tal tornou possível. Se o slogan aqui introduzido no início valer pela verdade que contém, volto a repeti-lo, num desafio aos descrentes sobre os desejáveis processos de bem conduzir a vida : «All you need is Art.»