Como vivi o 25 de abril e como o sinto hoje

 

Quando no dia 25 de Abril de 1974, tinha eu 23 anos, me transmitiram em voz baixa e com muita cautela a notícia do golpe militar contra a ditadura do Estado Novo, a minha primeira reacção foi de incredulidade. Depois do fracasso do Marcelismo e a passagem ao ataque da linha dura do regime, pensei que a Ditadura ia ainda durar muitos anos. Durante esse dia e ainda no dia seguinte, o chefe de secretaria da Câmara Municipal, onde trabalhava, de vez em quando saía do seu gabinete, onde se refugiara após as primeiras notícias do golpe, para nos assegurar que a situação estava controlada pelas forças fiéis ao regime e que a aventura dos revoltosos iria sair cara. Alguns dias depois, esse senhor foi alvo duma grande manifestação de repúdio junto à Câmara, acusado de corrupção e abuso do poder, tendo sido necessário chamar a tropa para subtraí-lo à fúria popular e poder conduzi-lo ao Funchal, rumo a Lisboa. Quanto ao Presidente da Câmara, que dirigia o concelho como se tratasse duma quinta sua, de forma ditatorial e policial, com claro nepotismo e abuso do poder, de nada lhe valeu ter encenado uma conversão à democracia dois dias depois, ao dar o nome do general Spínola a uma rua da Vila.

O triunfo do golpe militar trouxe-me uma imensa e profunda alegria, daquelas que saboreamos melhor no silêncio da nossa alma. Há muito tempo que eu era um crítico da Ditadura, porque na escola por onde andei, preferia ler jornais e revistas a ouvir relatos de futebol, ao contrário do que me sugeriam então os meus formadores, apostados em que eu fosse mais igual aos outros. Interessava-me muito por política, o que preocupava esses mesmos formadores e o futebol não me dizia nada (tal como hoje, perdoem-me os aficionados…). Nas eleições de 1969, o presidente da Câmara da minha residência prometeu que ainda haveria de me “cortar a língua” e o meu pároco irritou-se com “a liberdade que eu pregava”. Em 1970, quando comecei a trabalhar numa outra Câmara, assisti a um telefonema da PIDE para o então chefe de secretaria (que não era o mesmo de 1974), em que este teve de protestar repetidamente que eu era bom rapaz, bem-comportado e responsável e que se alguma coisa constava contra mim deviam de ser aquelas verduras próprias da idade. Esteve em risco a minha toma de posse oficial como escriturário-dactilógrafo daquela secretaria.

Rejubilei, pois, e acreditei no 25 de Abril que em breve deixou de ser um simples golpe militar para se transformar numa revolução. Apaixonei-me pela revolução, apesar de seguir com alguma apreensão e receio o ritmo acelerado das mudanças, que eu tinha dificuldade em acompanhar. Acreditei mesmo que era possível transformar o mundo, que estava a viver esse processo de instauração da justiça, da fraternidade e da liberdade, afinal o cumprimento dos ideais da Revolução Francesa… Na generosidade dos meus ideais, no voluntarismo de que hoje ainda sobra alguma coisa, na ingenuidade própria da idade, dei o meu modesto contributo à revolução, com as contingências de quem vivia numa zona rural. Com um grupo de rapazes, um pouco mais novos do que eu, fundámos um Centro de Convívio e Informação, que animou socialmente e culturalmente novos e velhos, possibilitando a leitura de jornais, disponibilizando um televisor, cedido pela Casa do Povo, iniciando um curso de alfabetização de adultos, etc… Mas dada a rebeldia própria da idade e animados pela pureza dos nossos ideais, recusámos submetermo-nos aos velhos e novos cacique políticos, que rapidamente se afirmaram, ganhando também a hostilidade do pároco que ainda consentiria que o Centro fosse de convívio mas não de informação. O Centro foi alvo de assaltos arruaceiros e esteve durante alguns dias com ameaça de bomba, pelo que foi impossível manter o seu funcionamento.

À distância destes anos, como sinto hoje o 25 de Abril? Faço um esforço por não sentir saudades daqueles anos áureos de fé e esperança, porque compreendo que a vida humana é uma marcha rumo a novas terras prometidas e temos de desenvolver sempre a nossa capacidade de inventar novas cadências para novos passos. Sinto uma enorme gratidão para com aqueles que arriscaram as suas vidas e deram generosamente o seu contributo para o triunfo duma etapa importante na vida do país. Os valores da democracia, participação política, liberdade, descentralização do Estado, justiça social, alfabetização e enriquecimento cultural, democratização do ensino, suscitados pelo 25 de Abril, fazem-me concluir que valeu a pena. Na mesma proporção, sinto desprezo pelos vendilhões que se instalaram no templo da Democracia, para tratarem dos seus apetites vorazes de poder político e económico. Continuo com a mesma vontade de transformar o mundo, no sentido da busca duma maior liberdade, progresso e justiça social, mas estou cada vez mais consciente de que uma andorinha só não faz primavera. Continuo a acreditar que, mesmo sendo a vida curta, a felicidade não está na pilhagem voraz de bens materiais e regalias egoístas. Creio na força da vontade pessoal, nos princípios orientadores das religiões e na eficácia do contributo das instituições particulares, para levar a bom termo essa transformação da sociedade, mas ainda acredito que cabe ao Estado um papel importante de dinamizador e suporte dessa revolução contínua.

Celebrar o 25 de Abril de 1974 não é apenas um acto de elementar justiça, é também e sobretudo um uma acção pedagógica da mais alta importância. Cuidemos, pois dos cravos, não os deixemos murchar com as intempéries dos tempos; antes, procuremos plantar novos cravos neste jardim que é, apesar de tudo, a vida.